A zona de não julgamento.

Ela nunca tinha experimentado dessa necessidade.

Quando ela fica me olhando, apenas ouvindo o que digo, fico com a impressão de que os outros homens falavam demais e não diziam nada. Apesar de gostar de me ver calado, ouvindo com atenção, sei que existe um apreço enorme pelo que falo.

Talvez eu fizesse o que os outros não faziam, como se ela desde sempre tivesse procurado alguém com quem pudesse falar sobre tudo, sem esconder nada e que nada que ela dissesse pudesse me espantar.

Como se todas as loucuras que faz fossem as coisas mais normais pra mim e me parece ser isso que todos procuram: a zona de não julgamento. Onde podemos gritar as coisas mais loucas que fazemos, que nunca contaríamos a ninguém e quando achamos quem pode ouvir isso, conseguimos entender algumas coisas.

Ali dentro do carro, com ela ajeitando o cabelo lentamente atrás da orelha, enquanto o vento que sacudia as árvores, o bagunçava. Eu queria parar de falar só pra poder me concentrar em cada pedaço dela e encontrar uma forma de dizer que ela é linda, mas isso não bastava, ia ser comum demais, ela já tinha ouvido isso de outros, eu não poderia balbuciar palavras ao vento, precisava convencê-la de que realmente acho isso, e como acho.

As loucas são as melhores, as indecisas, aquelas que não sabem o que querem e que passam por sua vida como uma locomotiva, atropelando tudo o que você acreditava e deixando as apenas a fumaça da lembrança, densa.

Daniel Pasini