O Terno

Acho que foi mais ou menos em 2014 que baixei os discos d’O Terno para ouvir. Eu já tinha visto o clipe de 66 na MTV umas 500 vezes, e até que era bacana, nada demais, mais uma banda, não era nenhum Apanhador Só afinal. Rs

Nem cheguei a ouvir o primeiro álbum e transferi o segundo para o celular (isso parece arcaico até para 2014) para ouvir durante minhas andanças por aí. Não lembro o que senti faixa a faixa, e até hoje não entendo como pude ficar indiferente a O Cinza, mas lembro de chegar em Eu Confesso e parar por ali mesmo, não quis ouvir mais nada.

Eu confesso / Que gosto das moças do bairro onde eu moro / Do estilo indie-hippie-retrô-brasileiro / Que habitam os bares e ruas daqui

Esses versos me irritaram de tal maneira que passei a mostrar meu desdém pela banda sempre que tinha oportunidade. Eu passava por um momento bem estranho em relação a minha identidade, como me via e como queria que os outros me vissem, meu cabelo… enfim, uma confusão de coisas que provavelmente nem eram tão importantes, caso contrário me lembraria delas com clareza. A questão é que, senti que não era uma daquelas moças da música. E isso me ofendeu porque naquela época, pra mim era importante ser uma delas. Longa história sobre autoestima, um dia talvez eu fale melhor sobre isso.

Como uma simples canção poderia me levar a um lugar tão obscuro da minha mente? Não sei, mania de perseguição e paranoia, talvez. Mas eu esqueci, e segui detestando O Terno. Pra mim, eles não passavam de um bando de moleque rico metido a besta. Tolinha.

2016. Meus amigos e eu passamos o dia gravando um curta metragem pra faculdade, dia bom. Renan sempre colocava O Terno para tocar no carro quando estávamos juntos, e naquele dia não foi diferente. Quer dizer, foi diferente, porque naquele dia estava me sentindo feliz, acolhida e segura. E Lua Cheia me atingiu de uma forma positiva. Me atingiu de forma tão positiva que deu vontade de ouvir mais. Todos os caras tristes com os quais convivia amavam O Terno. E eu os considerava inteligentes e de bom gosto, então dei uma segunda chance e fui ouvir Melhor Do Que Parece.

Eu tenho achado tudo chato, tudo ruim / Será que o chato aqui sou eu? / Será eu que fiquei viciado em novidade / E agora o tédio me enlouqueceu?

Que álbum, meus amigos. Naquele momento eu tive que engolir todas as besteiras que havia dito e reconhecer quão bom era aquilo. Daí pra frente fui me apegando a cada faixa de forma muito especial. Até me ver chorando um dia enquanto ouvia Volta, acabou, eu estava apaixonada de novo. Pelo Terno, por você, por mim. E pela sensação boa que aquele momento me trouxe.

E os momentos que tivemos e ainda vamos ter
As viagens que fizemos e vamos fazer
Ou nos tempos mais difíceis que eu te confortei
Se eu chorei você chegou, me confortou também
E o amor que a gente tem e sempre vamos ter
E essa música depois que a gente morrer

Como uma simples canção poderia me levar a lugares tão incríveis e nunca antes acessados pela minha mente? Eu não sei, mas aquelas canções eram tudo, menos simples. Então voltei ao segundo álbum, e aquilo era incrível. Eles realmente sabem o estão fazendo e a impressão que tenho é que tudo está onde tem que estar, nem mais nem menos. É complexo. É belo. É sublime.

Você já ouviu O cinza? Brazil? Não me faça falar de Desaparecido.

Eu preciso falar de Desaparecido
Estava a caminho da fisioterapia quando ouvi a canção pela primeira vez, nos primeiros versos fiquei intrigada e curiosa, tantas coisas me passaram na hora, aquele clima de sessão da tarde, sertanejo raiz na cozinha dos meus avós, flashes bons da minha infância. A cada frase ficava mais apreensiva, e então a última frase da última música do álbum. Enfrentar o vazio. Silêncio. Só o barulho dos carros a minha volta. Naquele momento eu soube, era grande.

Mas há por vir 
Muita beleza ainda
Você tem toda uma vida
Pra viver o que ainda nem chegou
E se não deu, vai dar
Ou paciência
Nem sempre o que a gente pensa
É realmente o que vai ser melhor

Eu chorei aquele outro dia, chorei no show da semana passada, e vou chorar muitas vezes mais, como choro agora. Isso me emociona. Ter uma percepção súbita sobre algo, o segundo único em que você sai de si e enxerga o mundo como um todo, e você sente. Isso é bonito.

Esse texto é sobre O Terno, acima de tudo. Mas é também um texto sobre mudar de ideia, e não ter medo disso. E sobre como nossa relação com nós mesmos distorce a forma como enxergamos o mundo a nossa volta.

p.s.: Eu mudei minha ideia a respeito do Apanhador Só, inclusive.

p.p.s.: Tim, eu te amo.