somos todos rinocerontes?

Por que não conseguimos nos entender na política?

"Rinocerite Aguda", de José Garcez Ghirardi, fala da absurda dificuldade de entendimento que vivemos, movidos por modelos mentais baseados em imposição ideológica e absoluta falta de empatia.

"Na cena final de O Rinoceronte, Bérenger, rodeado e ameaçado por concidadãos transformados em paquidermes, jura resistir. Embora sua luta pareça cada vez mais desesperada, ele não vê alternativa senão a de apegar-se a sua determinação de permanecer humano, custe o que custar. (…) A peça genial de Ionesco e a denúncia ácida que faz do embrutecimento humano permanecem desconfortavelmente atuais."
"Ao longo da ação, os habitantes da cidade vão, pouco a pouco, desenvolvendo características que surgem como o avesso mesmo daquilo que nos faz humanos: uma couraça espessa os torna impermeáveis e insensíveis àquilo e àqueles que estão ao redor; uma miopia crônica os impede de ver amplamente e com clareza; uma intolerância absoluta os faz detestar a diferença; uma ferocidade absoluta os obstina a destruir os que não são de sua espécie."
“Esse tema da conversão compulsória, e das dificuldades em resistir-lhe, talvez seja uma das razões importantes para a atualidade do texto de Ionesco. Como já foi observado, uma das características das sociedades pós-modernas é a de que as relações, mesmo no espaço público, passam a ser fundadas na semelhança entre aqueles que se relacionam. A lógica que preside as trocas no Facebook e outras redes — o usuário aceita ou descarta amigos segundo sua conveniência individual, segundo se identifiquem ou não com aquilo que pensa — vai aos poucos se tornando, para muitos estudiosos, a matriz das relações interpessoais como um todo. A norma é evitar o desconforto da diferença e da contradição, não a de conviver com ele.
“(…) cada um deveria ter a habilidade de transitar harmoniosamente na ágora povoada por uma multiplicidade de visões de mundo. A civilidade era justamente a virtude de conviver com essas diferenças. Ela se fundava na crença de que a igualdade radical da condição de cidadão deveria prevalecer, no espaço público, sobre as singularidades do sujeito individual.
“Imersas em um modelo econômico cuja obsessão é a de agradar ao consumidor, de fazer com que todos os aparatos e serviços se ajustem ao máximo aos desejos e preferências do sujeito que deles se utiliza, tais sociedades parecem implicitamente propor que aquilo (ou aqueles) que não forem imediatamente compatíveis com as necessidades do momento devem ser descartados.”
“Nesse contexto, o outro é frequentemente reduzido à categoria totalizante e depreciativa de “gente que pensa assim”, numa redução que atrela o dever de respeito ao outro à convergência ou não de suas ideias com aquelas de quem o julga.”
“Combinando uma certeza enfarada de que “já sei o que você vai dizer” com a convicção de que a opinião ou sentimento discordante vem da incapacidade de o outro entender aquilo que vivo e sinto, ela faz com que cada um vá se encerrando mais no — cada vez mais reduzido — círculo ou couraça daqueles que sentem e pensam de maneira idêntica. Excluída a diferença, o sujeito se confirma satisfeito no ambiente seguro das opiniões homogêneas reforçando, no processo, a ideia de que são muito obtusos ou mal-intencionados os que estão do lado de fora.”
No campo das relações políticas, isso tem gerado não apenas uma falta absoluta de diálogo entre propostas diferentes, mas, de maneira ainda mais grave, uma redução drástica na própria capacidade de formulação de novas propostas. Apaixonado pelas próprias certezas e surdo às críticas, o pensamento político se torna estéril. A ação política, por sua vez, passa a ter por objetivo justificar a exclusão dos adversários, não construir a convergência, e as ações de governo, modos de premiar a homogeneidade de pensamento, não de proteger a diversidade de leituras.
“Ocorre a inversão do ditado que diz ser a guerra a política por outros meios: é a política que se torna guerra, um embate que deverá necessariamente deixar em campos opostos vencedores e vencidos, sem nenhuma possibilidade de composição ou entendimento, até que estes últimos se reagrupem e recomecem a batalha para retomar os espólios com que os primeiros se fartaram.
Nessa alternância em que soluções consensuais e avanço conjunto são impossibilidades, a república, a coisa pública, como em toda guerra, fica à míngua, figura secundária no campo de interesse dos combatentes.”

José Garcez Ghirardi, 2014

Artigo original publicado originalmente em 23/03/2014 no Estadão.
Leia na íntegra aqui.

(Enviado pelo amigo Dr. Rubens.)