Cidade sitiada
I.
Era outono, mas as folhas não caíam, típico, o que os livros mostravam era simplesmente uma imaginação distante. Tudo havia acabado, nós nunca soubemos o que fazer, muito menos nesse momento.
Existiam resmungos de que era melhor continuar como estávamos, dava para ver as mesmas reações nas pessoas, havia cheiro de descontentamento, mas também havia cheiro de tinta impressa e de papel quente, de cigarro apagado e de folhas secas.
Fazia vinte e um anos, duzentos e vinte três dias que a cidade estava sitiada, as três saídas fechadas e como ninguém tinha necessidade de sair, não se arriscavam atravessando o rio ou subindo as montanhas. A cidade era praticamente sustentável, só precisava de industrializados e de papel. A demanda por papel era absurda.
Minha família era a mais rica da cidade na época antes do sítio e por isso monopolizava todas as grandes formas de ganhar dinheiro. Quando papai faleceu, já após o sítio, dividiram o poder entre os quatro filhos. Sobrou para mim o que achavam ser de menor valor: Os meios de comunicação. Achavam sem valor por que televisões e rádios não funcionavam mais, não me pergunte o porquê.
Fiz minha mudança hoje, mas passei quinze anos morando na gráfica da cidade, perto da redação do antigo jornal. Quando tomei posse dela, havia começado a ler poesias e contos, você pode imaginar o que aconteceu…
As pessoas viviam tranquilamente, industrializados e papeis chegavam à cidade. Quem mandava, eu não sei, mas eu pegava tudo o que podia em papeis. Trocas começaram a ser mais feitas do que vendas, menos tempo era gasto trabalhando e dormindo, as pessoas estavam mais tranquilas e como tinham pouco a fazer, liam e liam. Eu amava viver assim: Uma cidade inteira lendo tudo o que eu escrevia e tudo o que eu achava interessante.
Aquela redação virou uma fábrica de poesias, todos trabalhavam em casa, só precisavam entregar os escritos uma vez por semana e todos que quisessem, poderiam escrever. Contos calavam a cidade, poesias faziam pessoas chorar nas praças e a leveza das pessoas era visível. Todos queriam ter os papeis impressos para ler, virou um vício, uma necessidade.
Nada era mais importante que ler, faziam tudo lendo, comiam, bebiam, cagavam, transavam, dormiam, sempre estavam lendo, todas essas atividades, sem ler eram uma atividade usual, lendo: Um teatro imaginário, onde novas cores surgiam e reis largavam tronos por amor.
Nada é mais saboroso do que acabar um livro, escrever uma poesia ou criar um conto. As pessoas vivenciavam um oásis de literatura.
II.
Quando abriram as saídas da cidade tudo mudou rapidamente, o estresse voltou a coabitar conosco, as televisões ligadas o dia inteiro. Ler voltou a ser perda de tempo e as pessoas agora estavam novamente presas ao que chamávamos, nós da gráfica, de verdadeiro estado de sítio, já não deixavam emoções entrar e sair.
Como ninguém queria mais ler, tivemos de abandonar a gráfica, que continuou se arrastando por um tempo, até hoje. Nossa fabrica de poesias diminuiu de tamanho e abrangência, mas nem por isso era menos importante, nós próprios escrevíamos e líamos umas as dos outros. Nada disso precisava ser contado se nos deixassem em paz.
Teríamos vivido décadas de prazer e efervescência de produção de escritos, assim como os pensadores na pax romana ou na belle époque. Éramos e fazíamos uns aos outros realmente felizes.
Mas, não foram corajosos o suficiente para nos deixar, tiveram de acabar com a única coisa que nos fazia capazes de criar, a absoluta solidão, no sentido puro da palavra. A solidão completa, o modo de estar sozinho e ao mesmo tempo acompanhado, naquela época, apenas pelos olhos sinceros e famintos por poesia.
Essa aqui chegou hoje pela manhã na caixa de correio, me parece a última que foi produzida na gráfica, já que esta encerrou as atividades nessa madrugada. O papel ainda está quente, não há remetente, letras grandes, de forma, não está metrificada, diz assim: .
Daniel Pasini