As escolas de samba são importantes: indo além dos R$3 bi

Alguns movimentos políticos e artísticos brasileiros já tentaram e tiveram certo êxito ao pensar a identidade nacional. Para um país com a história do Brasil, isso é um grande desafio uma vez que envolve os interesses de uma elite que optou por não incluir o povo na definição identitária — o Brasil era negro demais pra isso.

É (também) por isso que as escolas de samba são importantes. Através delas foram conjugados agentes e narrativas inicialmente periféricas, mas que se fizeram centrais e, por isso, foram essenciais para a nossa atual compreensão de país. Muito do que a elite política e econômica, desde a Independência, fingiu não ver como parte do povo e do país recém-formado se fez presente através da atuação desses sujeitos que formaram as escolas de samba.

Na época em que surgiu a primeira escola de samba, início do século XX, a cidade do Rio de Janeiro encontrava-se em disputa: a política higienista da reforma urbana impunha um novo padrão urbanístico e isso se refletia inclusive nas frivolidades e festejos carnavalescos da população. A perseguição do prefeito Pereira Passos à prática do entrudo (a mais antiga forma de festejo carnavalesco do Rio, tendo origem portuguesa) e a atuação firme da polícia no controle da Festa da Penha são exemplos da tensão racial e social que encontrava nas esquinas da cidade o seu espaço de enfrentamento.

Nesse contexto, os sambistas promoveram os mais diversos diálogos com o poder público e a sociedade a fim de mostrarem-se como sujeitos legítimos e sobretudo ordeiros. O episódio de batismo da Portela como sugestão (irrecusável) do delegado que não aprovaria o nome anterior (Vai como Pode) é sintomático: o poder público sempre teve dificuldades em lidar com os sambistas e muitas vezes recorreu à força para relacionar-se com eles. Enquanto pôde, fez imposições e exigências, ao passo que os sambistas ganhavam respeito e legitimidade.

É de meados do século XX a iniciativa dos próprios sambistas em abordar temas nacionais como enredos dos seus desfiles (o que serviria, entende-se, para reforçar a legitimidade desses sujeitos). Esse fato é determinante, pois indica a condição de altivez que os sambistas conquistaram com o passar do tempo.

Também remonta aos primeiros anos de desfiles a conquista da subvenção municipal para a confecção dos desfiles carnavalescos pelas escolas de samba. Festejado, o fato virou tema dos desfiles no ano de 1935 em agradecimento ao prefeito Pedro Ernesto e já no ano seguinte o valor da subvenção foi significativamente aumentado, tendo chegado a 40 contos de réis — que estava bem abaixo dos 100 e 120 contos de réis, respectivamente, para os ranchos as grandes sociedades (parte do chamado “carnaval chic” carioca).

De lá para cá, as escolas de samba, como estruturas sociais dinâmicas que são, passaram por diversas transformações. A chegada do patronato é uma página importante dessa história, mas é constante e erroneamente tratada como a mais simbólica. A rigor, quem não entende os meandros de formação, ascensão e consolidação das escolas de samba (processos anteriores) talvez tenha dificuldade em entender por completo a chegada dos bicheiros (processo posterior).

A decisão da prefeitura do Rio de Janeiro, em 2017, de reduzir em 50% o valor da subvenção às escolas não pode ser tratado apenas pelo viés econômico. Essa temática é insuficiente para explicar a importante correlação de forças entre os sambistas e os demais agentes da cidade em perspectiva histórica e contemporânea.

É claro que os R$3bi que circulam pela cidade nos dias de carnaval são importantes e movimentam a economia carioca, gerando renda, empregos diretos e indiretos. Só que não é por aí que devemos defender a festa e seus simbolismos — a própria RioTur já tem falado que desse monte de dinheiro que circula de fantasia e purpurina nos dias momescos “apenas” R$90 milhões chegam aos cofres públicos.

A argumentação exclusivamente econômica abre espaço, ainda, para o aprofundamento do danoso processo de privatização do carnaval carioca como um todo e das escolas de samba em especial. A RioTur (novamente ela) aponta que a saída para a redução da subvenção é a busca de parcerias privadas, sem se preocupar com o simbolismo e a relevância cultural da festa.

É chegada a hora de repensar o todo, inclusive a forma de financiamento das escolas de samba.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Daniel Martorelli’s story.