Sobre controlar humores e administrar amores
- Ah! Não faça isso! — reclamou Maria Antônia ao me ver jogando o lacre plástico do meu maço de Lucky Strike pela janela do passageiro de seu carro. Ao mesmo tempo em que me reprovava Maria agia de forma fofa. Usava o tipo de voz que indicava não querer briga naquela noite.
Mas por que eu havia jogado o lacre pela janela do carro? Entre as baforadas do cigarro recém-aceso pensei no que me atormentava naquele início de noite. Maria, com seu costumeiro sorriso diplomático, parecia tentar desfazer minha cara amarrada. Entre uma passada de marcha e outra ela colocava a mão na minha coxa, mais em sinal de carinho e afeto do que de safadeza e tensão sexual.
Era isso. Tensão sexual. Tudo se resumia no interior das minhas calças. Havia tensão sexual em demasia entre mim e ela. Não havíamos transado (e infelizmente aquela curta relação daquele fim de ano de 2005 não contaria com sexo) até então. Ela mais por pudor e menos vontade, eu por pouca insistência e mais por receio de envolvimento. Mas não precisava ter sido tão ríspido quando ela docemente havia me perguntado sobre o coelho na lua cheia. A bela e branca lua cheia iluminando o Aterro do Flamengo que podíamos avistar da janela do seu Golf prateado .
- E aí? Consegue ver um coelho dentro da lua? — perguntou Maria Antônia.
- Sim… — respondi ao mesmo tempo em que dando uma baforada em meu cigarro procurava no radio alguma porcaria melhor do que Outkast.
- Eu também… sabe o que isso quer dizer? Tipo, sabe o que se passa com quem vê um coelho na lua cheia? — ela sorriu e mais uma vez pôs ternamente a mão sobre minha coxa. Não pude deixar de sentir uma (quase culpada) excitação naquele momento.
- Aham… — repliquei secamente. Tão frio que ela nem quis continuar o papo.
Na verdade aquilo também me deixava surpreso. Ela afinal queria se confessar apaixonada por mim? E depois ainda queria um sentimento recíproco de minha parte? Justo eu que só pensava em levá-la para cama, mas não carecia de caráter para apenas abandoná-la depois de uma noite? E pra piorar, não tinha maturidade para revelar-lhe meu interesse numa relação puramente carnal e em seu consentimento para que seguíssemos apenas como um casal de coelhos que trepam repetidas vezes até por fim se cansarem e darem o fora de vez. Mas seria apenas aquilo mesmo o que eu realmente desejava? Não saberia dizer se estava apaixonado por ela ou não. Sabia que o que sentia por ela não era amor. Não ainda. Mas também sabia que sentia mais do que simples tesão. Havia naquela relação algum carinho. Uma coisa divertida, algo bom de se sentir. Mas não soube comunicar-lhe e nem tive paciência em sua dificuldade de compreender meus gestos e atitudes, que talvez por serem ríspidos e frios, fossem apenas uma forma infantil de chamar sua atenção.
Chegamos à festa, ela trajada como Lara Croft, eu de Indiana Jones, e dançamos e bebemos. Todos elogiaram meu chapéu, além das botas, o short e a trança de Maria Antônia. Terminada a festa ela me deixou em casa e fim. Seguimos com nossas vidas e com a passagem de ano. Para me mostrar tolamente cruel, faltei ao seu aniversário. Nem um telefonema nem um email ela recebeu de minha parte.
E agora, vendo-a passar pelo centro com seus processos embaixo dos branquíssimos braços nus, vestida formalmente, o que indicava um trabalho em algum escritório de advocacia, apenas um degrau para o sonho da magistratura, senti-me extremamente mal por aquela resposta fria da noite de dezembro. Como se um karma de três anos viesse me cobrar um sentimento ruim desnecessariamente compartilhado com ela naquela época.
Na mesma hora pensei em chamá-la. Em perguntar como estavam as coisas, em falar-lhe de como aquela festa à fantasia havia sido bem divertida. Também quis confessar-lhe minha culpa e meu peso pelo frio tratamento dispensado no curto período em que estivemos juntos. Sobre como estraguei potenciais momentos de felicidade a dois por um punhado de orgulho barato. Provavelmente ela nem mais lembraria do momento no carro. Nem lembraria mais da lua cheia e o coelho que apenas os apaixonados vislumbram em sua face branca. Mas na mesma hora lembrei que não podia ir atrás dela. Aguardava minha namorada na saída daquele mesmo edifício que Maria Antônia havia acabado de deixar.
E sua simples passada, seu leve caminhar, seu jeito doce e gracioso de menina enrolada com vários papéis por carregar, me fizeram sentir toda a culpa pelo modo como agia. Sempre com dificuldades para administrar humores e controlar amores, ou controlar humores e administrar amores, não importava mais. Meus pensamentos foram interrompidos quando avistei minha namorada deixando o elevador e vindo ao meu encontro.
Maria Antônia, com seus processos e seus anseios pela magistratura, estava bem melhor sem mim agora.
14.12.2008
