Fobópole

Voltando pra casa durante a madrugada, percebi que, sem querer, assustei uma mulher meramente por estar andando mais rápido que ela. Correndo, ela foi até uma lanchonete onde ficou parada, protegida pela presença de outras pessoas. Quando passei, trocamos olhares: ela se desculpou por me considerar uma ameaça, e eu por me ter aproximado distraidamente dela por trás em uma rua mal iluminada. Mas não a culpo: a cidade está em constante alerta. Dois dias depois desse incidente, notei que minha primeira reação, ao ver uma bicicleta passar na minha frente em alta velocidade, foi proteger o celular que estava no meu bolso.

Procurar ativamente por detalhes e tirar conclusões precipitadas é, infelizmente, necessário no Rio de Janeiro. Parece que, no momento onde saímos dessa mentalidade, algo dá errado. Um músico conhecido meu adormeceu no ônibus após o trabalho e acordou sem seu ganha-pão: um violoncelo. Abrir a mochila de alguém e levar a carteira — como aconteceu com meu irmão — é uma coisa, simplesmente sair andando com um instrumento clássico de um metro e meio é outra.

No entanto, presenciei recentemente uma situação dessas em que o agressor não se deu bem. Estava na frente do cinema com uns amigos quando um ônibus parou no ponto. De dentro saltou, com pressa, um homem carregando uma mochila que não lhe pertencia. Percebendo o que estava acontecendo, a vítima do assalto e seu colega foram atrás e nele bateram. Bater é a palavra errada: os dois meteram porrada nele mesmo, puxando-o pra fora do ônibus e o arrastando no asfalto.

Nesse momento, a sociedade civilizada à nossa volta foi desmontada em questão de segundos. Agora, era cada um por si. Quem estava dentro do ônibus, pulou a roleta. Pedestres entravam no shopping e olhavam, perplexos, os chutes que continuavam nas costas e na cabeça do assaltante já quase apagado. Quem teve coragem de reagir reagiu, expressando em que filosofia de vida acreditava. Alguns estranhos se meteram na confusão para bater nele também. Um senhor de idade gritou: “PEGA, PEGA!”; uma mulher implorava pra que parassem com a injustiça (aí que tá, era ou não?); e um outro adulto ligou pra polícia, calmamente dizendo “Boa-noite, tem um moleque sendo linchado aqui na praia de Botafogo”.

Nessas horas, é fácil de se imaginar intervindo e fazendo alguma coisa. Agora, botar em prática? Impossível. Pelo menos pra mim. Fiquei completamente em choque, olhando a cena se desenrolar. Mas, como disse, a civilização estava em pedaços e era cada um por si.

Atravessei a rua, entrei em um ônibus, vi a polícia chegando e, vinte minutos depois, estava de volta ao mundo de fantasia seguro que é o meu condomínio.