Vivemos em uma simulação de computador? — A Hipótese da Simulação

Guru da Ciência
Aug 28, 2017 · 7 min read

Esse artigo é o roteiro do video essay postado no Guru da Ciência. Confira-o aqui!

Nós humanos sempre estivemos interessados na possibilidade de que nem tudo à nossa volta corresponda à realidade. E se você já assistiu a filmes como Matrix, séries como Westworld e passou um tempo jogando The Sims, a noção de realidades simuladas é algo familiar para você. Talvez o mundo à nossa volta seja uma ilusão, uma espécie de grande simulação operada por um poderoso computador.

Mas se o que nós observamos e vivemos é tudo que temos à nossa disposição pra interpretar a nossa realidade, como determinar se ela é genuína? Poderíamos estar vivemos em uma simulação, e, se esse for o caso, qual é o significado disso pra humanidade?

Se você voltasse no tempo pro dia em que o jogo Pong foi lançado em 1972, ninguém acreditaria que gráficos como os em Battlefield seriam possíveis meros 45 anos depois. A coisa incrível sobre o poder computacional é que ele avança exponencialmente ao invés de linearmente, tendo dobrado aproximadamente a cada dois anos desde então.

Esse padrão é conhecido como a Lei de Moore, que levou muitos a especular sobre o quão capazes nossas máquinas serão no futuro. À medida que nos aproximamos cada vez mais de videogames fotorealísticos e mergulhamos na realidade virtual, a nossa habilidade de criar simulações cada vez mais convincentes e imersivas acompanhará essa tendência.

Baseando-se em mecanismos já existentes, Eric Drexler, o primeiro doutor em nanotecnologia do mundo, esboçou um sistema do tamanho de um cubo de açúcar capaz de realizar um sextilhão de operações por segundo. Outro autor dá uma estimativa de 10⁴² operações por segundo pra um computador com a massa de um planeta.

Portanto, a capacidade computacional disponível a uma civilização avançada é imensa. Esse é um dos dois mais importantes argumentos que Nick Bostrom faz em seu artigo original sobre se estamos vivendo em uma simulação. Ele é professor da faculdade de filosofia de Oxford, e publicou essa sua hipótese em 2003. Fundamentando-se nessa vasta disponibilidade tecnológica no futuro, ele sugere que uma civilização pós-humana seria capaz de executar o que ele chama de “simulações de ancestrais”, isso é, uma simulação realista de toda a história mental da humanidade.

Dentro de uma dessas realidades digitais, com o universo sendo recriado a um nível molecular, seus habitantes teriam consciência, memórias, emoções e sensações. Essencialmente, os simulados estariam conscientes de sua existência, mas jamais conseguindo descobrir a verdade por trás do próprio cosmos.

E é esse o outro pilar fundamental na argumentação de Nick Bostrom: a independência de substrato, que é um conceito geralmente aceito na filosofia da mente que propõe que estados mentais conscientes podem emergir em estruturas e processos além das redes neurais do cérebro. Afinal de contas, nós somos em grande parte compostos pelos elementos mais abundantes do universo: muitas coisinhas pequenas mortas que quando unidas, por alguma razão formam algo vivo maior. Tal ideia gera controvérsias, mas é difícil de ver porquê que isso seria diferente em processadores à base de silício dentro de um sistema computacional suficientemente complexo.

Estima-se que emular uma mente humana necessite de no máximo 10¹⁷ operações por segundo. Com base nos números que vimos antes, isso significa que uma civilização pós-humana poderia rodar toda história mental dos 100 bilhões de humanos que viveram até hoje alocando apenas um milionésimo de seu poder de processamento durante um único segundo. E é a partir dessas duas principais premissas que podemos passar ao núcleo da argumentação do artigo: que pelo menos uma de três proposições é verdadeira. São elas:

Número 1: a espécie humana tem uma probabilidade altíssima de ser extinta antes de atingir um estágio “pós-humano” de evolução;

Número 2: é extremamente improvável que civilizações pós-humanas decidam rodar um número significativo de simulações de ancestrais;

e Número 3: estamos quase certamente vivendo em uma simulação de computador.

Esses três cenários soam um pouco estranhos, então vamos analisá-los de pouco em pouco. A primeira opção sugere que nós humanos não vamos alcançar o nível pós-humano de desenvolvimento devido a um evento catastrófico. Exemplos incluem gravíssimas mudanças climáticas que levem sociedades inteiras a colapsar ou o impacto de um enorme meteoro que acabe com a vida no nosso planeta. Mas já que estamos falando do futuro distante, é possível também que nossa espécie crie uma revolucionária mas perigosa tecnologia como nanorrobôs capazes de se reproduzir por conta própria a partir de terra e materiais orgânicos — uma forma de bactéria mecânica que seria capaz de aniquilar a vida na Terra em poucos dias.

No entanto, com apenas uma civilização se tornando tecnologicamente madura, podemos descartar a proposição número 1, deixando apenas os cenários 2 e 3 como possibilidades. Logo, os artfícios necessários pra botar simulações em prática estariam amplamente acessíveis a civilizações avançadas. O segundo ponto, então, diz que os pós-humanos talvez optem por não rodar tais programas, provavelmente devido a questões éticas e

morais. Pros simulados, dor e sofrimento ainda seriam sensações autênticas, então é viável que haja uma convergência entre as sociedades que prosperaram que as levem a banir esses experimentos. Pode ser também que valor científico de uma simulação de ancestrais seja negligível pra uma civilização pós-humana, dada a sua imensurável superioridade intelectual: a falta de simulações seria simplesmente consequência de uma falta de interesse.

Contudo, se elas optarem pelo contrário e começarem a gerar simulações de seus antepassados, a única opção restante é a mais intrigante e perturbadora — a de que a chance que somos seres humanos simulados é de praticamente 100%.

Uma vez que civilizações pós-humanas têm a aptidão e a inclinação de recriar o passado evolutivo de seus predecessores dado o contexto de (3), parece lógico que elas fariam isso dezenas, centenas, ou até milhares de vezes. No total, o número de realidades simuladas poderia então estar na casa dos milhões pra cima, insinuando que nós asseguradamente não fazemos parte da civilização original.

O que parece pensamento de maluco possui adeptos ao redor do globo. O responsável pelo Argumento da Simulação atribui uma credibilidade igual pra cada uma das três propostas. O astrofísico Neil deGrasse Tyson não descarta a possibilidade; e o visionário empreendedor Elon Musk está pessoalmente convencido disso.

E de certa maneira, nosso universo de fato remete a um computador em alguns pontos. Sabe quando você tenta rodar um jogo pesado demais em uma máquina antiga, levando à imagem ficar toda travada? Compare isso a um buraco negro, um objeto de massa e gravidade inimaginável que gira a velocidades exorbitantes. E o que acontece próximo a um corpo desses? O tempo em si fica mais devagar — a relatividade geral opera de forma semelhante a um computador pessoal tentando economizar recursos. Algo parecido é visto no sucesso que a matemática tem em descrever o cosmos e na dualidade onda-partícula. Dá pra imaginar dois times de desenvolvedores de software que escreveram códigos incompatíveis e então se reconciliam fazendo a luz atuar tanto como onda quanto partícula dependendo da situação.

Os arquitetos da simulação podem ter implementado vários truques de programação assim pra otimizar o uso do futuro equivalente de memória RAM. Estrelas distantes estariam renderizadas em baixa resolução, enquanto fenômenos microscópicos seriam preenchidos à medida que eles são exigidos por um observador — análogo aos segmentos que encontramos no Minecraft.

Qualquer anomalia notada seria corrigida voltando um pouco atrás no que você acredita ter experienciado. Talvez seja melhor você não procurar questionar muito sua realidade, pois um simulado ciente das falhas na matriz arriscaria ter memórias falsas instaladas ou ser relegado pra uma parte não-consciente da simulação, passando a ser nada mais do que uma sombra.

Alternativamente, os seres oniscientes- e potentes que controlam a simulação poderiam optar por remunerar positivamente condutas moralmente corretas. Visto que civilizações simuladas em teoria poderiam se tornar pós-humanas também, a realidade pode ter várias camadas. Isso criaria uma espécie de imperativo moral universal; uma razão pra se comportar de forma eticamente correta: se todos precisam considerar que suas ações serão punidas ou remuneradas adequadamente por um ser maior, há sentido a ser encontrado na existência mesmo em realidades artificiais — especialmente depois que a vida após a morte passa a ser plausível através da transferência de sua consciência pra outra simulação.

Por outro lado, se o custo computacional de realidades virtuais empilhadas for alto demais, é esperado que elas sejam terminadas no momento em que uma civilização dentro dela dá sinais de que está chegando perto de se tornar pós-humana. Se nós conseguirmos efetuar nossas próprias simulações, tomamos uma decisão assim que damos Enter no comando inicial: ou nós somos deletados, ou continuamos vivendo sabendo que o mundo é uma mentira.

Porém, não devemos enlouquecer caso a proposição (3) se mostre uma certeza — nem pense em largar seu trabalho e planos pro futuro. A principal importância empírica de (3) aparece ao considerar as duas outras alternativas: podemos esperar que estejamos vivendo em uma simulação, uma vez que isso reduziria a possiblidade de uma extinção. Mas como as limitações computacionais tornariam provável que a nossa simulação seja apagada antes de atingirmos o estágio pós-humano, nossa melhor esperança seria de que (2) se transforme na hipótese verdadeira.

De qualquer modo, nossos descendentes quase que certamente não vão rodar simulações de ancestrais, a não ser que a gente esteja agora em uma delas.


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