Watts, George Frederick. The Minotaur (1885); Oil On Canvas.

Caos irresolúvel, âmago inalcançável.

Dúvidas sempre foram uma constante no decorrer da história humana, cada uma diferente em sua essência e em suas respostas: os povos antigos buscavam suas explicações no sobrenatural e no misticismo; os gregos clássicos procuraram na razão uma forma de explicar o mundo; os medievos tentavam explicar Deus racionalmente; os modernos queriam uma definição epistemológica absoluta e assim por diante, até a hodiernidade.
Acredito eu que todas as questões que os antepassados levantaram, em seus momentos de abstração e incerteza, foram deveras importante para a construção gradual da nossa atual perspectiva cosmológica. Entretanto, não reconheço qual o sentido final de toda a busca pelas soluções de perguntas essencialmente humanas, já que todas elas chegaram, em máximo instante, a apenas uma superlativa perplexidade e a última delas: a vida realmente vale a pena ser vivida?
E é nessa questão que eu imagino o Minotauro de Frederick Watts se afundando. Claro que, filho de um relacionamento extraconjugal e contranatural, vítima da vaidade humana e da soberba divina e destinado cruelmente a viver trancafiado em um labirinto durante toda sua passagem por esse mundo, o Minotauro não deve possuir muitos motivos para qualquer euforia ligeira. Por isso, ele olha, desolado, para nada, precisando, talvez, aceitar-se como o monstro que é, quiçá reconhecer sua própria existência como o mal — não é mais lógico entender que a vida apenas não vale tudo isso? Que você não vale tudo isso?
Talvez não tenhamos as esconjuras sombrias que assolam o ser dessa criatura mitológica, mas o que nós temos? Nós temos objetivos vãos, temos nossa liberdade condicionada pelo meio, os ganhos da nossa vida são apenas regalias a serem perdidas, nosso saldo é negativo. Não temos o tempo livre que tínhamos, não temos as pessoas que tínhamos, não temos os amores que tínhamos e, mesmo que agora existam outros para preencher nosso cotidiano vazio, estamos nós corrompidos pela perda, pela saudade, pela angústia; estamos corrompidos pelo viver.
Nesse desgosto, me vejo como o inconsolável Minotauro, me vejo uma fera, uma besta, um monstro voraz, deformado, obtuso; me vejo olhando para o vazio assim como a criatura, talvez buscando minha redenção, talvez pensando se valho a pena de fato. Caos irresolúvel, âmago inalcançável.