Mais do mesmo

Se torna cada vez mais cansativa — e cheia de contradições de ambos os lados — a discussão de alguns temas entre os extremos de direita e esquerda. Quando defendem Donald Trump no seu rigor à entrada de mexicanos nos EUA, os argumentos usados por alguns é de que existe um elevado número de estupros cometidos por imigrantes mexicanos em território americano e que, portanto, “quando um número desproporcional de atos está sendo cometido por determinado grupo de pessoas (mexicanos estuprando, no caso), pode-se criar um padrão de comportamento de todo esse grupo”. Ou seja, pode-se presumir que há uma padronização do estupro, ou que rigorosamente todos os mexicanos são estupradores em potencial. O lado mais à direita apoia essa tese e defende incisivamente o rigor à entrada de mexicanos por achar que todos no grupo são potenciais estupradores; já o outro lado extremo reprova esse discurso por achar que o discurso generaliza todos esses mexicanos.

Entretanto, se pensarmos em algo logicamente igual, ou praticamente igual, como no caso dos estupros cometidos em escala industrial no Brasil, cometidos por homens contra mulheres, os papéis se invertem: os mais à direita se revoltam e defendem que o discurso, que fala que rigorosamente todos os homens são potenciais estupradores, acaba generalizando todos os homens; os mais à esquerda defendem exaustivamente que sim, todos os homens são potenciais estupradores. Nesse caso, o grupo “homem brasileiro” estaria cometendo um número anormal de atos de estupro e, portanto, poderia se criar um padrão de comportamento de todo esse grupo, como no caso dos mexicanos.

E se acham que a comparação é inadequada, presumo que não: uma mulher é estuprada há cada 11 minutos no Brasil (como regra, é óbvio que o dado não é literal), bem como há casos de estupros cometidos por imigrantes mexicanos. A lógica é a mesma: existe um número alto de estupros cometidos por mexicanos nos EUA, e, igualmente, existe um número alto de estupros cometidos por homens contra mulheres no Brasil. E se alguém insiste em discordar do elevado número de estupros no Brasil, por burrice ou teimosia, pondo em dúvida os registros de ocorrência, espero que também discorde dos números apresentados pelos apoiadores de Donald Trump nos casos de estupro cometidos por mexicanos nos Estados Unidos. Ponham em dúvida, também, os registos de ocorrência das vítimas dos mexicanos. Se não existe provas suficientes dos estupros do Brasil, também não existem dos estupros nos Estados Unidos.

Conclusão: decidam-se. Ou o discurso tem que ser extremista e de rigor a ambos os grupos, ou o discurso não pode generalizar todo o grupo.

*Entendo, entretanto, que haja uma diferença entre as duas comparações: mexicanos representam um grupo “minoritário” nos Estados Unidos, já o homem, no Brasil, não. E um discurso extremista contra um grupo minoritário tem peso maior. Entretanto, o ponto a ser analisado é a forma com que discursos são emitidos, mesmo que, importante ressaltar, seja preciso tomar muito mais cuidado quando o discurso é contra minorias (é muito mais fácil que o discurso se torne prejudicial quando é contra grupos minoritários). O problema, por exemplo, não é a constatação que Trump faz sobre o elevado número de estupros cometidos por imigrantes mexicanos em território americano. O problema é a forma extremada e discriminatória como fala. O problema é a fala, proposital, claramente generalizadora. Além disso, é preciso tirar da análise o discurso extremado, por exemplo, contra um grupo rigorosamente específico, claramente extremista, como o ISIS. Ou, ainda, contra quem emite discursos de ódio.