Masterpieces #2

*Spoiler do filme Onde os Fracos Não Têm Vez (sinopse completa e análise de cenas e significados em geral).

Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country for Old Man) — 2007 — Direção: Irmãos Coen

Sinopse: Oeste do Texas, década de 1980. Llewelyn Moss (Josh Brolin), um veterano do Vietnã, durante uma caçada no deserto, depara-se com o que restou de uma malsucedida negociação de entorpecentes: diversos cadáveres baleados, um mexicano ferido pedindo água, uma grande quantidade de heroína em uma caminhonete e uma mala com dois milhões de dólares, a qual leva consigo ao voltar para casa. Durante a noite, Moss resolve retornar ao local do massacre, levando água ao homem ferido que havia encontrado, mas é perseguido por dois homens armados em uma caminhonete. Ao voltar para casa, toma para si a mala com o dinheiro, manda sua esposa Carla Jean (Kelly Macdonald) para a casa da mãe em Odessa e segue seu caminho rumo à cidade de Del Rio, hospedando-se em um motel e escondendo a mala nos dutos de ventilação do mesmo. Anton Chigurh (Javier Bardem), um psicopata assassino de aluguel contratado para recuperar o dinheiro, carrega consigo um receptor que rastreia a localização do dinheiro, através de um transponder escondido dentro da mala, e passa a perseguir insistentemente Moss. Nisso, Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones), o xerife da região, fica encarregado de desvendar o caso. Rastreando o dinheiro até um hotel em uma cidade fronteiriça, a perseguição de Chigurh a Moss chega ao seu clímax, culminando em uma troca de tiros. Chigurh promete, então, à Moss, por telefone, que não fará mal a Carla Jean se o dinheiro lhe for entregue. Moss, entretanto, desdenha da proposta e combina um encontro com sua esposa em um motel na cidade de El Paso, com o intuito de lhe entregar o dinheiro e mandá-la para longe das ameaças. Carla Jean insiste ao xerife Bell, que já está ciente dos envolvidos e da psicopatia assassina de Chigurh, para que este salve a vida de seu marido, mas é tarde: chegando ao motel, Bell vislumbra um grupo de homens, aleatórios na história e que também tinham interesse no dinheiro, saindo do motel e encontra o cadáver de Moss. Carla Jean, ao retornar do funeral da mãe, encontra Chigurh à sua espera, e lhe diz que não está em posse do dinheiro roubado por Moss. Chigurh revela a Carla Jean a proposta que havia feito a seu marido, mediante a qual sua vida seria poupada em troca do dinheiro. Em seguida, diz que o melhor que tem a lhe oferecer é decidir pela sua vida em uma partida de cara ou coroa. Carla Jean dispensa a oferta e diz que a escolha cabe a Chigurh. Em seguida, o assassino de aluguel deixa a casa sozinho e checa cuidadosamente o solado de suas botas. Ao deixar o local dirigindo, Chigurh é ferido em um acidente automobilístico e fratura o braço. Já o xerife Bell, pensando em se aposentar, e não tendo resolvido o caso, compartilha dois sonhos recentes com sua esposa (Tess Harper), ambos envolvendo o pai falecido.

A direção e Chigurh:

“Você sabe de que data é essa moeda? 1958. Viajou 22 anos para chegar aqui. E agora está aqui. E é cara ou coroa. E você tem que escolher. Escolha.”

Nada mais justo que os irmãos Coen tenham ganho os principais prêmios de direção por esse filme. A famosa cena, ilustrada no vídeo acima, do personagem psicopata Chigurh — protagonizada esplendidamente por Javier Bardem, que ganhou também, merecidamente, os principais prêmios de ator coadjuvante — intimidando o dono de uma mercearia é de uma maestria singular. Ela chega a ser engraçada, em alguns momentos, de tão amedrontadora. Os cortes, que vão se aproximando do rosto dos personagens, aumentam o suspense, dando uma impressão de crescente intimidação.

A inexistência de trilha sonora (ausente no filme todo, inclusive) também dá um ar de tensão silenciosa e parece servir para normatizar as cenas de psicopatia e de violência, como se fosse algo recorrente na sociedade e, por isso, não mais tão impactante. O ambiente de conformidade e de pessimismo também têm ligação com isso, e, como exemplo, temos o seguinte diálogo:

Moss: Se eu não voltar, diga à minha mãe que eu a amo.
Carla Jean: Sua mãe está morta, Llewelyn.
Moss: Bom, então eu mesmo digo.

Outro fato significativo é o acidente de carro que Chigurh sofre no final do filme, logo após aparentemente matar a esposa de Moss. Os Coen querem passar a impressão, com isso, que até Chigurh, por mais imparável que possa parecer, é humano e sofre, como qualquer outra pessoa, as consequências do destino. Um homem que passou o filme inteiro “decidindo” o destino dos outros, como se fosse Deus, é, na verdade, um mero humano.

O título:

“Eu sempre imaginei que quando fosse ficar velho Deus iria entrar na minha vida de alguma forma. E ele não entrou. E eu não o culpo. Se eu fosse ele eu teria a mesma opinião sobre mim que ele tem.”

Ed Tom Bell é claramente o protagonista do filme e acompanha espantado o avanço da violência na sua região. Ao visitar seu tio Ellis (Barry Corbin), um ex-oficial da lei, já no final do filme, depois de tanto refletir, expõe seu desejo de se aposentar, pois sente que está “ultrapassado” em relação à complexidade dos crimes que vêm ocorrendo. Chega a conclusão que os de mais idade já não tem espaço em um mundo tão degenerado.

Cena final:

“Then I woke up.”

A cena final resume-se ao xerife Ed Tom Bell contando à sua esposa os sonhos que teve na noite passada. No que segue:

“Dois sonhos foram com o meu pai. É estranho. Eu sou 20 anos mais velho, agora, do que ele era. De certa forma, ele é o mais novo. Bom, o primeiro sonho eu não lembro muito bem, mas eu o encontrava em algum lugar e ele me dá um dinheiro. Acho que depois perdi. No segundo, parecia que havíamos voltado no tempo. Eu ia atravessando as montanhas de cavalo, à noite. Passando por esse caminho nas montanhas. Estava frio e havia neve no chão. Ele me passou e continuou andando. Não disse nada. Apenas me passou. Estava enrolado num cobertor e de cabeça baixa. E quando ele passou, vi que carregava fogo dentro de um chifre como as pessoas costumavam fazer na época. Eu podia ver o chifre por causa da chama. Tinha a cor da lua. E, no sonho, eu sabia que ele iria adiante, e que queria fazer uma fogueira no meio daquela escuridão e daquele frio, e eu sabia que, a qualquer momento que eu fosse lá, ele estaria lá. E então eu acordei.”

Além da atuação magistral de Tommy Lee Jones, que consegue dar um ar de resignação e pessimismo à cena, o que mais marca é a sua última fala, algo como um balde de água fria que recebe da realidade e dá no público. “E então eu acordei”, diz um desesperançoso xerife depois de contar os sonhos que teve com o pai. Sonhos que representam a sua própria história no filme. Um personagem que vai se dando conta, cada vez mais, ao longo da história, que faz parte de um mundo rodeado de violência, desumanidade e ganância (mostrados ao longo de todo filme). “E então eu acordei”, desoladamente dito pelo xerife, significa que ele acordou para realidade, tanto no sonho como na vida real. O seu pai e o fogo que ele estava fazendo no meio da escuridão, no seu sonho, seriam as últimas esperanças de um mundo bom. Que acabaram quando do seu despertar. Além disso, havia percebido que o seu tempo havia acabado. Depois das suas últimas palavras, e antes dos créditos finais, é possível ainda ouvir o tique-taque pausado de um relógio. Algo colocado genialmente pelos Coen para representar a passagem inevitável do tempo. Como uma contagem regressiva até o fim dos dias do xerife.

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