O atual Grêmio e o Atlético de Madrid

Antes de começar a análise, um desejo pessoal: que ambos os clubes façam a final do Mundial de Clubes em dezembro, no Japão (e que o Grêmio ganhe).

Se isso ocorrer, então, será possível ver dois times que, na minha visão, atacam e marcam, atualmente, 99% iguais. Um estilo de jogo espelhado e com uma curiosidade: após a lesão de Douglas, camisa dez do Grêmio, ambas as equipes possuem, em seus onze jogadores titulares — comparando posição por posição — atletas rigorosamente com as mesmas características de jogo.

Lembro-me bem de ter gasto, nervoso, horas antes do segundo jogo da final da Copa do Brasil do ano passado, um bom tempo pensando em como o técnico do Grêmio, Renato, armaria o seu time para o jogo. Fiquei em dúvida se Renato iria esperar e jogar no contra-ataque ou se proporia um jogo de domínio e de repetidos toques de bola pelo meio, como era a característica predominante do tik-taka gremista de Roger Machado (substituído por Renato). O Grêmio havia vencido a primeira partida no Mineirão, contra o Atlético-MG, por 3 a 1 e poderia até perder por um gol de diferença o segundo jogo.

Passado alguns minutos de jogo, logo notei: o Grêmio estava portado exatamente como o Atlético de Madrid de Simeone. Duas linhas de quatro compactadas, esperando pelo contra-ataque. O Grêmio de Renato, um pouco diferente do Grêmio de Roger, tem essa característica: ele não se envergonha de jogar atrás esperando. De jogar de forma mais fechada, pragmática. O Grêmio, com esse esquema, no final das contas, acabou segurando o Atlético-MG de maneira perfeita e foi campeão da Copa do Brasil. E por pouco não ganhou o jogo.

Chegou 2017 e o Grêmio, então, sofreu com a lesão de Douglas, que ficará parado por um bom tempo. E foi aí que os esquemas tornaram-se mais parecidos ainda: o Grêmio começou, após isso, também a propor o jogo como o Atlético de Madrid. Douglas, o armador clássico, de pouca movimentação, deu lugar à Miller Bolaños, jogador intenso que também cumpre funções de atacante. O Grêmio passava, então, a ter praticamente dois atacantes, como o Atlético de Madrid.

As equipes e os esquemas:

Os dois times, atualmente, jogam praticamente iguais. Há, entretanto, uma pequeníssima diferença: o Grêmio ainda gosta de centralizar, às vezes, o jogo pelo meio — com repetidas trocas de bola ao estilo tik-taka — diferente do Atlético de Madrid, que tem o costume de lateralizar mais o jogo e atacar de forma mais prática. Além disso, a linha de quatro do meio do Atlético de Madrid parece jogar um pouco mais junta, muito talvez pelo rigor tático imposto pela cultura do futebol europeu. Mas, em boa parte do tempo, com a ausência de Douglas, a proposta de jogo é igual. Renato incentiva ataques práticos. Além disso, como dito, ambos os times possuem, nos seus onze iniciais, jogadores com as mesmas características nas suas respectivas funções.

O Grêmio atual tem: Grohe; Edílson, Geromel, Kannemann e Marcelo Oliveira; Léo Moura, Maicon, Ramiro e Pedro Rocha; Bolaños e Luan.

Já o Atlético é formado por: Oblak; Juanfran, Savic, Godín, Filipe Luis, Saúl, Gabi, Koke e Carrasco; Griezmann e Gameiro.

O esquema 4–4–2 sólido e compacto de ambos os times

Defesa: na primeira linha de quatro, temos quatro defensores nas duas equipes com as mesmas características de jogo e de função: obedientes taticamente, guardadores de função e sólidos defensivamente: Edílson, Juanfran, Geromel, Savic, Kannemann, Godín, Marcelo Oliveira (o único que destoa em qualidade) e Filipe Luis. Até aí tudo bem, a imensa maioria dos times joga assim em suas primeiras linhas.

Meio-campo: é a parte do campo onde a semelhança fica mais cristalina e gritante: os jogadores cumprem as mesmas funções em ambos os times. Além disso, possuem as mesmas características de futebol. A marcação é idêntica entre as duas equipes no meio-campo. Já o mecanismo de ataque do meio, como dito, semelhante em boa parte do tempo. Ambos os times jogam com quatro meio-campistas alinhados um ao lado do outro. O Grêmio abre o meio com Léo Moura, bem pela direita, fazendo a função de vai-e-vem. Antes, Ramiro ocupava tal setor. E talvez se assemelhasse até mais à Saúl, ótimo jogador de futebol e o correspondente do Atlético nessa função. Logo ao lado de Moura e Saúl, temos Maicon e Gabi: os capitães dos seus respectivos times (até nisso os times se assemelham). É incrível: ambos os jogadores parecem clones. Até a forma de se movimentar e de se portar é igual. É por ali que a bola mais passa, principalmente no Grêmio. Além do passe refinado, ambos tem a capacidade de, nivelados à linha de quatro do meio-campo, marcarem mais à frente quando a linha avança a marcação e atacarem quando a linha prossegue ao ataque. Ao lado de Maicon e Gabi, em direção à esquerda, temos os incansáveis Ramiro e Koke. Ramiro, além de idêntico à Saul, é muito parecido com Koke. Ramiro e Koke são os operários do meio-campo. Passe-se então à posição mais à esquerda do meio campo: seus donos são Pedro Rocha e Yannick Ferreira Carrasco. Ambos tem a função primordial de, além de defenderem, se juntarem ao ataque com mais frequência que os outros três jogadores de meio. Servem de escape aos times em contra-ataques, como se fossem pontas ou terceiros atacantes. Frequentemente saem da parte esquerda do campo e migram mais para o meio, ou para o ataque, trocando de função com algum dos atacantes. Foi assim, inclusive, que Pedro Rocha marcou o primeiro gol da final da Copa do Brasil no Mineirão.

Ataque: já a parte final do campo, o ataque, é composta de Bolaños, Griezmann, Luan e Gameiro. Talvez aí resida a única exceção à regra: Bolaños e Griezmann são idênticos; já Luan e Gameiro não. Entretanto, como Bolaños e Luan estão sempre mudando de posição, é como se Luan pudesse ser comparado a Griezmann, algo que tornaria a equiparação muito mais aceitável. Os quatro jogadores, dois de cada lado, jogam quase em linha com o seu par, formando o ataque dos seus times. Há, ainda, a possibilidade da entrada de Barrios, no Grêmio, e de Fernando Torres, no Atlético: ambos centroavantes de área fincados.

Mecanismo defensivo do Grêmio:

Segundo jogo da final da Copa do Brasil de 2016 entre Grêmio e Atlético-MG

Podemos ver claramente na imagem acima o que foi a tônica daquela partida: o Grêmio fechado, com o regulamento debaixo do braço, esperando o Atlético-MG com duas linhas de quatro compactas. A grande diferença aí se dá pela presença de Douglas, jogador de estilo diferente em comparação à Bolaños, atual dono da função. Douglas, entretanto, está posicionado na mesma linha de Luan.

Walace se desprendendo da linha do meio para dar o combate

Mecanismo defensivo do Atlético de Madrid:

As famosas duas linhas de quatro de Simeone: logo no apito inicial de Leverkusen e Atlético de Madrid, nas oitavas da Champios League de 2017, ambas já estão compactas

Desde que Simeone chegou ao Atlético de Madrid, a marcação do Atlético é sempre a mesma, como na foto: duas linhas de quatro rígidas, com a capacidade de se movimentarem, alinhadas entre si, por parte do campo, em bloco. A regra é que os jogadores fiquem sempre juntos dos seus parceiros de linha. Saúl, Gabi, Koke e Carrasco sempre inseparáveis.


Movimento defensivo do Grêmio na partida de estréia da Libertadores de 2017 contra o Zamora
A rigidez defensiva do Atlético de Madrid na Champions League de 2017: oito jogadores defendendo um perto do outro

Movimento ofensivo do Grêmio:

Gauchão 2017: instantes antes do gol de Pedro Rocha, na Arena, em goleada do Grêmio contra o Veranópolis

Na ilustração acima podemos ver um exercício recorrente do ataque do Grêmio: Pedro Rocha se desloca da ponta-esquerda para o centro do ataque, na função deixada por Luan, que vem ao meio buscar jogo (e essa talvez seja a diferença de ataque entre Grêmio e Atlético de Madrid, já que Luan ajuda a centralizar o jogo do Grêmio quando recua e o time passa a trocar mais repetidamente a bola). Desse movimento saiu o terceiro gol, feito por Pedro Rocha, na goleada do Grêmio contra o Veranópolis.

O Gabi gremista: Maicon recebe e já despacha para Bolaños marcar na vitória fora de casa contra o Veranópolis

O Grêmio de Renato, como dito, também prioriza, muitas vezes, ainda mais com a ausência de Douglas, o movimento ofensivo prático e rápido, sem muitas trocas pelo meio. Na ilustração acima vemos o início de um gol do Grêmio, oriundo de apenas de duas trocas de bola antes do passe final: Maicon, alinhado aos seus companheiros de meio-campo, recebe de Luan, que recebera de Léo Moura, e já lança Bolaños à frente. Nota-se que, diferentemente de uma mecânica ofensiva do tik-taka, que prioriza — como já explicado — repetidas trocas de bola no meio, a linha de meio-campo do Grêmio está quase que completamente alinhada, o que pressupõe um movimento ofensivo mais pragmático. Sem Douglas, o Grêmio começou a adotar mais essa característica. A título de comparação: é curioso notar o primeiro gol do Grêmio na primeira partida da final da Copa do Brasil: houveram seis passes curtos, com Douglas participando de dois deles, antes do passe final de Maicon para Pedro Rocha. Além disso, o meio-campo do Grêmio estava completamente desalinhado: os dois “atacantes”, em tese, naquela partida, Douglas e Luan, estavam bem atrás tocando bola, como se vê na imagem abaixo. Douglas sempre se movimentava dessa forma, ao contrário de Bolaños, que joga mais perto da área em busca da conclusão.

Troca de passes antes do primeiro gol do Grêmio na primeira partida da final da Copa do Brasil

Movimento ofensivo do Atlético de Madrid:

Champions League 2017: contra-ataque do Atlético de Madrid

Assim como no exemplo do gol de Pedro Rocha contra o Veranópolis, uma das características da linha do meio de Simeone é a possibilidade de Saúl ou, principalmente, Carrasco, se desprenderem de posição na ida ao ataque. Além disso, Simeone foi esperto ao colocar Saúl, canhoto, pela direita e Carrasco, destro, pela esquerda. Há muitos gols de ambos puxando para o meio e chutando com seus pés preferenciais. O ataque do Atlético se dá mais ou menos da maneira exposta na imagem: a linha do meio, principalmente em movimento de contra-ataque, progride junta ao ataque, em ações rápidas, sem muitas trocas repetidas de bolas pelo meio. O contrário do tik-taka.

Contra-ataque do Atlético de Madrid na semifinal da Champions League de 2016 contra o Bayern de Munique

Fica a torcida, então, para que ambos os times cheguem longe em suas competições continentais. O Atlético de Madrid enfrenta o Leicester nas quartas de final da Champions League de 2017. O Grêmio ainda está na fase de grupos da Libertadores de 2017. Quem sabe essa não seja a futura final do Mundial em dezembro?