
O Drama da Criatura
Próximo ao lançamento de Blade Runner 2049, a dita sequência de Blade Runner Caçador de Andróides, ficam vivas as memórias do primeiro filme, e as expectativas se propagam. O chamado “hype” é sentimento comum dos que já conheceram uma das maiores obras de ficção científica de todos os tempos. Em vista disso, é interessante olhar com os olhos da fé para a peça dramática exposta no filme, e inspirada no romance “Do androids dream of eletric sheep?”.
Inicialmente, e em primeiro plano, estabelece-se uma discussão ética robótica/humana. A questão da escravidão dos androides na exploração e colonização espacial, as limitações a eles impostas, e a ligação destas imposições com a rebelião dos Nexus 6. O filme elege de maneira profunda e bela, reflexões sobre os condicionais de dignidade moral, colocando em pauta os parâmetros de manifestação legitimamente humana, e de humanidade nos contextos “hipermodernos”. É preciso assumir a amplitude do primeiro plano do filme, mas não se entregar aos ciclos eternos de contemplação humana.
Por trás dessa obra cinematográfica, no “segundo plano”, ergue-se um drama da criatura. Ele se desenvolve com o enredo sugerido e nos remete a textos muito mais fundamentais do que o romance norte-americano de ficção científica poderia ilustrar.
No simulacro transmitido pelo filme, os androides se encontram rebeldes em relação às designações iniciais de criação, e sua revolta lhes acarreta limitações e consequências. São banidos do planeta Terra, o ambiente inicial de desenvolvimento que lhes foi idealizado, e lhes são impostas limitações temporais, ou seja, a mortalidade.
Na sequência, o grupo rebelde, dotado de uma noção identitária frágil, parte em busca do criador, com questões fundamentais em relação ao próprio ser, aos propósitos de criação, e principalmente, lutando ardentemente contra as limitações temporais que seus corpos contém.
O encontro do androide com cada criador é seguido de cenas emblemáticas de assassinatos. As mortes simbolizam antes de tudo, atentados contra a própria imagem, e o próprio ser dos androides, não libertando-os de suas condições, mas expressando a severa raiva em relação aos idealizadores. A profundidade da sua rebeldia os leva a destruir cada fragmento da sua personalidade inspirada.
A redenção proposta toma lugar na inversão de papéis de perseguição com o caçador de androides. Roy, o último Nexus 6, salva Deckard (o caçador) da morte, e em uma das cenas mais icônicas do cinema, com um dos monólogos mais belos das obras de ficção, encontra-se em paz com suas condições, e preparado para a morte, e para “perder-se” em meio ao caos do fim de sua existência.

O grito da obra pode tecer as conexões com sua concepção de realidade. O filme não pode ser colocado como representação exata de todas as particularidades das nossas características antropológicas, e muito menos, dos atributos perfeitos do nosso Deus criador e seus propósitos relacionais. Ele está permeado de sutilezas que negam o Criador, e a totalidade de sua realidade criada. Porém, cada ponto do enredo revela a necessidade “inconsciente” do humano de reconstruir o arquétipo do nosso “drama” de criaturas. Revela a necessidade de “eleger” um redentor, e a necessidade de redenção. Mostra cada ponto dos passos tomados pela humanidade em rebeldia para com Deus, e a profunda necessidade de militar contra seus atributos, desconstruindo tudo no que fomos chamados a ser coparticipantes na construção. O humano fadado a revelar seu criador mesmo em sua milícia e rebeldia, explicita os tácitos desejos infinitos. A própria sugestão de um criador humano, caído, o condena a criar a partir de suas imperfeições e para seus fins vãos.
O Deus eterno e perfeito, concede a sua imagem e semelhança, e com propósitos. São diferenças fundamentais. Não criados para a servidão, mas para a relação. Não feitos para a morte, mas a mesma revelando aspectos ainda maiores do sentido de nossa existência. O filme mostra uma atmosfera de “desespero”, não na sua composição visual, mas ideológica. O caminho da redenção proposto envolve a desconstrução de muito o que compõe os ideais divinos para a existência humana. Graças ao Pai não somos como “lágrimas na chuva”, mas em Cristo, seu filho, somos parte de um corpo, um corpo vivo e que foi chamado à relação perfeita com seu criador.
