O perigo das massas à brasileira: como lidar?

A roda viva que é a História gira constantemente, e tece a sua própria linha de acontecimentos, cuidadosamente, perante os nossos olhos sem que ao menos possamos notar — devido às rotinas doidas que somos levados a seguir — suas bruscas viradas de humor. Sim, a história também possui humor. Vide Karl Marx, em “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”, quando afirma que os mais notáveis fatos históricos ocorrem sempre duas vezes: na primeira como tragédia, na segunda como farsa.

Karl Marx conhecia como ninguém as peripécias da história.

A velha senhora História, inclusive, parece se divertir bastante com as peças que prega nos atores da sociedade. E os intelectuais que se propõem a interpretá-la ficam, frequentemente, bastante confusos com as direções para as quais esta entidade segue (ou para as quais ela é levada). Autores que descreveram minuciosamente fatos que acreditavam terem sido únicos, ou expuseram preconceitos que haviam dado por superados pela humanidade, veem ressurgir situações idênticas às do passado. Tudo isso numa era em que as ferramentas de potencial instrução foram amplamente estendidas e aprimoradas; de uma forma, a propósito, que estes autores jamais considerariam possível quando eram vivos.

Uma considerável parcela do povo brasileiro, há pouco tempo atrás declarada e orgulhosamente apolítica, sem gosto algum pelo exercício de seu papel de cidadão tanto no momento do voto quanto na tarefa de cobrar seus representantes congressistas, tem se lançado às ruas com demandas isentas de conteúdo programático, sem ter a mínima ideia do que quer, mas possuindo uma cega certeza daquilo que não quer. Além disso, tendências ditatoriais de utilização da força bruta para impor a própria opinião têm sido exteriorizadas sem pudor por boa parte das massas, aumentando assim a semelhança do nosso clima político-social com o de outros casos conhecidos (mas não muito).

Massas, aliás, é a palavra chave que nos aproxima de dois específicos eventos históricos considerados, no mínimo, infames. Hannah Arendt, em As Origens do Totalitarismo, explica o que é o fenômeno de massa numa sociedade sem classes através do movimento nazista alemão e do governo bolchevique sob as asas do tirano Joseph Stalin. Segundo a filósofa alemã, a atomização e a individualização dos cidadãos, causadas pelo sistema competitivo e consumista vigente, tendem a extinguir a estratificação social (classes), assim criando uma massa disforme e inconstante de pessoas isentas do sentimento de pertencimento a qualquer grupo social.

A filósofa alemã Hannah Arendt sofreu na pele as consequências do totalitarismo nazista.

Arendt nos mostra o tamanho da ingenuidade que imperava no pensamento europeu ao confiar que o sistema democrático-partidário era bem quisto por todos, apenas porque possuía partidos variados que buscavam abarcar todas as classes - fato que deveria significar (ainda uma suposição ingênua) que todos os indivíduos se sentiam mais ou menos representados por algum partido. Mas não. Bastou o surgimento de um movimento de massas, se utilizando das ações e palavras certas (trataremos delas mais adiante), para que esta crença caísse por terra. Apenas mais tarde é que houve a percepção de que a democracia partidária era apenas tolerada pela maior parte da população, e não desejada como se costumava achar. A verdade é que pouco faziam para participar dela. O povo apenas permitia que os partidos falassem em seu nome, porém não se sentiam verdadeiramente representados por eles. Os partidos eram aceitos como dirigentes do governo nacional somente enquanto não atrapalhassem o povo em sua busca desenfreada pela acumulação. Eram tolerados porque alguém precisava cuidar das coisas públicas enquanto os indivíduos tentavam sobreviver na intensa competição do mundo capitalista. Sendo assim, quanto menos ouvissem sobre política durante sua rotina desgastante, tanto melhor.

Entretanto, o conhecimento político escasso da população — segundo a autora, a separação da sociedade em classes, que atribuía às pessoas formas de ação tradicionais perante o governo, impediu-as de se sentirem pessoalmente responsáveis pelo governo do país — unido à falta de competência dos partidos na busca pela cooptação da juventude e em adaptar seus discursos às novas demandas, fez com que o sistema político-partidário se tornasse tão frágil que bastou um discurso inflamado com palavras de ordem baseadas em nada mais que puro senso comum para que Hitler e Stalin ganhassem a admiração e a fidelidade de milhões de pessoas simultaneamente. Os velhos partidos, por sua vez, ainda presos ao modelo antigo de fazer política, falavam às classes, apelando para as tensões entre elas num momento em que a consciência de classe era ínfima. Acreditavam que a grande massa neutra e apolítica era irrelevante, e que apenas precisavam se dirigir à vanguarda, aquela que se interessava por política. Eles, obviamente, estavam errados. A massa, amorfa e volúvel, resolveu participar da política.

Hitler era idolatrado pelas massas.

Somente após a extinção da democracia foi que notaram os limites da mesma. Era um erro pensar que todos os indivíduos eram representados por este sistema, uma vez que um cidadão não pode participar da vida pública senão através de algum grupo político específico, e que, na verdade, a maioria das pessoas escolhia não participar de grupo algum. Fechavam-se, pois, em sua individualidade, na esperança de alcançarem uma condição financeira e um status social mais satisfatórios. Adquiriram, até mesmo, desprezo e raiva pelo que dizia respeito à vida pública, que pouco se relacionava com seus reais objetivos. Este desprezo, com um pequeno empurrãozinho dos movimentos totalitários instaurados nos dois países que Hannah Arendt usa como exemplo, rapidamente se torna uma violenta oposição.

Não era segredo para ninguém que Hitler e Stalin não vociferavam nada mais do que frases imbuídas do mais puro senso comum. Diziam que a situação estava insuportável e que o país precisava de mudanças radicais imediatas. Atacavam a corrupção, a defasagem da saúde pública, a fraca educação fornecida pelo governo, etc., e assim atraíam milhões de seguidores de maneira incrivelmente fácil. A massa, é claro, não poderia notar que não havia nenhum programa de governo concreto em seus discursos. Eram vazios de qualquer conteúdo mais aprofundado, e este fato, inclusive, era um de seus trunfos, pois o aprofundamento na reflexão dos rumos do país era visto pela massa como “conversa fiada”, perda de tempo, ou “lenga-lenga”. A massa precisava de um “homem forte”, “gente como a gente”, alguém que não pertence àquela classe de políticos corruptos e cheios de palavras difíceis, dotados da arte da enrolação para enganar o povo. Alguém que, segundo Arendt, tivesse a “incômoda tarefa” de cuidar das coisas públicas enquanto os cidadãos corriam atrás do que era realmente importante para seu futuro: o capital. Os líderes das massas, portanto, não ofereciam um governo pautado numa ideologia. Muito pelo contrário, ao exemplo de Mussolini, defendiam que ideologias tratavam-se apenas de “pedaços de papel e promessas vãs”. Desprezavam-nas positivamente, e em seu ponto de vista, elas não passavam de tagarelice e charlatanismo.

Mussolini fazia o tipo de “homem forte” que as massas desejavam para tomar conta da nação.

Aí podemos nos perguntar: e onde é que estavam os intelectuais, a vanguarda ou a oposição a estes argumentos vazios para combaterem tal irracionalidade? Arendt responde: os líderes dos movimentos totalitários, no início, nem lhes davam atenção (mais tarde, no entanto, com a sua soberania já estabelecida, Stalin assassinaria mais de trinta por cento da população russa). Suas reivindicações, acusações e palavras de ordem inflamavam tanto as massas que não era preciso refutar ataque algum. Ignoravam sua oposição antes de se estabelecerem definitivamente, e, após o fazerem, ainda continuavam a não responder seus ataques (até porque não tinham capacidade intelectual para tal), mas já não mais os deixavam de lado. Passaram a exterminá-los com o endosso das massas.

Como as pessoas podiam apoiar ações como estas, é o que você pode, provavelmente, se perguntar, certo? A filósofa alemã afirma que a arbitrariedade exerce grande fascínio sobre as pessoas, pois permite que a sociedade se livre da “confusão” de ideias que ela mesmo produz ao longo do tempo. Além do mais, Arendt cita Theodor Fristch quando diz que, para a massa, “os atos de violência podem ser perversos, mas são sinais de esperteza”. Alguém duvida? Fato é que a moral parece ainda ser um conceito muito frágil na humanidade como um todo. Sempre que algum líder apoiado pela massa vê a necessidade de mudanças radicais, a moral é moldada para se adequar aos novos propósitos. Ou seja, em meio aos urros violentos dos movimentos de massa, aquele discurso de que todo ser humano deve ter suas liberdades respeitadas se torna totalmente estéril.

A fanatização num movimento de massas faz com que o status de membro do grupo seja mais importante que a própria vida.

Fica bem mais fácil unificar uma nação e simplificar as coisas quando se elimina as opiniões diversas. Uma discussão racional que demanda ouvir opiniões variadas, para a sociedade massificada, é total perda de tempo. Sendo assim, logo que surgiram, na Alemanha e na URSS, líderes carismáticos e competentes para compreenderem o “espírito das massas”, todas aquelas pessoas individualizadas, que não pertenciam a qualquer grupo político (que, inclusive, constituíam a imensa maioria da população destes países), foram imediatamente arrebatadas e fanatizadas pelos movimentos totalitários criados. Em seguida, a atração irresistível característica dos movimentos de massa tratou de abranger intelectuais, membros de outros partidos, e até mesmo ex-opositores.

Hannah Arendt explica que os membros da massa fanatizada perdem sua individualidade e passam a se reconhecer apenas como integrantes do grupo, e só é possível expressar ideias através dele. A partir daí, não importa a quem doer, nenhum indivíduo ousará trair o movimento. Mesmo que este prenda e mate seus irmãos e amigos, e mesmo que condene a si mesmo, o indivíduo pertencente à massa irá manter seu apoio ao grupo. E, simplesmente, não há argumento elucidativo o suficiente para atingir os membros do movimento. “A voz do movimento se sobressai à moral comum e ao senso comum do que é certo ou errado”, diz a autora. Justamente por isso, vê-se a violência do movimento não como um “mal necessário”, mas como uma defesa da justiça. O domínio pela força bruta torna-se aceitável e desejável, pois aqueles que diferem estão errados, e quem está errado merece sofrer. Alguma semelhança com o discurso proferido por alguns em terras brasileiras?

Atitudes dos ativistas anti-Dilma mais radicais incluem ofensas misóginas contra a presidenta.

O surgimento de movimentos pedindo a saída de Dilma Rousseff da presidência da república, e também a expulsão do PT do congresso como um todo, apesar de, no princípio, não serem institucionais e não possuírem uma liderança clara e definida, parecem ter arrebatado as massas de maneira bastante eficiente, pois contaminaram rapidamente boa parte da população com seu discurso moralista e autoritário contra a corrupção de apenas um partido. Em seu início, por ainda não ser um movimento de massas, não possuía o mesmo ímpeto que possui atualmente. Os partidos de oposição e as classes insatisfeitas com o governo de conciliação exercido pelo PT entre 2002 e 2010 começaram tímidos nas reivindicações para a saída arbitrária de Dilma do Palácio do Planalto. No entanto, equivocadas ações políticas em série tomadas pela Chefa de Estado, a campanha polarizada de 2014, e uma brusca alteração do discurso realizado em campanha para a prática — isso desde o primeiro dia do novo governo –, municiaram as elites com argumentos irresistíveis para que conquistassem os setores indecisos da classe média e, principalmente, a “ralé” em sua repulsa pela presidenta, além de espantarem também o apoio da ala social democrata da sociedade (esquerda).

Logo que passou a abranger as massas, o movimento “verde e amarelo” ganhou as ruas. Um grupo que, em sua maioria, jamais havia se interessado por política, se movimentava por um interesse em comum: a saída de uma parlamentar em específico. As razões para tal haviam partido das classes mais altas, mas os movimentos de massa exercem forte atração sobre os desavisados e despreparados. Esta “militância”, por mais que não possua qualquer ideologia, passa a ser vista como um sinal de engajamento político e de inteligência. Aqueles que não veem o que eles veem são tidos como estúpidos e desonestos. O resultado deste engajamento é uma massa desestruturada de indivíduos furiosos que nada tem em comum a não ser a certeza de que daquele jeito “não dá mais”. A partir da massificação surge, então, a fanatização dos membros. A sensação de pertencimento a um grupo tão numeroso torna as pessoas invulneráveis a qualquer argumento opositor. Como dito acima, não há necessidade nem capacidade para responder às problematizações feitas por pensadores de qualquer vertente. Portanto, para proteger a imagem do movimento, prefere-se não ouvir, não pensar, e devolver com ofensas todas as críticas que se lhe dirigem.

Podemos notar com clareza o quanto a fanatização blindou o movimento “Fora Dilma, Fora PT” até então. Todos os argumentos que possuam alguma base histórica ou científica, mas que, em algum ponto, se opõem à voz das massas, logo são taxados de serem tendenciosos, um ataque contra o movimento, ou de comunismo — devido ao sucesso da parceria dos governos brasileiro e estadunidense para associar o comunismo ao mal, antes e durante a ditadura militar. Os políticos que oferecem soluções racionais são vistos como nocivos à sociedade, e seus argumentos, para a massa, não passam de “encheção de linguiça”. Como diz Arendt, não importa o que se faça para enfraquecer o movimento, tudo o que seus membros desejam é demonstrar sua violenta oposição. E, para agravar o problema, a pequena oposição mais politizada se utiliza sempre do estéril ataque crítico para tentar enfraquecer o movimento de massas, se desapontando continuamente com a irracionalidade de seus membros. Não sabem ou ignoram que estes já se encontram imunes à racionalidade ou à moral comum. A massa pode facilmente subvertê-las a seu bel prazer.

O comportamento de massas, apresentado pela sociedade brasileira neste momento de crise política, representa um perigo invisível, pois está disfarçado de politização. O perigo desta camuflagem, na realidade, é o fato de que este é momento ideal para o surgimento de um líder carismático, bruto e intolerante, que dê vazão à despolitização das massas com argumentos genéricos, com atitudes que pareçam eficientes, eliminando a existência das oposições com o pretexto de “fazer o país ir para frente”. Hanna Arendt utiliza Hitler e Mussolini como exemplos quando cita este tipo de líder totalitário. Em seu discurso, defendem que programas e sistemas são inúteis e mentirosos, dizem que desprezam a tagarelice das conversas democráticas e que mais vale exercer a força sobre os que discordam do que tentar convencer através do diálogo.

O sucesso de Jair Bolsonaro, portanto, entre as mais variadas camadas da população não é nenhum acaso. Diz ele, sem vergonha alguma, que executaria ações arbitrárias, aprovaria leis anti-homossexuais, estimularia a tortura de militantes da esquerda e que oprimiria a mulher, devolvendo-a ao lugar de onde ela supostamente nunca deveria ter saído: em frente ao fogão. Todo o seu discurso se pauta na arbitrariedade, na força bruta e no ódio às minorias que ameaçam a supremacia do homem branco. Fosse ele um tanto menos radical em seu discurso de ódio — pois opiniões radicais denunciam a existência de uma ideologia por trás do discurso — e poderia tornar-se este líder carismático que a população procura neste momento. Afinal, falas que expressam ideologias, seja sutilmente ou de maneira escancarada, não costumam abranger as massas como um todo. Portanto, ao invés de dizer apenas generalidades, como “o país voltará a crescer”, “a corrupção terá fim”, “o homem de bem triunfará”, etc., ele vai além e agride verbalmente aqueles de quem não gosta antes do momento “certo”. Com um pouco mais de inteligência e estratégia, reproduziria discursos vazios de ideologia, mas de grande contundência, e, somente após angariar o apoio incondicional das massas, começaria a eleger os inimigos comuns da sociedade.

Os super-heróis que podem salvar o Brasil… só que não.

Os setores mais politizados da sociedade se escandalizam com o apoio recebido por um parlamentar que demonstra sua raiva pelas vozes que exigem mudanças — por mais que estas sejam para melhor — e que ataca abertamente outros parlamentares que buscam fazer política através da velha argumentação e do respeito às liberdades democráticas. Mas ainda não compreenderam que o desejo do bem estar generalizado, a manutenção da democracia e a busca pela igualdade ainda não fazem parte do senso comum. Os mais esclarecidos ainda continuam a crer que a nossa sociedade já aderiu ao respeito pelos direitos humanos, e que aqueles que se expressam contrariamente a eles são apenas alguns gatos pingados destoantes do todo. Contudo, a verdade é que o discurso de respeito por todas as etnias, raças e gêneros não passa de belas palavras para as massas, admiradas por nos fazerem parecer civilizados, mas bruscamente rejeitadas quando ameaçam alterar um pouco a ordem das coisas estabelecidas, diminuindo assim, um tanto que seja, os privilégios dos grupos dominantes.

As massas querem sim mudanças rápidas e eficientes, desde que a ordem “natural” da sociedade não se altere. Ora, o progresso veloz não é possível sem que se elimine um ou outro opositor no meio do caminho. Sem blá, blá, blá. Não concordou, “chora, somos maioria”. Tal ainda é o espírito das massas. E tudo isso está materializado nas agressões que vêm sofrendo aqueles que acreditam que o impeachment de Dilma não é o melhor caminho para o país voltar a crescer, ou aqueles que dizem possuir uma posição política socialista, ou, simplesmente, aqueles que se vestem com roupas vermelhas. A certeza que as massas têm de sua superioridade numérica e, consequentemente, de a razão estar do seu lado (o número representa a razão), os deixa furiosos com o fato de haverem indivíduos que discordam de sua causa tão justa e correta. Logo, para ir da fúria ideológica à violência física, bastam as condições propícias.

Com o palco armado para a encenação da tragédia, faz-se natural perguntarmo-nos: como lidar?

Caso aceitemos que, de fato, os direitos humanos, a busca pela igualdade de gênero, etnia, raça e classe social, a liberdade democrática, a não-violência, entre outros valores éticos, ainda não são, ao menos na prática, tidos como desejáveis para a maioria da população brasileira, vamos entender o quão inútil e prejudicial é a luta contra aqueles que não compartilham destes valores. Esta será uma batalha perdida se assumirmos uma posição de resistência contra opressores maus. As pessoas tendem sempre a fechar-se para as ideias que terceiros tentam lhe impor à força, não importando o quanto estas ideias estejam amparadas pela justiça. Sendo assim, a batalha que se utiliza de palavras de ordem na intenção de persuadir, pratica um desserviço ao progresso que se quer promover. Por outro lado, quando explanamos nosso ponto de vista através de um conhecimento construído sobre um estudo sério e de uma linguagem dotada de respeito, a probabilidade de esclarecermos é muito maior.

O que temos de ter em mente é:

1- A ignorância, como o próprio nome já diz, é fruto da ausência do conhecimento. Portanto, por mais absurdos que pareçam os discursos de ódio, lembremo-nos de que estes são reproduzidos por seres sociais (misto de valores e princípios) formados por uma sociedade predominantemente conservadora e pautada na lógica da competição, tendo o sucesso financeiro como o seu objetivo principal, e onde a aquisição do conhecimento relativo às ciências humanas é vista como perda de tempo. Útil é apenas o conhecimento que permite aos indivíduos enriquecer.

2- Se concordarmos que o genocídio não é uma saída eticamente aceitável, concluiremos não ser possível eliminar as pessoas intolerantes. Logo, se não há como extinguir a existência das pessoas ignorantes, faz-se imprescindível saber conviver com elas. Saber ouvir e respeitar indivíduos que, no momento, não têm ciência exata do quanto suas ideias isentas de conteúdo ainda prejudicam a sociedade. E, sobretudo, lembrar que determinado discurso não representa a pessoa como um todo. Os seres humanos são muito mais que sua opinião política, social, musical, etc. Existe uma ramificação infinita de particularidades que formam a personalidade de alguém, e que não podemos ignorar simplesmente porque um ponto nos desagradou.

3- Para educar, é preciso ser brando. Ninguém gosta de ouvir uma pessoa que impõe suas ideias, ou que grite: “Não passará!”. Principalmente os que estão aprisionados em suas certezas adquiridas nos tradicionais valores familiares e religiosos. Eles, normalmente, têm absoluta certeza de que estão corretos, e ouvir palavras de ordem antes do esclarecimento respeitoso apenas irá afastá-los mais ainda das ideias que estamos tentando espalhar. Isso quando não os faz criar repulsa por estas ideias, justamente por conta da linguagem e entonação utilizadas equivocadamente pelos defensores dos direitos.

Depois de assimilarmos a necessidade da boa convivência, aí sim poderemos pensar na melhor maneira de auxiliar as pessoas a mudarem (isso mesmo, apenas auxiliar. Ninguém é capaz de mudar o outro enquanto este não deseja a própria mudança. Tudo o que podemos fazer é fornecer as ferramentas necessárias para a devida reflexão). Como? A imposição, já há muito tempo, tem se mostrado uma saída falha e defeituosa para esta questão. É justamente esta forma de didática (se é que podemos chamá-la assim) que torna os intolerantes ainda mais extremos em sua postura. A agressividade passa a ser uma defesa contra as investidas ostensivas e diminui-se a chance de elucidar e abrir caminho para a igualdade. E enquanto as pessoas não forem reeducadas através da troca de ideias concretas e firmemente baseadas em conhecimento construído pelo método e por uma abordagem humana e respeitosa, elas continuarão reproduzindo a mesma intolerância, dificultando o avanço das medidas progressistas.

Desta maneira, tendo em vista a massificação da sociedade através do movimento verde e amarelo, podemos concluir que nos encontramos em um período bastante perigoso de nossa história. Basta a ascensão de alguns elementos quase insignificantes para que o totalitarismo se instale por aqui, afinal, as condições mais raras e propícias para o encadeamento de tal regime, infelizmente, já estão estabelecidas. Temos, então, duas saídas para combatermos esta ameaça: 1- pela guerra civil, pela violência ou pela imposição, 2-pelo diálogo, pela paz e pela reeducação. Cabe a cada um escolher o seu “bom combate”. A cada um a batalha que mais se adequa aos seus princípios.