Eai, você é MACHO ESCROTO ou HOMÃO DA PORRA?

Recentemente, depoimentos de violência e abuso por parte de componentes da banda Apanhador Só me fizeram pensar ainda mais sobre essa problemática dualidade entre referencia e referencial que temos mais acentuada atualmente.

De um lado o HOMÃO DA PORRA, de outro, o MACHO ESCROTO. Dois lados de uma mesma realidade exposta em nossos dias: a representação do masculino dentro de uma sociedade que sempre o privilegiou enquanto ser social. Tal contraste revela e incorre duas perigosas situações principalmente a nós, homens.

Primeiro, a necessidade de não nos envaidecermos na ilusão de que SOMOS SERES SUPREMOS, iluminados HOMÕES DA PORRA e livres de qualquer atitude escrota. Tal elogio é transitório, nunca deve ser fixo. NUNCA. Tomar consciência disso permite mais espaço de questionamento a nós e menos frustração por parte daqueles/as que nos lançam tais adjetivações.

O segundo, confluindo diretamente com o primeiro, é a crença de que, por mais que nos sujeitemos à desconstrução dos dispositivos machistas presentes em nós desde a infância, ainda assim, tendo em vista a criação, o conteúdo a que estamos expostos constantemente e principalmente os privilégios que temos, hora ou outra seremos um MACHO ESCROTO.

Compreender, aceitar e fazer dessas tomadas de consciência parte dos nossos dias não deve ser motivo de resignação ou ódio ao masculino, e sim motivo de mudança autêntica em busca de igualdade real entre os gêneros. Afinal, é o que buscamos – ou, idealmente, deveria ser.

A denúncia e exposição ainda parte quase unicamente daquelas que sofrem os abusos e a desigualdade massacrante entre os gêneros. E nós, homens, preferimos, muitas vezes, acobertar, fingir que não viu nada ou ainda, relativizar tais acontecimentos: “será que foi assim mesmo?”, “ah, ela tá querendo chamar atenção”. De longe, bem de longe, nos olhos ingênuos isso pode parecer ensejo para “justiça”.

No entanto, ao se olhar mais de perto, o discurso real e velado é outro: “defendo o cara, me calo, prefiro não opinar, pois também faço ou já fiz o mesmo que ele – vai que eu sou o próximo”. Ainda que exista o tal desejo nobre de justiça ao avaliar casos como o da banda citada, tal atitude é, ainda assim covarde e extremamente machista: convém mais achar que a menina está mentindo a acreditar que o cara foi mesmo um baita escroto. Falta de empatia com quem sofre da violência masculina, agora mais uma vezes.

Enquanto nós, homens, continuarmos nessa medíocre relação de paixão aos nossos privilégios manchados de vermelho sangue e hematomas, convivendo com a falsa crença de que somos HOMÕES DA PORRA em tempo integral, nos manteremos MACHOS ESCROTOS – passíveis e merecidamente sujeitos à exposição e escárnio das vítimas de nossas hipocrisias.

Daniel Rocha