Série: 10 tendências para os próximos 10 anos, Episódio 4: A Economia do Compartilhamento e a Sociedade em Nuvem.

Você tem uma furadeira?

Se tem, quanto tempo acredita ter usado esse equipamento ao longo de sua vida?

1 hora? 10 minutos? 1 minuto?

Para ser sincero, eu não encontrei nenhuma pesquisa formal sobre o assunto, mas estimo que não tenha usado minha furadeira por mais de um minuto, se somar todo o tempo em que ela foi ligada e utilizada — por toda a minha vida!

E o que leva (ou, mas adequado, levava) alguém a ter algo tão pouco usado em sua casa (e que, convenhamos, nem é tão estratégico em seu dia a dia)?

Agora abstraia isso para outras coisas que você tem ao seu redor.

Roupas? Sapatos?

Itens que você usou menos que meia dúzia de vezes?

Livros que você leu há mais de 10 anos e que estão ali, ocupando espaço em uma estante ou servindo de suporte para o monitor do seu computador?

Que tal direcionar essa análise para um antigo “intocável” da indústria, agora extremamente ameaçado?

A capa da revista Época Negócios de novembro de 2015 afirma: seu próximo carro será guiado por computador.

Eu até concordaria com o título, com apenas um detalhe: Por que MEU carro? Por que motivo eu vou querer ter um carro, empatando um investimento nele, demandando espaço, impostos, licenciamento, lavagem e manutenção, se posso a qualquer momento ter acesso a um carro novo, limpo, seguro, a um toque no celular?

Ufa, em seu conteúdo, no entanto, a revista é mais esclarecedora e alinhada com esse conceito.

Você sabia que um carro fica parado, em média, durante 95% do dia?

E que um carro privado leva em média apenas 1,4 pessoas por viagem?

O arquiteto Carlo Ratti, professor do MIT, deu uma bela entrevista na revista sobre esse assunto. Ele prevê que com essa evolução, precisaremos de apenas 20% dos carros que estão na rua, impulsionados pelo compartilhamento de veículos e pelas caronas compartilhadas.

Você sabia, também, que de 2007 a 2011 o número de carros comprados por pessoas entre 18 e 34 anos caiu 30%, segundo a AAA Foundation for Traffic Safety?

Segundo a mesma pesquisa, apenas a metade dos jovens de 18 anos obtinham a licença para dirigir, uma marca historicamente baixa. E esse número continua caindo…

Mas isso não está acontecendo só com os carros.

O conceito de posse mudou e continua mudando.

Antes almejávamos comprar e possuir carros, casas, livros, jóias, DVDs, CDs, software, computadores…

Afinal, você não precisa de um carro, você precisa se transportar.

Você não precisa de um CD, você quer ouvir música.

Você não precisa de uma furadeira, mas pode precisar eventualmente fazer um furo na parede.

Hoje, utilizamos o 99 Táxis (e mais outros diversos aplicativos de táxi existentes), o Uber, os aplicativos de compartilhamento de carona, o AirBnb, lemos livros digitais no Kindle (às vezes até em modelo ilimitado de assinatura) e em Tablets, assistimos NetFlix e ouvimos músicas em plataformas de streaming, guardamos nossos documentos no Google Drive ou no Dropbox, instalamos o software da nossa empresa em um serviço de nuvem como o da Amazon WebServices…

Ao invés das enciclopédias de 12, 24 ou sei-lá-quantos volumes (você ainda tem uma?), consultamos a Wikipedia, da qual muitas vezes também somos autores.

Nem todos esses exemplos são de economia colaborativa (há até uma discussão, bastante fundamentada, que defende que o principal ícone desse movimento, o Uber, não é de fato um exemplo de economia colaborativa), mas todos apontam para uma tendência: a diminuição consistente da posse, favorecendo, por sua vez, o compartilhamento e o acesso sob demanda.

Então, para que adquirir e arcar com a propriedade se podemos rapidamente acessar, usar e mudar, quando necessário ou atraente?

Acreditando nessa tendência a Gafisa, uma das maiores construtoras e incorporadoras do país, lança o conceito Home&Share.

Com o perdão da “propaganda”, o lançamento busca surfar na onda da economia do compartilhamento, defendida pela empresa como “uma nova realidade em todo o mundo e que ganha cada vez mais força no Brasil. Trazemos aos moradores a experiência de viver em um apartamento onde ele pode economizar, multiplicar seus espaços e compartilhar experiências”.

Desde o APART & SHARE, um apartamento decorado para que o morador utilize quando receber visitas, o CAR & BIKE SHARE, que disponibilizará carros e bicicletas para uso dos moradores quando eles precisarem e o WORK & SHARE, um espaço desenhado para que os moradores possam trabalhar e fazer reuniões, o empreendimento é todo pensado para otimizar recursos com base no compartilhamento.

Atualmente, nos definirmos menos com base no que temos, mas sim com base no que falamos, compartilhamos, capturamos e criamos.

Esse não é um fenômeno novo. Aconteceu algumas vezes na história, mas nem sempre nos demos conta.

A energia, por exemplo, é considerada como um insumo que acessamos há muito tempo. Mas nem sempre foi assim. Durante um bom período da história as indústrias precisavam produzir sua própria energia. Hoje, basta ligar-se a uma rede de fornecimento. Para o futuro, discute-se novamente a geração de energia própria na forma de fontes alternativas e limpas, como solar e eólica (mas isso é papo para outro artigo!).

Sistemas e softwares, hoje, passam pela mesma evolução. Há 10, 15 anos, era quase impensável um software funcionar no modelo “na nuvem”. Áreas de TI eram resistentes, por questões que iam de performance à segurança. Hoje já se torna um requisito de contratação, pois é uma economia de infraestrutura e um ganho de escala considerável para as empresas.

Uma pesquisa de 2014 da Tata Consultancy Services (TCS) confirmou que 39% das grandes empresas na América Latina utilizam o software hospedado na nuvem. De acordo com a consultoria KPMG, em 2014, a “nuvem” era considerada uma prioridade para 55% das empresas da região. De novo, troca-se grande investimento inicial por despesas recorrentes, sob demanda.

Para você, um pequeno teste…

Há quanto tempo você não instala um software novo no seu computador?

Quantos serviços (e-mail, backup, publicação, etc) você já usa pela web?

Por que comprar uma casa de praia ou na serra se você pode ter uma casa em qualquer praia, em qualquer serra ou em qualquer lugar que quiser, a hora que quiser, sem precisar arcar com os custos dessa casa “parada”, pagando apenas quando utilizar, no Airbnb?

Por que gastar uma fortuna em um vestido se você pode alugar um adequado para cada ocasião em sites como Rent the Runway?

Por que ter uma bicicleta se, em algumas cidades, você precisa apenas de um cartão de crédito ou um celular para pegar a bicicleta em um ponto e entregar em outra?

Por que depender de um banco se você pode conseguir um empréstimo diretamente com pessoas que querem emprestar (ok, há uma questão regulatória aí a ser resolvida, mas é uma tendência que vem para ficar também. Já ouviu falar no LendingClub?)?

Por que não transformar seu tempo livre em oportunidade de renda? Ou usar o tempo livre e o talento dos outros em um serviço que você pode vir a precisar?

Por que ter?

Por que comprar?

Por que ter algo que vai ficar parado um bom tempo enquanto você não usa?

Por que, em uma sociedade tão acelerada e efêmera, mas ao mesmo tempo tão demandante de consciência e sustentabilidade?

Talvez a xícara de açúcar tenha sido só o começo.

Então, da próxima vez que pensar em comprar algo, pense bem: ter ou não ter? Talvez isso esteja ficando fora de questão.

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