Quarenta
Faz um ano. Fim da madrugada. A campainha entra em cena, avassaladora, golpeando-me copiosamente os tímpanos. Já de pé, cueca a meio mastro, tento alcançar a porta antes de mais uma fatal badalada. Abro sem qualquer cerimônia. Seja quem for, há de sentir meu bafo matutino em ira por arruinar-me a plenitude do REM.
São eles: os quarenta. Amontoados desde o elevador até a porta do apartamento, encaram-me inquisidoramente. Em seguida, disparam adentro, como uma legião de lemingues esfomeados. “Vocês estão adiantados”, protesto. “Exatamente um ano adiantados”, emendaria ao fazer as contas, mas sou solenemente ignorado. Silenciosamente, um novo regime é proclamado. Ocupam cômodos, reivindicam móveis, objetos; usurpam meus espaços favoritos. Em instantes, torno-me um estranho em meu próprio lar. Os quarenta assumem o controle.
Sabia que esse dia chegaria. Só não esperava a desconcertante antecedência. Pondero que talvez não fizesse a menor diferença. Jamais esperaria tal desenrolar, mesmo que chegassem à data originalmente acertada. Tento encarar a situação com naturalidade. Resignadamente, decido conviver com os algozes da minha harmonia. Preparo um café para quarenta. Seria impossível voltar a dormir.
Desde o fatídico episódio, os quarenta nunca me deixam. Pior: na medida em que os dias, as semanas, os meses se sucedem, tornam-se cada vez mais vorazes, mais impertinentes, mais abusados. Sabotam-me em praticamente tudo. Amarram blocos de chumbo aos meus pés quando estou distraído. Trocam objetos de lugar, especialmente boletos de contas a pagar, apenas para me confundir. Às vezes, gritam ao pé do ouvido enquanto estou dormindo, só para estragar o dia seguinte. Arrancam-me fios de cabelo, por puro arbítrio. Poupam alguns, mas desconfio que venham tingindo-os de branco às escondidas. Percebo linhas se aprofundando em minha testa; mesmo sem provas, sei que se trata de mais um capricho dos quarenta. Quando olho o espelho, lá estão eles, rindo de sua obra macabra através do reflexo.
Tento parlamentar. Chego a suplicar uma trégua. Os quarenta seguem ignorando-me em seu sorriso sádico.
Hoje é o dia em que deveriam estar chegando, segundo o calendário oficial. O sol rompe o horizonte e relembro a aparição prematura dos quarenta, enquanto observo-os entretidos em maquinar minha tragédia.
A campainha toca, não tão histérica como há um ano. Ainda assim, a tensão é inevitável. Vou até a porta. Não há ninguém, apenas um envelope. Dentro, um lacônico cartão, sofisticadamente caligrafado: “Somos seus novos vizinhos. Aguarde visita em breve.”
Como que por instinto, meus olhos passam a percorrer nervosamente o mosaico de janelas do outro lado da rua. Em um átimo, são atraídos ao último andar de um edifício em construção. Uma sacada lotada. Todos a fitar meu desconforto. Monolíticos. Inertes.
São eles: os cinquenta. Malditos psicopatas à espreita.
