A matriosca macabra: uma barbárie dentro da outra

Não queria tocar nesse assunto, primeiro porque a rede social esteve inundada por ele nos últimos dias, segundo porque conforme os fatos são elucidados cresce a impressão de que… bem… pode ser que a realidade esteja um tanto deslocada de toda a literatura produzida.

Relata-se um estupro. No minuto seguinte temos mais que um estupro, temos uma “cultura do estupro”, seja lá o que isso signifique. O que quero chamar atenção nessa mensagem é uma demanda, uma questão subliminar que, talvez por falha minha, não vi ninguém abordar.

Tenha acontecido ou não o crime, esteja esse tipo de crime crescendo ou não, seja a sociedade machista ou não, é muito importante para a causa feminista que a existência da tal “cultura do estupro” se consolide na opinião pública. A “cultura do estupro” é importante para as feministas como a exploração dos empregados pelos patrões (a mais-valia) era importante para os velhos socialistas.

A chave para entender isso é o aborto. Todos estão cansados de saber que a grande bandeira do movimento feminista, há algumas décadas, é a descriminalização do aborto. Ao longo das últimas décadas, por razões que não cabem ser exploradas aqui, emergiu na sociedade uma noção — uma “jurisprudência”, vá lá — de que as gestações fruto de um estupro podem ser interrompidas. (Discordo dessa visão, pois no final das contas ela implica que alguns inocentes têm mais direito à vida que outros).

É possível que as lideranças intelectuais da causa feminista tenham percebido o isso: as pessoas ficaram insensíveis aos abortos motivados por estupros, o que não se aplica à maioria dos outros casos de gestação. Nesse sentido, é muito importante que sejamos sensibilizados para algo muito além dos crimes de violência sexual, é preciso que haja uma “cultura”, ou seja, uma prática comum e disseminada dessa barbaridade contra as mulheres.

Não requer muita inteligência para detectar o próximo passo. Dado que a palavra da mulher é muito forte para se determinar a ocorrência do “sexo não consentido”, tem-se que a prática do aborto está virtualmente legalizada. Toda gravidez que por algum motivo passe a ser indesejada pela mãe, essa terá a carta do estupro na manga.

“Eu estava numa festa, fui alcoolizada e não lembro mais o que aconteceu. Não lembro da feição e nem do nome do sujeito”. Junte duas ou três testemunhas e quem contestará tal versão? Mais fácil provar as (supostas) consequências negativas da gestação que a veracidade da história.

Como na matriosca, aquela boneca russa cuja diversão é descobrir quais bonecas estão escondidas dentro dela, as bandeiras dos movimentos de esquerda sempre escondem outras demandas ou, na melhor das hipóteses, outras consequências. A histeria criada em torno do bárbaro crime de estupro, que merece as mais severas punições, pode ser uma grossa cortina de fumaça que esconde outro pleito: o direito à prática de outra barbaridade, o aborto.

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