Frederico explica Romero Britto

Em resposta a um verdadeiro tratado jurídico sobre a moralidade e competência profissional de Joaquim Barbosa, Fred deu seu quinhão de pitacos sobre a arte de Romero Britto, ao ser questionado acerca das nebulosas facetas de sua potencial picaretagem.

Diretamente das caixas de email, reproduzo aqui esta crítica dominical casual em diálogos de deixar qualquer Platão orgulhoso.

Romero Brito e a arte de ganhar dinheiro

Povo: Pode explicar porque vocês acham o Romero Britto um absurdo de bosta?

Frederico: Pois bem, vamos aproveitar o domingo tranquilo para analisar Romero Britto a fundo. Pela visão do mundico das artes visuais, se julga que o que ele faz não envolve nenhum pensamento pictórico ou conceitual, não acrescenta nada em termos de estética, é puramente comercial e ilustrativo, não pode ser levado em conta como manifestação autóctone da cultura popular da arte naif (aquelas artes plásticas que não passaram pela academia ou pela oficina de aprendizado), nada discute a História da Arte, além de fazer as piores escolhas cromáticas e formais de que se tem notícia. Eu partilho dessa opinião. Mas acima de tudo isso, o mundo da arte se contorce contra o Romero Britto porque ele faz muito dinheiro com esta merda e tem um alcance que outras obras de arte mais relevantes e complexas deveriam ter. Na opinião dos iniciados, o Romero Britto engana pessoas, é um charlatão que oferece cheetos no lugar de nutrição.

Povo: Mas a técnica dele não é boa?

Frederico: Vamos começar pelo rigor técnico, algo que ainda se discute para um bom pintor, independentemente das escolhas de cor, forma e tema. Suas imagens usam de um padrão gráfico e ele sempre as repete em ilustrações com temáticas afetivas e alegres. Beleza, até aí tudo bem, não dá pra julgar uma arte ruim porque ela tem uma visão hello kit do mundo. A questão mais óbvia é que, tecnicamente, é um lixo. Recomendo a visão terrível de perto das pinturas em homenagem ao Santos Dumont no aeroporto de Congonhas e o painel no aeroporto de Guarulhos. Quando um legítimo Romero Britto não é impresso, ele fica invariavelmente torto e escroto. Basta ver de perto.

Povo: Então podemos dizer que o trabalho dele é mal executado?

Frederico: Sim, para um trabalho que plagia padrões computacionais pré-fabricados do Illustrator (programa de ilustração digital) — como pinturas. Por quê? Porque há excesso de tinta, linhas mal definidas, manchas nos campos de cores, marcas de pincel, imagens deformadas do modelo de cópia. Enfim, tecnicamente, como ilustração digital passada para pintura, é uma coisa grotesca.

Povo: Mas por que o Romero Britto é passível de crítica no rigor formal e tantos outros pintores que usam e abusam dos mesmos “erros” citados acima não — e muitas vezes são tidos como gênios, como no caso de Cy Twombly?

Frederico: Ora, Cy Twombly pertenceu ao movimento do Expressionismo Abstrato que despontou no que se chamou de pós-modernismo, um período obscuro de definições no pós-Segunda Guerra, que marcou o deslocamento do eixo da arte da Europa, arrasada pela guerra, para uma Nova York vibrante do mundo da liberdade americano. Muitos artistas fugiram da Europa para Nova York, e quando o Modernismo e as vanguardas não tinham mais que libertar a arte de nenhuma função e já a imbuíam do que se chamou de arte pela arte, as imagens se deformaram para explorar todos os limites. O erro foi abraçado. De Kooning transformou o borrão em arte, Pollock transformou o espirro em arte, Cy Twombly o rabisco e o devaneio. Neste contexto, o Romero Britto quer pouco ou quase nada. Uma imagem besta que seduz pessoas bestas. Esvaziada e, pior, sem nenhum rigor técnico que o valha, nenhum risco na fatura da imagem. Nada. No quesito rigor técnico ele é um ilustrador bem mediano.

Povo: Mas e se a gente considerar que o Romero Britto é um artista pop?

Frederico: É comum se dizer que um artista com apelo popular, colorido e que “faz imagens que alegram” seja considerado um artista pop. Pra começar, a arte pop é irônica e fala muito sobre morte. A morte do original, da mão do artista, do conteúdo repetido à exaustão. As imagens de Andy Warhol são ácidas, usam cores ácidas e fazem uma crítica direta ao consumo transformando-se em consumo.

A imagem acima é do artista Roy Lichtenstein, que usava as imagens de quadrinhos nas galerias de arte como provocação. E o melhor, ele pintava pontinho por pontinho a retícula da imagem impressa da época. Era uma questão sobre o que era a pintura naquele momento pós Expressionismo Abstrato. Assim, o que significa dizer que ele é um artista pop? É dizer que você não sabe ou não entendeu o pop nas artes visuais. O pop não são as cores e os temas publicitários ou cotidianos e kitsch, ele é uma provocação irônica disso. O Romero Britto não provoca nada com as imagens, não há na temática delas a crítica ao gosto, há o abraço ao consumo sem nenhum questionamento, o que é o contrário absoluto do que faz o nosso querido Nelson Leirner com recursos parecidos.

Povo: Mas não pode ser que na verdade ele é tão vanguarda que ninguém ainda entende seu trabalho?

Frederico: Essa talvez seja a mais arriscada, porque quando alguma coisa é muito ruim há a possibilidade de ela ser boa por isso. Aí entra a atitude do artista: se ele se comporta criticando o mundo da arte e faz essas imagens, a gente ia ficar confuso. Ainda bem que ele só quer ser milionário.

Povo: O que ele faz não é uma crítica intencional ao sistema da arte pelo consumo cego?

Frederico: Artistas como Jeff Koons, Takeshi Murakami e Damien Hirst fazem imagens odiosamente kitsch e montanhas de dinheiro em ateliês com 200 assistentes, provocando o entendimento do mercado cravando 28 milhões de libras em uma caveira ou vendendo milhares de cópias de um bagulho aparentemente idiota.

Esses artistas talvez sejam o melhor encaixe para o Romero Britto, mas não acho que ele consegue entrar nem aí porque ele não força a barra como nosso amigo Jeff Koons aí acima, que inclusive casou com a Cicciolina. As imagens não vão a lugar algum, se repetem e não fazem piada com nada, só atuam pra deixar o mundo mais imbecil e conivente. Então ele tensiona os limites do entendimento na nossa cabeça porque a gente é confuso, não porque ele tenha tido o controle e a intenção disso. Esse é o único mérito que eu consigo conceder a ele, que na verdade é mérito das pessoas que gastam muito dinheiro com ele, não ele.

Povo: E aí todo mundo fica puto com ele porque ele é rico.

Frederico: É verdade. Eu fico muito puto de ver as pessoas gastando dinheiro pra ter um Romero Britto em casa porque isso só demonstra que elas são preguiçosas de conhecer outros artistas, que sejam ilustradores como ele, que usem cores vibrantes e motivos bobos, mas que são muito melhores como artistas. Gostar do Romero Britto é aceitar a publicidade. Aceitar a publicidade é, na minha opinião, se entregar e ser um idiota completo. Eu acho que existe um exagero. Mas ele atingiu aquele status de Paulo Coelho, no qual muita gente que não gosta dele o faz exatamente pelo mesmo motivo que outras pessoas que gostam: porque é moda. Mas também é verdade que nenhum artista ou curador publicamente se compromete atacando o Romero Britto porque amanhã ele pode ser aclamado como gênio e daí a coisa fica feia pro seu lado. Como eu ainda sou relativamente desconhecido me dou ao luxo de fazer uma explanação mais acalorada, que um dia pode ser a prova cabal de que era eu na verdade que era um careta e não entendia nada, razão pela qual eu coloco esta frase aqui como garantia de salvo conduto. A lógica seria ele ser ignorado, mas aqui estamos falando dele e não do Cildo Meireles. E eu cagando regra sobre um cara que come no café da manhã o que eu demorarei três meses pra ganhar. Mas isso acontece porque também existe uma carência de imagens para abastecer o mercado de objetos inúteis e decorações facilmente deglutíveis fáceis de replicar. Também por culpa do meio da arte, que blinda as paredes dos museus e galerias e um visitante geralmente acha tudo aquilo entediante.

Povo: Mas, sendo assim, ele nem merece tanta atenção no fim das contas.

Frederico: Do meu ponto de vista é assim: ele não é um artista porque não há nada por trás desse trabalho, ele só tem um negócio próspero de estampas. Mas quando nós ficamos aquartelados em discursos esfíngicos buscando a atenção de curadores charlatões, um espaço se abre e — tadã — um gênio se ergue. Talvez aturar e odiar o Romero Britto seja um auto flagelo pela nossa própria falta de alcance. E também porque a primeira coisa que um aspirante a artista ouve de seus pais é: por que você não faz uma coisa mais colorida, mais alegre, que as pessoas queiram comprar? No fundo, nós merecemos o Romero Britto!

Povo: Eu entendi que o valor artístico de uma obra é atribuído em parte (ou pelo menos a partir) da conduta do artista e das razões que ele oferece publicamente (para um público mais ou menos restrito) para justificar ou contextualizar o que ele faz. Então isso quer dizer que artista tem que estar pra caralho na mídia ou em algum veículo de alta exposição?

Frederico: Sim, a exposição é importante, mas há graus e níveis de comprometimento e de fé na mídia. Na verdade, o que ocorre é que há uma mistura. Existe um mercado composto por iniciativas privadas (galerias, colecionadores, doadores, patronos, curadores), instituições públicas (museus, centros culturais, críticos de arte, curadores, ministério e secretaria de culturas) e agentes independentes (artistas, curadores e críticos de arte, espaços culturais e produtores). Dentro desse cenário, há um trabalho conjunto que muitas pessoas chamam de promiscuidade, por isso coloquei os curadores em todas as categorias, porque hoje eles articulam o que vale e o que não vale. A arte sempre precisou de um legitimador na história, seja a igreja (Renascimento), o marchand (Modernismo), o Estado (Realismo Soviético e Antiguidade Clássica), etc. No mais das vezes, o que acontece é que essa combinação define o valor institucional e financeiro, sempre mediada pelo crítico de arte e pelo curador. Mas os profissionais sérios e dedicados usam as informações paralelas (formação, onde expôs, está na coleção de quem, trajetória, etc.) como critérios de análise posterior. A obra sempre é o que importa, mas para legitimar preços e inserções, todo currículo entra em conta. A questão é que há muita gente picareta que inverte esse valor, então temos muitos artistas de currículo com obras medianas que tem conexões com críticos e curadores que acabam aparecendo mais. Sabem jogar o jogo da especulação e se valorizam num mercado de critérios subjetivos.

Povo: Ou seja, falar que você é foda faz de você um foda até que as pessoas saiam da hipnose da sua autoconfiança — a não ser que você seja foda mesmo.

Frederico: O que eu quero dizer é que talvez seja difícil dissociar uma boa obra (naqueles quesitos de antes) de uma boa história e de um artista dedicado que vai ao limite daquilo que ele sabe e tenta coisas novas, seja ele um popstar inglês da arte contemporânea seja ele o Zé Bezerra, um escultor incrível do interior do Ceará. Geralmente, a história do artista é a história da obra, então isso é o que conta no fim. A arte não é o mercado da arte. Por isso, duas análises sempre saem desse mato. Então, sim, um artista tem que estar em exposição. É inclusive o nome do nosso objetivo final. Mas isso não exclui o fato de a exposição poder ser ruim. Ou seja, não é porque é arte que é bom. E você tem de gerenciar bem ou mal a sua exposição.

Povo: Qual a relação entre a exposição e o trabalho do artista?

Frederico: Você pode ter toda a mídia e a babação de ovo. Uma manobra de marketing articulada pela sua galeria pode te dar entrevistas, exposições internacionais, contatos com curadores de outros lugares, acesso a coleções, etc. Mas se a obra não for boa, ela não sobrevive, não é respeitada e com o tempo você sai de moda — e aquilo que era uma sensação do mundo das artes, inflacionado pela subjetividade e pela especulação, vira uma sombra. Ou você pode se concentrar no seu trabalho, arriscar e seguir suas intuições criativas e acreditar que suas chances virão. Fazer o seu trabalho de contatos sim, mas subordinando-os à evolução do seu trabalho estética e conceitualmente. Eventualmente, as pessoas mais sérias te encontrarão se você der as caras e fizer suas exposições e as coisas acontecerão sem o frenesi do mercado que te inflaciona e depois te tira o chão. Acontecerão com mais consistência. Inclusive, artistas arredios à exposição excessiva, que não comparecem a jantares de curadores e de temperamentos imprevisíveis, acabam inclusive ganhando mais mídia por isso. É a lógica do consumo aí, o que é mais difícil de entrevistar também é o mais procurado.

Povo: Mas isso tudo tem a ver com a profissão de artista, onde ficam as obras nisso?

Frederico: Eu não acredito em separação da obra e do artista. O seu trabalho (que não é simplesmente um trabalho pra ganhar dinheiro pra sobreviver, mas uma coisa que te define) foi uma escolha. Já começa daí. O quanto você se envolve com ele. Para o mercado da arte, o critério é um. Para a arte, que é um mistério, o critério é outro. O Romero Britto não está inserido nesse contexto. Ele não tem galeria, não expõe em nenhum museu ou instituição, não tem colecionadores típicos ou relevância no cenário da arte. Isso não significa que o que ele faça não seja arte — o que, por sua vez, não significa que seja bom.

Povo: Pensando assim, o que podemos dizer do Keith Harring?

Frederico: Keith Harring, mesma coisa. Importantíssimo na cena da arte pop, que se misturou com o hip hop de NY. Mas, hoje, ter um Keith Harring é quase como ter um Romero Britto, do ponto de vista da moda. Pouca gente está interessada em quem ele foi. Mas, na real, isso não interessa no fim pra quem observa, a não ser que interesse. A diferença é que o Harring pintou o que vivia, um cenário louco de uma cidade cabulosa e apinhada de gente modificando a cultura numa velocidade vertiginosa. O Romero Britto não faz isso, ele pinta coisas bestas sem nada dentro. O objetivo dele é ser famoso. Milionário. Ele é muito mais um produto do pop que o pop propriamente dito. Amanhã ele sairá de moda, entrará outro. É subcelebridade. É publicidade, hoje é carro rápido, amanhã carro gigante e depois de amanhã carro movido a água. O que fica dele? Nada.

Povo: Mas e a sensação das pessoas quando veem as obras?

Frederico: A emoção estética depende em grande medida de um sentimento, que talvez seja inexplicável. Eu acredito que só bons artistas conseguem transmitir isso. Mas e se a pessoa se emociona com um desenho infantil de um homem de braços abertos? Pessoas que não estão interessadas na profundidade do artista se emocionam com artistas rasos. Um artista pode surgir com uma obra e te emocionar demais, sem ter nenhum currículo do circuito da arte. Mas eu sigo acreditando que nem isso ele consegue, porque o interesse final é a grana, não o que a arte pode revelar e que deixa a gente um tanto quanto feliz quando experimenta esse sentimento num filme, numa música, numa pintura ou qualquer outra expressão.