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Um homem de mãos pequenas.

De tantas coisas que existem pra se preocupar na vida, nunca imaginei que uma delas seria o tamanho das minhas mãos. Eu nunca fui o mais baixo nem o mais alto da turma, mas a medida em que fui crescendo, reparei que as minhas mãos não cresciam junto comigo. Um homem que calça 42 e usa luvas de criança? Que Deus é esse? Todas as mãos cresceram, menos as minhas. Nunca pude participar de quedas de braço, nem fazer uma pestana decente no violão.

Hoje adulto, com mãos pequenas, tudo que eu queria era ser um homem de verdade. Um homem útil, que compreende a mecânica de um carro, que troca resistência de chuveiro, que constrói coisas. Eu juro que tentei. Eu comprei todas as ferramentas.

O meu sábado de decepções começou com um aviso: “Se a embalagem estiver danificada ou aberta o montador não realizará a montagem.” A mensagem adesivada em uma caixa das Casas Bahia me assombrava mais que o diabo, ou a possibilidade de um dia desenvolver uma alergia a glúten. Dentro da caixa estava o armário que eu tanto precisava para organizar a minha vida. “Só falta isso”, pensava. Foi sem dúvida a pior compra que eu já havia feito na internet. A caixa chegou em 2 dias, o prazo para o montador eram 20 dias úteis. Úteis. Eu não tinha esse tempo. Eu não poderia esperar alguém crescer, estudar e se formar para montá-lo. Quão difícil pode ser montar um armário de duas portas? Até eu conseguiria.

Decidi quebrar o selo da caixa. O rompimento desse selo não acabaria apenas com a garantia da empresa, mas também com tudo que havia sobrado da minha alma. Peguei o estilete e, com um corte rápido e certeiro abri a caixa. Eram 87 peças. Eu nasci em 89. Claramente um sinal do destino pra desistir. Mas eu insisti. Espalhei todas as 87 peças no chão e fiquei olhando por meia hora sem saber por onde começar. Olhei pro estilete e quase usei ele de novo em mim, pra não ter que montar aquela droga.

Eu não tinha conseguido nem passar da parte mais fácil, que eram as gavetas. Nada fazia sentido. Eu decidi ir almoçar antes de retomar o trabalho. Fui direto pra uma padaria perto da minha casa, pedi pro chapeiro o meu preferido, o combo mineiro. Pão de queijo com queijo branco na chapa. Nenhum dos dois eram muito bons, mas se tratando de São Paulo, eu não poderia esperar muito.

Já estava pensando no segundo lanche quando entra uma garotinha na padaria sozinha. Ela vai direto pro freezer e pega uma Coca-cola de 600ml. Nunca entendi porque em alguns estados se vende a garrafa de 600ml e em Minas Gerais se vende a de 500ml. Será que é por que a Coca-cola odeia mineiros? Tenho certeza que sim.

A garotinha estava feliz com sua escolha. Assim que pegou a garrafa ela já tentou abrir. Ela tinha a coragem, mas não tinha a habilidade. Ela tentou mais uma vez, na terceira tentativa ela já estava vermelha. Era a minha chance de redenção:

-Ei garotinha! Eu abro pra você!

Não sei de onde eu tirei toda essa arrogância. Eu não acreditava que tinha feito algo mais idiota do que tentar montar o armário. Onde eu estava com a cabeça? A garotinha muito provavelmente tinha mãos maiores e mais fortes do que as minhas. Atraí atenção demais pra mim. Todos me olhavam. Eu estava sob pressão.

Enquanto eu transpirava ao perceber todos os olhares desviarem da TV para mim, eu senti uma vibração mista das pessoas, a maioria torcia a meu favor. Menos o chapeiro, aquele filho da puta. Ele já me conhecia, já havia me visto fracassar. O circo estava armado. Todos esperavam uma demonstração de força, como se eu fosse uma daquelas mães que levantam um carro sozinhas para salvar a vida do filho. Mas eu não tinha essa determinação e a garotinha não era a minha filha.

Coloquei a garrafa no balcão. Sequei as mãos no jeans. Eu sabia da dificuldade, mas no fundo eu tinha esperanças. Todos temos uma oportunidade para sermos grandes na vida, uma oportunidade para dar o passo largo que outras pessoas não dariam. Essa era a minha. Eu seria um herói. De dedos cônicos. Tudo que eu precisava era segurar a garrafa bem firme e, em um movimento rápido e preciso, o lacre se renderia e a garotinha teria sua dose diária de açúcar.

Comecei a contar. Um. Inspira. Dois. Mãos em posição. Três. Força.

Travei meus dentes, fixei meus pés no chão e senti toda a cena acontecendo em câmera lenta. Comecei a me lembrar de todos os discursos motivacionais que já tinha escutado na vida. De “Seja como a água” do Bruce Lee, até o do fantasma do Mufasa: “Você é mais do que pensa que é. Você tem que tomar o seu lugar no Ciclo da Vida.” Busquei dentro de mim toda a força que poderia, mas sabia que não iria dar certo. A tampa continuava no lugar e a minha mão já deslizava lentamente rumo ao fracasso. Mufasa, você mentiu pra mim. Odeio você e as minhas mãos ridículas. O que eu faço? Como eu consigo sair dessa? Tive uma idéia:

-Ei garotinha! Por que você não toma um suco? É bem mais saudável.

Ufa, a garotinha entendeu. Ficou decepcionada, mas entendeu. Era o fim da padaria pra mim. Esperei uns minutos, peguei uma Pepsi e fui pra casa.

Eu não estava bem comigo mesmo. Muito menos com as minhas mãos. Mas era a hora de aceitar os meus limites. Todo esse tempo que achei que eu precisava ser um homem de verdade, mas quem diria? Dá pra contratar um homem desses pra montar meu armário por 100 reais.

E enquanto esperava, tirei um cochilo.

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contos e piadas

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