Eu não sei o que ele viu em mim. Hoje eu saí mais cedo, sentei no chão da praça e ouvi Recomeçar. Vi as pessoas e os pombos passarem. Fotografei com minha câmera analógica. Vi um casal de adolescentes de mãos dadas. E chorei.

Eu não espero que minha escrita emocione alguém. Ela nem me emociona. Mas eu espero que você consiga visualizar as cenas que descrevo, e que isso lhe toque. Eu trabalho com imagens, no final das contas.

Vai ter copa, vai ter carnaval, mas continuo errado. Tanto faz.

Houve uma época em que simplesmente parei ouvir qualquer tipo de música nacional. Não era preconceito. Nem síndrome de vira-lata. Era covardia.

Não sou fluente em inglês, então quando ouço músicas nesse idioma (ou em qualquer outro que não domino) a melodia vem em primeiro lugar. E só depois, bem depois, depois de pescar uma frase ou outra no ar, procurava saber do se tratava a letra, o impacto era menor. As vezes a tradução me fazia gostar mais música, outra vezes eu desapegava. Existem canções do Arctic Monkeys, ou do The Doors que até hoje eu não sei do que se tratam realmente. E tudo bem pra mim.

O problema é que não conseguia mais ouvir nada no meu idioma, porque aquilo era pessoal demais pra mim. Era muito próximo, e o fato de ser dito na minha língua mãe, fazia parecer que era sobre mim também, eu me identificava de uma forma ou de outra. Doía. Quando você precisa lidar com um pé na bunda, a última coisa que você quer, é ouvir um cara falando abertamente sobre pé na bunda. Então eu parei, por medo da dor.

Nessa época eu me afundei em Ultraviolence. E na maioria das vezes eu sabia o que a Lana Del Rey queria dizer, mesmo não entendendo completamente seu idioma, porque mulheres que foram chutadas falam a mesma língua. E ela foi minha melhor amiga nesse período. E mesmo sua música traduzindo tão bem o que sentia no momento, eu ainda podia dizer que aquilo não era sobre mim, ainda tinha o distanciamento da língua, era só um personagem. E aquilo era confortável.

Não tem conclusão, é só isso. Ainda é difícil, algumas canções são como um soco, eu nunca levei um, mas imagino que deva ser parecido com Vamos Assumir.

Eu acho que tô enlouquecendo. Não me culpe.

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