Imagem e semelhança

No, nothing is sacred. And even if there were to be something called sacred, we mere primates wouldn’t be able to decide which book or which idol or which city was the truly holy one.
Thus, the only thing that should be upheld at all costs and without qualification is the right of free expression, because if that goes, then so do all other claims of right as well.

Christopher Hitchens

Deu no facebook: o Santander de Porto Alegre cancelou a exposição “Queermuseu: cartografia da diferença na arte brasileira”, após massiva reação nas redes sociais. Os revoltosos, que tiveram a página do Movimento Brasil Livre como pátio de encontro, alegaram que a mostra causou “mal estar na sociedade e expôs centenas de crianças a imagens de pedofilia, zoofilia e ataques ao cristianismo”. Aqueles que discordaram da medida afirmaram tratar-se de intolerância, censura e ataque à liberdade de expressão. Dou uma tossida seca, que São Paulo está de matar, e reflito enfadado sobre a quantidade de questões que o episódio afaga e sobre como não resisti à tentação de me tornar mais uma voz, motivada por proporções bem semelhantes de confiança e autodúvida, nesse debate fundamental e insuportável.

Parece-me que o assunto todo é revestido pelo meta-assunto da liberdade de expressão, aquele tipo de termo polivalente cujo número de significados é quase igual à quantidade de pessoas que o utilizam, muitas vezes de forma emotiva e com intuito de lacrar-o-debate ou acusar seu antagonista de fascismos variados. Particularmente, gosto da ideia de que liberdade de expressão signifique poder dizer absolutamente tudo que se deseja, contanto que não me irrite ou me faça perder o dia resistindo ao impulso de escrever textão injustiçado pela quantidade de likes bastante menor do que a inicialmente estimada. De forma geral, contudo, passeio rápido pela seção de comentários de qualquer site de notícias deixa evidente que o “Posso não concordar com uma palavra que você diz…” casou com Dona Ressalva e tiveram incontáveis filhinhos.

Felizmente, o tema vem sendo estudado por pessoas mais eloquentes e esclarecidas do que eu ou você, e é possível traçar linhas gerais das doutrinas mais relevantes sobre liberdade de expressão. E faz tempo! Um dos textos mais comoventes sobre o tema foi publicado em 1859 por John Stuart Mill e chama-se “Sobre a Liberdade”. É principista e radical na defesa da tese de que nenhum discurso, por mais ofensivo ou revoltante que pareça, deve ser sujeito a limitação por parte do Estado, em qualquer de suas instâncias. Soa bastante convincente quando afirma que a proteção à liberdade de expressão individual deve se estender à proteção contra

(…) a tirania da opinião e do sentimento prevalecente; contra a tendência da
sociedade de impor, por outros meios que não sanções civis, suas próprias ideias e práticas como regras de conduta àqueles que delas discordem; de limitar o desenvolvimento e, se possível, impedir a formação de qualquer individualidade que não esteja em harmonia com seus próprios modos, e compelir todos os caráteres a se adaptarem conforme seu próprio modelo.

Arremata o argumento sugerindo que

Há um limite à interferência legítima da opinião coletiva sobre a independência individual: e achar esse limite, e preservá-lo contra ingerências, é tão indispensável à boa condição das questões humanas quanto a proteção contra o despotismo político.

(Nesse ponto, enquanto busco em anotações antigas as citações exatas, o texto parece-me mais e mais contemporâneo, seus problemas mais e mais familiares. Isso é sintoma de uma obra clássica ou de sociedade arcaica? Não arrisco sugerir um ou outro, mas não desconsidere a possibilidade de ser ambos)

O ideário de Mill inspira a doutrina contemporânea da Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos, bastião da perspectiva liberal sobre os direitos de manifestação do indivíduo e promovida pela Suprema Corte do país. Em poucas e pobres linhas, ela pode ser resumida na ideia de que não cabe ao governo priorizar ideias no buffet ideológico da sociedade, muito por conta da constatação, realista e humilde, de que governos ainda são formados por pessoas, pessoas são novelos de premissas e contradições, e uma posição julgada legítima em determinado momento pode, no intervalo de uma eleição (quando eleições eram ainda tendência), ser escanteada e perseguida pelo grupo sucessor. Na poética engessada, envergonhada e defensiva que somente cortes constitucionais são capazes de produzir, judge Jackson decretou:

Se há estrela fixa em nossa constelação constitucional, é a de que nenhum agente estatal, de alto ou baixo escalão, pode prescrever o que é ortodoxo em assuntos de política, nacionalismo, religião ou outras questões de opinião (…)

A consequência concreta dessa formulação é a de que nos Estados Unidos não se pode impedir indivíduo, ou grupo deles, de manifestar-se artisticamente ou de expressar opiniões consideradas desagradáveis, antiquadas, monstruosas. Entre elas, incluem-se defesas racistas, xenófobas e nazistas.

Opa, nazistas? Aí a coisa fica interessante e problemática. Nazismo há muito deixou de ser apenas movimento nacionalista, militar e genocida da Alemanha do século XX; tornou-se trunfo retórico, um cheque-mate moral em discussões sobre desde cotas universitárias ao recolhimento do lixo na reunião de condomínio do meu prédio. O argumento ad hitlerum segue forte em debates de diretórios acadêmicos, seguido de demorados aplausos e da concessão imediata do direito de resposta ao grupo a que se dirigiu. Se há polêmica em torno do nazismo, é unicamente em relação a sua autoria, em paródia indigesta de show de auditório em que as esquerdas e as direitas disputam para saber quem não é o pai. Tornou-se a representação mais bem acabada de algo bem ruim, de algo péssimo, para a totalidade de grupos os mais diversos. Com a exceção natural dos neonazistas.

E esses universalmente detestados neonazistas podem ocupar as ruas norte-americanas com bandeiras, suásticas e seus cortes de cabelo pouco imaginativos. Não somente em teoria, que se diga; eles pegam e ocupam mesmo. O caso-paradigma aconteceu em 1977, na cidade de Skokie, Illinois, onde um em cada seis dos habitantes era sobrevivente do holocausto. Ou seja, além de tudo mais, tratava-se de provocação muito bem endereçada. As camadas de complexidade aumentam: o defensor dos direitos à manifestação e à reunião dos neonazistas foi Joseph Burton, advogado judeu. Não sei vocês, mas por trás da evidente cadeia de horrores que o episódio envolve, sinto um comichão safado no estômago, que só posso entender como emoção pela capacidade humana de abstração, alteridade e reflexão em face dos dilemas mais difíceis, das dores mais próximas, em benefício de ideias e valores que tantas vezes nos parecem quase alienígenas, mas nos quais seguimos acreditando (o comichão é logo substituído por náusea pura e simples quando vejo fotos desse simulacro juvenil do terceiro reich — é assim complicada a coisa toda).

Mas por que falar de Skokie, se ainda corre fresca a tristeza de Charlottesville? Lembrar dos acontecimentos de agosto deste ano seria redundante, por tão recentes, mas vale a pena mencionar como a discussão se desenvolveu nas redes brasileiras, especialmente entre a esquerda e a direita*.

* É com grande desconforto e sucessão de caretas involuntárias que faço essa distinção. Acredito que a dicotomia esquerda/direita é antiquada e, principalmente, de cada vez menor utilidade para a compreensão do que acontece no país. Mais do que isso, contribui para a mistificação e sectarismo de um discurso político que já é tradicionalmente obscuro e marcado por “times” e posturas tribais. Contudo ela é adequada para a narrativa presente, então simbora.

Os rincões vermelhos do facebook agiram como se esperava. Denunciaram a manifestação de extrema-direita como fascista, nazista (é difícil discutir com suásticas e ‘jews will not replace us’) e homicida (é difícil discutir com um cadáver). Para eles, a liberdade de expressão não deveria abarcar discursos de ódio, e um governo que os legitima seria responsável pela violência que deles decorra. A parcela mais comunicativa da direita nacional, que aqui vai ser representada pelo MBL por motivos puramente retóricos**, tratou de tirar o corpo fora: extrema-direita não seria direita (tá vendo?), eles se oporiam a toda forma de fascismo e coletivismo, seja ele socialista, nazista ou bolivariano, e, além do quê, não caberia mesmo ao Estado escolher quais discursos poderiam ser manifestados no mercado de ideias.

**Poderia também usar a facção que passa o dia virtual e concretamente sentada esperando para compartilhar o próximo post de Olavo de Carvalho (uma biblioteca renascentista aprisionada na cabeça de um menino de oito anos morando no corpo de um octogenário, um tipo bem estranho de boneca russa), mas seria um texto completamente diferente. Ouvi dizer que os dois grupos romperam. Espero que fique tudo bem.

Vou conceder isso a eles: a esquerda realmente patina entre confusão e hipocrisia quase sempre que discute termos práticos da liberdade de expressão, além de se tornar particularmente dócil em relação à mão severa do papai Estado, quando lhe convém. Os discursos de que discorda, ou que julga excessivamente ofensivos para sequer serem debatidos, não devem ser apenas criticados e contrapostos (isso, justiça seja feita, ela faz de forma enérgica), mas proibidos. Se for por lei, ainda melhor. Por outro lado, se é objeto da mais tenra restrição pelo governo, não hesita em gritar censura e decretá-lo fascista ou (olha ele aí) nazista.

Vou um pouco além. Apesar de falha e cheia de possíveis ressalvas, vejo certo sentido na comparação do MBL. Alguém acha realmente impossível que os mesmos argumentos que a esquerda utiliza para defender a proibição de exaltações nazistas poderiam ser utilizados por governo de ocasião para proibir a defesa do socialismo e de seus símbolos? Sectarismo, genocídio, militarismo, homofobia, racismo, invasão de fronteiras, anexação de países. Você vai me alegar uma série de coisas e vou concordar com boa parte delas: que Stalin, em grande medida, subverteu os ditames socialistas, enquanto que o governo de Hitler representou a forma pura e ideal do nazismo; que a matança cubana foi forçada por um regime de constrição econômica norte-americana, e a Alemanha da década de 1930 visava ao expansionismo e a planos de grandeza e soberania racial; etc. etc. etc. Mas mantenho a pergunta: você julga improvável que, de repente, você se visse do lado oposto da mesma lei cuja aprovação exigiu?

É um assunto suculento, cheio de armadilhas de incoerência. Escrevo sobre ele com as glândulas de precaução secretando doses excessivas de voumearrependrina, mas tendo a achar que o mal necessário de lidarmos com ideias monstruosas em campo aberto supera os malefícios de não reparar enquanto elas se reproduzem no subterrâneo, aguardando a vinda de governo favorável para se reerguerem do chão, leviatânicas.

Dito isso, quase me resigno a ficar ali, calado e julgando, no cantinho da mesma sala do pessoal do MBL em assuntos de liberdade de expressão. Mas peralá. O episódio do Santander me lembrou de uma particularidade dessa discussão: a hipótese de a manifestação dessa liberdade adquirir conteúdo ofensivo às sensibilidades religiosas de terceiros. E aí, senhoras e senhores, falta espaço na creche das ressalvinhas.

Para melhor ilustrar a subquestão, é legal falar sobre como a Europa, mais suscetível a culpas históricas e às delicadezas da subjetividade, vem decidindo sobre o tema pela Corte Europeia de Direitos Humanos.

Por exemplo, em Otto-Preminger-Institut v. Austria, a CEDH julgou perfeitamente cabível a proibição do filme “Council in Heaven” (‘Das Liebkonzil’), em que se representava “Deus Pai, tanto visual quanto textualmente, como um idiota impotente e senil, Cristo como um cretino e Maria Mãe de Deus como uma mulher devassa, com maneiras de agir da mesma categoria, assim como a Eucaristia é ridicularizada”. Parece divertidíssimo; fiquei curioso particularmente sobre a canastrice do Cristo de Roberto Tesconi, mas os austríacos foram privados de assisti-lo em razão de potencial ofensa a parcela da população majoritariamente cristã.

No mesmo sentido, em Wingrove v. The United Kingdom, decidiu-se que seria legal o cancelamento da exibição do filme “Visions of Ecstasy”, no qual se retratava, por dezoito minutos inteiros, “Santa Teresa de Ávila em cenas de teor sexual e violento, contracenando com outra personagem feminina, cujo papel seria de sua própria psique, e Jesus Cristo crucificado.” Ou, ainda, em I.A. v. Turkey, proibiu-se sem problemas a publicação de “The Forbidden Phrases”, onde se afirmava que Maomé não se oporia ao intercurso sexual com animais e cadáveres.

Sendo justo com a CEDH, sua postura é mais assobiando distraído com ouvidos tapados do que apontando dedos e preparando fogueiras. Ela inclusive propõe uma formulazinha para decidir nesses casos. Ela se pergunta, nessa mesma ordem: a) a decisão do Estado tem previsão legal?; b) a proibição teve um “objetivo legítimo”?; e, por fim, c) a proibição foi “necessária em uma sociedade democrática”? Se qualquer uma dessas perguntas for respondida por NÃO, a medida estatal é ilegítima e deve ser revertida; Jesus cretino e Maria devassa para o povo.

O problema meio que já está evidente, não é? É fácil consultar a existência de previsão legal para decisão do governo, nada que o google não responda em dois segundinhos. Mas determinar se essa decisão teve objetivo legítimo e se foi necessária em uma sociedade democrática é convite irrecusável para o open bar da parcialidade. Naturalmente, há bibliotecas de doutrinas escritas tentando preencher o significado dessas expressões, assim como toda uma jurisprudência de décadas visando a atribuir alguma objetividade a elas. Mas acredite em mim quando digo que ainda existe uma baita margem de manobra para se decidir de acordo com os individualismos mais tacanhos.

No final das contas, é curioso como o MBL parece muito mais confortável com a posição socialesca-democrática da Europa do que com a liberal norte-americana, quando promove a defesa de ampla e irrestrita liberdade de expressão, e os ofendidos que reclamem, mas rapidamente adota postura de “êpa pra que isso não é bem assim” quando a ofensa tem por objeto a cristandade (ou o judaísmo; sempre que podem, eles citam ambos).

Existe uma resistência persistente, na cabeça de alguns dos melhores cristãos que conheço, em aceitar até as últimas consequências que, para a mente secular e para uma constituição secular, sua religião é apenas mais um entre inúmeros sistemas de pensamento e ideologias. Sua contribuição filosófica e histórica, sua ainda majoritária aceitação popular, seriam relevantes (e são!) para várias esferas sociais, mas não para a jurídica, quando falamos do direito à livre manifestação de pensamento. E, como toda ideia em uma sociedade com pretensões de liberal e democrática, deve estar sujeita às mais violentas formas de sátira e ridicularização. Essa é a pedra fundante da concepção liberal sobre liberdade de expressão.

Essa ladainha sobre liberalismo é importante porque o L é provavelmente a letra mais preciosa para os integrantes do MBL. É o que os diferencia da velharia política com quem tiram fotos sorridentes; é o que os faz pairar moralmente acima do esquerdismo coletivista que antagonizam. E não me leve a mal, você corre o risco de fazer papel de bobão se menosprezar o pensamento liberal. Alguns dos valores mais caros à boa gente progressista derivam diretamente desse pessoal. Não só isso, em raras ocasiões força de conteúdo foi tão bem combinada com beleza estética. Terminei Stuart Mill com o pescoço travado de tantas vezes que me peguei balançando a cabeça afirmativamente enquanto lia; ele oferece aquele tipo de experiência epifânico-regressiva que você sente quando ouve algo que ao mesmo tempo é completamente novo e parece que você sempre soube. É bom assim.

Mas o liberalismo também é meio ingrato por adotar postura um tanto heroica em relação ao sem-número de princípios e regras que ele mesmo identifica/cria. Em outras palavras, ele exige uma coerência brutal. E disso o MBL tá passando longe nesse episódio do Santander, inclusive deixando expostos hipocrisia e falta de preparo bem malcheirosos. Vale a pena analisar a distância retórica que os enfants terribles supostamente liberais percorrem para disfarçar sua intolerância a ideias que os ofendem nos grotões mais delicados de suas sensibilidades.

Primeiramente, para tentar garantir um ar de legitimidade jurídica à vontade de ver cancelada a mostra, falaram tratar-se de hipótese de vilipêndio de culto religioso***, crime previsto no art. 208 do Código Penal. Vale a pena dar uma lida:

*** Sendo justo com a galera do MBL, esse argumento foi defendido principalmente pela ágora-de-um-homem-só do Olavo de Carvalho.

Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso

Dessas hipóteses de crime, concordamos que apenas o tal vilipêndio poderia ser aplicado (se alguma obra da mostra consistia em interromper uma missa, apontando o dedo e zombando dos fiéis, esse fato me escapou e desde já me desculpo). Dá pra achar absurda desde já a implicação de que seria criminosa qualquer ilustração satírica ou safadinha de símbolos religiosos, mas breve pesquisa também revela que o crime vem sendo aplicado apenas ao vilipêndio (não duvide da existência de livros inteiros tentando definir criminalmente o que seria vilipêndio) dos objetos e locais de culto autênticos, ou seja: a cruz, e não o desenho da cruz.

Além disso, continuando no terreno enfadonho do juridiquês, o MBL afirmou que a exposição promoveria “apologia à pedofilia e à zoofilia”. Apologia, nesse caso, faz parte do jargão de direito penal, que tem como princípio bem importante o latim pomposo da ultima ratio; basicamente, ele deve ser usado em último caso e interpretado da forma mais restrita e favorável possível ao suposto praticante do crime. Mais do que isso, o próprio uso da palavra apologia, se queremos ser jurídicos, é impreciso. Apologia costuma se fazer a fatos anteriores, específicos e consumados. Nesse caso, mais correto seria utilizar a figura da “incitação”. Mas, sinceramente, o quão ridículo seria afirmar que alguma daquelas obras incitaria o público a deixar de lado seus entraves morais e biológicos, passando a olhar seus cachorros e sobrinhos com novos e lascivos olhos? Provável que a confusão terminológica não tenha sido acidental.

Ainda seguindo a trilha de migalhas da incoerência: não faz bem pouco tempo que o MBL trajou a mais restrita legalidade e indignou-se contra a aceitação de denúncia contra Jair Bolsonaro por incitação ao estupro, quando o deputado afirmou que não cometeria o crime apenas por motivos estéticos? E o próprio Kim Kataguiri não afirmou tão republicanamente que “estou defendendo a lei, não estou defendendo o Bolsonaro”? Bom, pelo jeito o Kataguiri entendeu que a lei finalmente já estava bem protegida e passou à missão mais elevada de proteger a moralidade dos lares brasileiros.

Porque o argumento moral corre bem proeminente nessa discussão toda. Em especial, é quase comovente como afirmam em choque que a exposição estava aberta a crianças. Estou supondo que crianças vão acompanhadas por adultos a exposição desse tipo (embora seja tão divertida quanto improvável a ideia de garotinha que, num deslize da babá, faça questão de escapulir para galeria de arte onde se debate diversidade de gênero e mais tarde, durante o jantar, assuste os pais perguntando casualmente se Jesus era destro ou canhoto, já que ele tinha oito braços). Ao pesquisar as pinturas e montagens expostas no Santander****, me sinto obrigado a dizer que, intimamente, acredito com sinceridade que esse pessoal esteja fazendo isso por diversão, num esquema de “duvida que eu faça? eu faço mesmo”; não é possível que alguém realmente creia que a exposição àquelas imagens possa distorcer, ainda que de forma sutil, a bússola moral, espiritual e política de uma geração.

****Recomendo fortemente que o façam.

Mas vou morder a isca. Não pratico o chute-de-balde de afirmar que não deve haver qualquer controle do conteúdo a que crianças são expostas (muito embora, nunca é demais repetir, essa exposição estava em local fechado, com entrada não compulsória!). Esses pequenos cérebros são esponjas imprevisíveis; deve sempre haver, no mínimo, a indicação etária sobre o conteúdo exibido, qualquer que seja a mídia. Regulação da publicidade é assunto pantanoso, mas basta dizer que liberais costumam se opor frontalmente a ela; o ônus da educação seria dos pais e dos tutores. Esse princípio se aplica aqui: representações heterodoxas de religião e sexualidade podem ser demasiado delicadas para alguns núcleos familiares, e tudo bem — eles não devem (novamente…) ser intimados a levar a criançada ao Queermuseu.

Só que o princípio de que devemos proteger nossas crianças contra todo e qualquer tipo de arte provocativa ou que evoque sexualidades é problemático em suas consequências. A nova onda conservadora tem exaltado um senso estético clássico e neoclássico; a troca de citações de autores, pintores e compositores tornou-se o equivalente de uma batida de mão elaborada, a uma tatuagem coletiva que identifica e diferencia o grupo. E vou te contar, não é brincadeira a safadeza que corre solta nas telas de Goya, Velásquez, Bosch, só pra me amostrar com um name-dropping babaquinha e incompleto. Deveríamos então proibir a entrada de crianças nos museus das nossas viagens europeias, ou cobrir os olhos da garotada a cada querubim mais saliente?

Já adianto que li pela página do MBL o argumento de que seria absurda a comparação, pela existência do abismo artístico que separa uma Adriana Varejão da obra desses e de outros mestres. Mas aí não, amigão; você quer mesmo entrar na discussão sobre o que é arte, sobre o que é arte bela, sobre o que é arte que vale a pena? Seu gosto é a única medida estética que você deve seguir, mas a partir do momento em que ele extrapola os limites do seu crânio e passa a ser imposto a terceiros, você está entrando em um mundo de dor. Os exemplos históricos em que se decidiu, de cima para baixo, o tipo de arte que a sociedade deveria apreciar não imagino que você queira mencionar em sua defesa. Nesses casos, qualquer outra postura que não a de incômoda isonomia é pedir por censura.

Mas não foi censura, foi boicote, é o ponto em que martelam os MBListas toda vez que tiram um tempinho para defender sua posição. Uma ação da sociedade civil organizada, perfeitamente democrática. Faz sentido que insistam nisso, já que praticar ou defender censura seria o equivalente de um harikiri moral e ideológico para os novos liberais. E eles têm certa razão. Censura, em sua definição mais corriqueira, pressupõe uma discrepância hierárquica; se formos caprichosos, apenas o governo ou a instituição Santander poderiam formalmente praticá-la nesse caso.

Só que também não foi simples boicote, sejamos honestos. Não é que os MBLs tenham se contentado a criticar as obras do evento com uns bons textões, a organizar um piquete na frente da exposição erguendo cartazes malcriados. A ação teve o objetivo evidente e direto de cancelar o evento em razão de seu conteúdo. Aqui importa a constatação de que grupos como o MBL (e Olavo, e PT, e Mídia Ninja, etc.) hoje possuem capacidade de arregimentar verdadeiras milícias virtuais em atos mui bem organizados. Olhadela ligeira na página dos Livres basta para perceber sem dúvidas que houve estímulo, organização e disciplina para não apenas fomentar um debate sobre limites da arte, sobre o uso do dinheiro público em favor de mostras desse tipo, mas para forçar o cancelamento da exposição. Pedir que manifestação de artística de pensamento tenha sua exibição cancelada em razão unicamente de seu conteúdo não é praticar censura, mas é pedir pela definição mais literal dela. A diferença é suficiente para vocês, Liberais?

Vale a pena falar um pouco sobre o dinheiro público dispendido no Queermuseu, já que é o supertrunfo moral e político que o MBL utiliza para fantasiar alguma objetividade sobre o caso. Segundo eles, seria ilegítimo gastar dinheiro público em exposição que (eles acham que) ofenda parcela majoritária da população brasileira.

Uma consequência possível seria a conclusão de que dinheiro público não deve ser gasto em arte. Eu a respeito por sua coerência, mas discordo completamente, tanto por princípio quanto por suas implicações práticas.

Mas, admitindo que se possa separar pedacinho do orçamento para o patrocínio das artes, ele seria legítimo apenas se exibisse valor estético mínimo e contemplasse as sensibilidades da maioria da população? Beleza, mas a quem caberia determinar essa medida? Quantos diferentes comitês não seriam necessários para se decidir, sob a perspectiva das preferências da fatia mais significativa dos cidadãos, se cada obra de arte mereceria ser beneficiada pelos fundos do edital? Assim tão de repente, esses liberais se tornam tão assembleístas quanto o mais vermelho dos comunas.

No episódio em questão: uma vez que o orçamento para exposição do tipo já estava separado na rubrica orçamentária aplicável, o Estado deveria se recusar a financiar o Queermuseu em razão de seu conteúdo (admitindo que ele não seja criminoso e levando em conta que boa parte dos artistas expostos gozavam de algum prestígio)? Parece ser esse o cenário preferível ao MBL. Novamente: existe forma mais bem acabada de apologia (ahem…) à censura?

Por mais longe que os entusiastas do MBL vão, em textos de maior ou menor eloquência, para justificar o quão razoável e liberal foi a atuação que contribuiu para o cancelamento do Queermuseu, não consigo deixar de perceber nela o ranço da intolerância de que eles tanto acusam a esquerda nacional: o impulso de, em face de pensamento discordante (mas discordante MESMO, ali no ponto onde o bicho pega), não apenas se contrapor e criticar, mas trabalhar para destruir a possibilidade de existência e reprodução desse pensamento. É a impossibilidade de se conviver com discursos que ofendam onde mais dói; não é coincidência que a carapuça do MBL tenha caído em assuntos de religião e sexualidade.

Algumas vezes por semana eu passo por símbolos que me lembram que, depois de morrer, serei condenado de forma inapelável a uma eternidade de sofrimento, sem chance de recurso ou reexame. Eu acho isso ofensivo pra caramba (o pior é que acho mesmo, não é gingada retórica ou atheist tears). A possibilidade de sátira e ridicularização daquilo que nos oprime e incomoda é um respiro de criatividade que compõe e encoraja a obra humana, fascinante e terrena. Jamais sairemos ilesos; em boa medida, esse é um jogo de resistência cuja regra-mãe é: não temos o direito a não sermos ofendidos em nossas convicções. Mas temos, ou deveríamos ter, o direito de expressá-las das mais variadas formas, geniais ou ordinárias, e sermos julgados pela qualidade delas.

Essa “vitória” do MBL, não nos enganemos, tem o chamado chilling-effect — outras instituições privadas passarão a promover minucioso escrutínio das obras que admitirão em seus prédios, com o objetivo de não provocar as mesmas sensibilidades. E isso não é ao acaso. É inevitável a constatação de que, ao cabo de tudo, o MBL promove forma seletiva de liberalismo e se assemelha às correntes mais extremas da esquerda quando cede aos impulsos de construir uma sociedade à sua imagem e semelhança.