Jamais havia reparado nele. Aparentava uma melancolia funda, funda, que jamais me despertou interesse. Dele só sabia que gostava de escrever. Certo dia, houve uma reviravolta em sua vida, forte o suficiente para que eu viesse a perceber que algo havia mudado em sua aura. Sorrisos, palavras de perseverança e transformação. Como otimista que sou, acredito em mudança e tenho certa sensibilidade para perceber quando algo está diferente. Quis chamá-lo para sair. Tomamos um, dois, três chopes, gargalhadas e descobertas. Suas mãos a tocar as minhas, seu carinho a tocar meu rosto.

Entre lençóis brancos e travesseiros de pena, reparei alguma falta de confiança, frustrações profundas e a plena necessidade de ser alguém, como se o que já era não fosse o suficiente. Até parecia que na ausência de ser alguém que se queria, só ser bom profissional estava de bom tamanho, como se a vida não fosse muito mais do que o nosso emprego. Mas afinal, quem nunca pensou dessa maneira? “Bem, deixe-me utilizar o que faço de bom para fazer valer minha existência”. E aí começam as mais profundas frustrações, o gosto ininterrupto por coisas de fácil acesso que cubram a ausência de fatores emocionais, existenciais. A nossa mania humana de buscar ao redor a motivação ou preenchimento do que deveria existir dentro de nós.

Incontáveis quarteirões de distância, há semanas com o plano de visitar uma amiga e algumas milhas aéreas quase vencendo na carteira. Ou em outras palavras: a reluzente característica sagitariana que adora quem está longe. De parágrafos e parágrafos para outros, mais lençóis brancos e, desta vez, sem travesseiros de pena — eles me machucam. Pouco antes do café da manhã, um orgasmo. Depois do almoço, o deleite de outras ardentes carícias. Mais percepções emocionais, que agora se limitam aos gestos e menos às palavras. Um adeus sonolento e outros incontáveis quarteirões de distância. Dés vu. O desejo intermitente de prolongar os bons momentos na memória, e se possível esquecer aqueles que deixaram escapar a desconfiança de um futuro bom, um futuro feliz, um futuro que é possível ao lado de quem se sabe quem é num dia, se conhece anos depois e se conecta após algumas horas de sinceridade mútua, sorrisos fáceis e alguns suspiros. É difícil encontrar esse tipo de conexão, não? Geralmente demoramos semanas, meses para ter a sensação de que conhecemos profundamente uma pessoa, para ler cada centímetro de gesto e, mesmo que entenda uma verdade maquiada, saber que é minimamente a verdade do meio. E aconteceu. Por algumas semanas aconteceu de ambos os lados, mas depois de algum tempo manteve-se do outro, só do outro, e logo do lado de cá. Quem sabe se foi a necessidade que algumas almas têm de ter alguém ali ao lado, para amar e ser amado com frequência. Para alguns pouco basta toque e pele, é necessário ainda sentir o aroma do outro todos os dias. A presença por sintonia é coisa pouca. As palavras, que muitas vezes dão sentido aos gestos — e vice-versa — são só mais um instrumento que, embora não tenha menor valor, precisa ser ancorado pelo toque, pelo soprar de leve no rosto. Para algumas pessoas a metafísica não existe em seu sentido pleno, só no âmbito das ideias, a felicidade precisa ser física, corpórea.

Alguns dias. Um mês, dois, três meses ou um pouco menos. Conto ligeiramente para minha melhor amiga que ainda lembro dele. Nunca mais ouvi falar, menos ainda procurei saber sobre. Para quê? Ao menos aprendi a tirar o rei da minha barriga, como dizem por aí. “É egoísta demais achar que o outro precisa responder às suas expectativas. Já parou para pensar se é você que não responde às dele?”.

Véspera de Natal e recebo uma mensagem. São alguns meses depois da última vez que ouvi notícias dele. A Lua estava em Câncer e eu fiquei atordoada. “Putz, isso faz muito sentido, astrologia é real mesmo!”. E se antes tudo veio a calhar, não foi o que houve dessa vez. Talvez o deslize no caminho do meio tenha tornado a trajetória mais difícil, ou simplesmente impossibilitado ela. Talvez precisasse esse tanto acontecer só para que eu parasse de olhar tanto para o meu umbigo. Talvez ele só precisasse de algo que hoje em dia já nem faço ideia. Talvez, talvez. Se antes todos os astros se moveram para que nos encontrássemos e fôssemos felizes naqueles momentos, desta vez eles preferiram o caminho contrário. Ou eu preferi. Ou ele preferiu. Não sei. A gente raramente sabe.