Sem futuro para mim, sem futuro para você.

Sua forma atrapalhada de caminhar traduzia seu estado mental naquele fim de tarde. Seu corpo estava todo curvado para frente, de maneira que a mochila em suas costas mais se assemelhava a uma alta corcunda. Também seu rosto estava voltado para o chão, e era certo que seus olhos não cuidavam de ver para onde ia. Mas isso não parecia ser um problema, afinal Felipe já conhecia o caminho de casa como a palma de sua mão. Sua visão periférica lhe auxiliava apenas para que detectasse a iminência de trombar com algum desatento que viesse no sentido contrário.

Faltavam poucos minutos para o pôr do Sol, mas não se via no céu as cores quentes dele características. Provavelmente devido às inúmeras construções que cercavam a metrópole paulistana e bloqueavam o alcance da visão ao horizonte. O que se via no céu era um composto insípido de matizes monótonos, protagonizado por um fraco azul acinzentado. E tanto o céu quanto o clima morno, que não se decidia pelo frio ou pelo calor, retratavam fielmente o que se passava no espírito de Felipe.

Sentia enfado. Podia até mesmo inspirar o marasmo que era expelido por tudo e todos que o rodeavam. Não conseguia se lembrar se sentira o mesmo aborrecimento na tarde anterior, mas fato é que aquele período do dia era perfeito para descrever a sensação que o dominava. Não se podia dizer que era dia ou noite, pois a luz do Sol se extinguira, e mesmo assim a escuridão ainda não se estabelecera. Não havia vento, e, quem não soubesse que o mês era agosto, não saberia determinar qual a estação vigente.

Felipe acabara de desembarcar do transporte coletivo. Seu expediente na central de atendimento telefônico, para seu grande alívio, terminara havia duas horas. Poucas coisas, aliás, lhe satisfaziam tanto quanto ver no relógio o horário em que poderia abandonar seu exaustivo posto de operador de telemarketing, e uma delas era frequentar a lan house do bairro após o almoço. Isso porque o estabelecimento funcionava como o ponto de encontro de Felipe com três de seus colegas mais “chegados”, como eles mesmos denominavam uns aos outros. Ali passava praticamente o dia todo, gastando o que restasse do seu salário mínimo em jogos e doces.

Sua residência localizava-se a apenas alguns metros da parada de ônibus, entretanto, neste dia, Felipe caminhava na direção contrária. Nos últimos meses – desde que completara dezoito – a pressão que recebia dos pais para que ajudasse a pagar as contas da casa aumentara significativamente. E tudo se deu do dia para a noite. Não houve prévio aviso ou suavidade no processo. Após levar toda uma vida isenta de preocupações e responsabilidades, Felipe foi incumbido de encontrar logo um bom emprego para arcar com parte das dívidas da casa. Rapidamente, o que era pressão transformara-se em cobrança, esta logo tornara-se intimação, e, enfim, tomou a forma de uma verdadeira batalha, recheada de berros estridentes.

Ele ainda não almoçara, porém preferia permanecer faminto à ter que retornar ao lar antes do anoitecer. Dessa forma, rumou direto para a lan house no intuito de encontrar seus companheiros. Todos eles exerciam algum ofício, e nenhum deles recebia um salário superior ao mínimo imposto por lei. Um de seus colegas, justamente o que já estava na lan house quando Felipe chegou, também trabalhava no ramo do telemarketing, e os outros dois eram empregados por pequenos estabelecimentos no próprio bairro. Estes últimos, por trabalharem em período integral, chegavam ao ponto de encontro somente após as dezenove.

Assim que os quatro se reuniam, partiam ao encontro do quinto elemento de seu grupo: Amanda. Os cinco estudaram juntos no ensino médio, e, desde que se formaram no ano anterior, viam-se todos os dias. No entanto, desde que ingressara na universidade, no início daquele ano, Amanda fora proibida por seus pais de sair à rua, sendo obrigada a permanecer em sua casa estudando pelo restante do dia depois das aulas. Sua família era, inclusive, uma das únicas do bairro que tinham plenas condições financeiras de pagar uma boa faculdade. Amanda, ademais, estudava no curso de medicina, que era um dos mais custosos no estado de São Paulo. Talvez fosse por isso que os progenitores determinaram que ela empregasse todo o seu tempo estudando, ao invés de dar atenção a seus amigos “preguiçosos”, como os próprios costumavam chamá-los.

Contudo, a proibição não impedira que o grupo se reunisse diariamente. Com bastante insistência, Amanda recebera permissão para que, todos os dias às dezenove e trinta, pudesse sentar-se com os amigos em frente ao portão de sua casa durante uma hora, não mais longe e nem por mais tempo do que isso. Todavia, a conquista deste direito já havia sido uma grande alegria para todos, principalmente para Felipe. Ele, que guardava por Amanda uma típica paixão adolescente originada já havia mais de dois anos, considerava aqueles sessenta minutos como a representação maior de sua felicidade. Não sabia se ela correspondia aos seus sentimentos, mas acreditava que sua reação efusiva quando o encontrava não podia ser de todo normal.

Naquela quarta-feira, tanto Felipe quanto os outros três rapazes estavam bem mais desanimados que o usual. Durante toda a adolescência eles ansiaram pelo fim do período escolar, e agora que dele estavam livres compreendiam que as novas responsabilidades e cobranças, em contraste com a característica falta de suporte e de oportunidades para os descapitalizados no país, superavam em muito a pressão de se tirar uma boa nota no colégio. Sentiam-se, embora não refletissem sobre isso, como pequenas codornas derrubadas do ninho e expostas às mais variadas espécies de predadores. A sociedade proporcionara-lhes o estudo e largou-os no mundo, dando por terminada a sua participação em sua orientação após a cerimônia de formatura. Agora, a mesma sociedade exigia que eles corressem atrás do dinheiro, ou então ficariam para trás.

E não é que os rapazes não desejassem fazer tudo aquilo que deles se esperava. Pelo contrário, tinham muita vontade de cursar uma faculdade, arranjar um bom emprego e construir uma carreira admirável. Entretanto, jamais tiveram acesso a quaisquer cursos preparatórios e tampouco foram estimulados a pensar sobre o futuro ao longo de suas curtas vidas. Nascidos num bairro pobre da zona leste da capital, suas obrigações até então consistiam apenas em estudar – e dado o sistema educacional vigente, entende-se “estudar” por frequentar a escola – enquanto seus pais enfrentavam uma jornada de, em média, dez horas diárias.

Desse modo, ao serem soltos no mundo real, entenderam que existem apenas três caminhos: formar-se na universidade primeiro e só depois arrumar um emprego; estudar e trabalhar ao mesmo tempo para custear a faculdade – sendo essas opções acessíveis somente para aqueles que dispõem de tempo, dinheiro e condições favoráveis -; ou, para quem precisa assumir as despesas de uma família, aceitar o emprego que vier e garantir assim a subsistência da mesma. Essa via de mão única lhes fazia sentir demasiado impotentes.

Foi com esse estado de espírito que Amanda os encontrou em frente ao portão de sua residência. Estavam sérios e não falavam. Olhavam para frente, embora não focassem o olhar em lugar algum.

  • Quem foi que morreu, garotos? – disse ela com voz enérgica. Seu timbre já evidenciava que seus pensamentos e sentimentos, ao menos naquele momento, em nada se assemelhavam com aqueles que incomodavam seus amigos.
  • Somente a maneira escandalosa com que proferia as palavras foi suficiente para alterar o humor de Felipe.
  • - Estou me sentindo entediado hoje – respondeu ele.
  • - Pois eu não tenho tempo pra me sentir entediada – disse ela com ar de orgulhosa.
  • - Pra você é fácil falar, afinal você tá na faculdade.
  • - Calma, Fê – ele adorava quando ela o chamava assim – daqui a pouco tempo vocês todos vão estar estudando também.
  • Ele sorriu largamente. Em seguida começaram a conversar sobre situações banais da vida cotidiana, e não demorou muito para que começassem a gargalhar em coro, tal como costumavam fazer todas as noites. Passados trinta minutos, algo inesperado aconteceu que interrompera a conversação do grupo: o pai de Amanda surgira na entrada do portão e lhes convidara a entrar. Não era segredo para ninguém que os pais da menina não apreciavam a amizade da filha com aqueles rapazes mais pobres, e por isso os garotos já estavam acostumados a serem por eles ignorados, quando não escorraçados ao fim da única hora que podiam ter com Amanda.
  • Os meninos entreolharam-se com desconfiança e, ao fitarem a feição preocupada de Amanda, sua tensão só aumentou. No entanto, por força das circunstâncias, decidiram aceitar o convite. Adentraram a casa seguindo o anfitrião, e Felipe imediatamente percebeu a enorme diferença entre a qualidade de vida daquela família e da sua própria, mesmo que residissem no mesmo bairro, a pouquíssimos metros de distância. Depois de seguir por um longo corredor chegaram ao que parecia ser a sala de jantar, e tiveram uma enorme surpresa ao verem que a mesa estava feita e o jantar servido. Em volta da grande mesa havia sete cadeiras, e a mãe de Amanda se encontrava sentada em uma delas.
  • - Sentem-se rapazes. Comam conosco – convidou o pai da menina.
  • Sem dizer palavra, todos se acomodaram, mas não se atreveram a servir-se ainda.
  • - Não façam cerimônia – falou o anfitrião – comam como se estivesse em suas próprias casas. Aposto que vocês comem como ursos após o fim da hibernação.
  • O pai de Amanda disse isso e esboçou um sorrisinho. A garota olhou-o feio e o riso se desfez. Os garotos não entenderam e começaram a servir-se. O dono da casa voltou a falar.
  • - Sabem que a Amanda está indo muito bem no curso de medicina?
  • - Ela chegou a dizer – respondeu Felipe, desconcertado.
  • - Pois é, e vocês, quando começarão a fazer um curso superior?
  • - Não temos dinheiro ainda – respondeu um dos outros colegas – depois que eu juntar dinheiro suficiente, vou estudar jornalismo.
  • - E eu vou fazer o curso de desenho – disse outro.
  • - Fotografia para mim! – disse o terceiro, animado. Felipe era o único que não tinha ideia do que fazer no futuro.
  • - Mas nenhum destes cursos proporciona um bom salário. Se continuarem com esses objetivos serão pobres pelo resto da vida – ironizou o chefe de família, que havia se formado em advocacia.
  • - Pai! – protestou Amanda.
  • - O que foi, filha? Só estou dando a eles uns bons conselhos, já que seus pais parecem não dar a mínima. Deixam-nos largados, vagando pela rua o dia inteiro como desocupados.
  • - Nossos pais se preocupam conosco – falou Felipe – nós é que ficamos na rua por vontade própria.
  • - Ah, então eu me enganei. Peço desculpas. O problema não são seus pais, mas sim vocês mesmos, rebeldes sem causa que, ao invés de estudarem, trabalham em subempregos para arcar com a conta da lan house. Pois saibam vocês que vagabundos não crescem na vida, como eu cresci – os meninos pararam de comer e começavam a se levantar. Perceberam que deviam partir.
  • - Pai, para com isso, por favor – voltou a reclamar Amanda. Mas de nada adiantou, o progenitor voltou a vomitar provocações.
  • - Vejam minha casa, meu carro, e tudo que eu conquistei. Acham que caiu do céu? Não, eu trabalhei pra comprar. Se seus pais não têm condição de ter as mesmas coisas, significa que não se esforçaram o suficiente. E se vocês permanecerem perambulando como imbecis pra cima e pra baixo, cortejando as menininhas mais ricas para se aproveitarem de seu dinheiro, vocês também jamais chegarão onde eu cheguei.
  • Quando ele terminou, Felipe e os outros já estavam no corredor. Amanda tentou acompanhá-los, mas Felipe pediu para que ficasse. Saíram apressados e humilhados, desceram a rua sem nada dizerem uns aos outros, e cada um encaminhou-se à sua própria casa.
  • .​.​.​.​.​.​.​.​.​.​.

Eram tempos de agitação política no Brasil. As eleições presidenciais se aproximavam, e a incomum tensão que predominava nas relações sociais por todo o país parecia forçar todos a escolherem seu candidato e defendê-lo com grande ímpeto. Não era pequeno, inclusive, o número de casos de agressão física organizados por militantes da extrema direita, direcionados aos seguidores do adversário. Uma atmosfera de rivalidade despertava nas pessoas uma necessidade de impor sua opinião sobre a do outro, nem que fosse na base do soco ou de ofensas preconceituosas. Desde a redemocratização, jamais havia se visto um Brasil tão dividido como naquele momento.

Naquele bairro da periferia de São Paulo não era diferente. Havia ali pouquíssimas famílias com renda maior que três salários mínimos – uma delas, a propósito, era a família de Amanda. No entanto, grande parte dos moradores do bairro apostava na eleição do candidato de propostas elitistas, medidas que desencadeariam no desemprego dos trabalhadores com cargos mais baixos, em prol da fortificação da economia. Muitos que até então haviam sido auxiliados por programas sociais do governo, agora, numa sacada de evidente egoísmo, incoerentemente desejavam o fim destes.

Felipe e seus amigos viram-se envolvidos no meio de toda a confusão a partir do dia em que foram convidados por um colega de trabalho do próprio Felipe a participarem de uma manifestação do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto. Frequentemente tinham vontade de reclamar, demonstrar sua insatisfação perante a impossibilidade de obterem seu lugar ao sol, mas jamais tiveram voz para tal. Os jovens que se mobilizavam em favor de direitos eram, normalmente, hostilizados e estigmatizados como vagabundos ociosos. Porém, com a popularização dos protestos, eles enxergaram pela primeira vez a oportunidade de adquirir voz na sociedade. E eles queriam gritar. Mais do que tudo desejavam quebrar o silêncio sobre a realidade caótica na qual é jogado o jovem na transição da adolescência para a vida adulta.

No início daquele ano, os quatro garotos foram a alguns protestos organizados contra a copa do mundo no Brasil. Com o decorrer do tempo, entretanto, deixaram de juntar-se aos que dela reclamavam, muito em parte por terem sido contagiados pela animação que o evento proporcionara. Agora, passada a excitação convulsiva pelo futebol, já em meados de outubro, recuperavam a vontade de sair às ruas e externar sua revolta contra o formato corporativista predominante. Decidiram que iriam ao protesto no sábado seguinte.

Na noite que se seguiu ao desagradável jantar, os rapazes não visitaram Amanda. Achavam que deveriam dar um dia de intervalo para deixarem seu orgulho ferido se recompor. Na sexta-feira, já menos rancorosos, apareceram em frente ao portão da menina no mesmo horário de sempre. Não precisaram tocar a campainha. Ela já estava de prontidão na janela, esperando-os.

- Pensei que não voltariam mais – ela disse ao cumprimentá-los.

- Só estávamos dando um tempo – falou Felipe.

- Sim. Não íamos abandonar uma de nós por causa de besteiras – disse o outro amigo.

Ela sorriu. Com a boca e com os olhos.

- Fico feliz – concluiu ela.

Passou-se um minuto inteiro no qual mantiveram um estranho silêncio. Era como se todos revivessem a noite de quarta-feira na qual os quatro rapazes haviam sido humilhados pelo pai de Amanda. A menina procurava algo que dizer para remediar a atitude do progenitor, e eles torciam para que ela não tocasse no assunto, simplesmente o deixasse no passado. No intuito de impedir uma situação ainda mais constrangedora, Felipe falou da manifestação.

- Vamos num outro protesto.

- De novo esse negócio de protesto? Pensei que já tinham parado com isso.

- Os protestos só podem parar quando as coisas melhorarem, não concorda?

- É verdade. Quando vocês vão?

- Este sábado, ou melhor, amanhã. Quer ir?

- Eu quero, mas meu pai não vai deixar.

Todos assentiram, com plena ciência de que ela tinha razão. Os meninos começaram então a falar dos problemas de moradia em São Paulo, cujas informações eles leram no site oficial do MTST. Amanda demonstrou-se bastante interessada, e sua vontade de ir com seus amigos aumentara significativamente. Logo terminou o tempo durante o qual a garota podia ficar com eles e, com abraços apertados, ela se despediu do grupo. Após abraçar Felipe, Amanda ainda segurara sua mão enquanto se afastava, olhando-o fixamente. As mãos de ambos os jovens, a despeito das regras, não desejavam soltar-se. Mantiveram contato até que as pontas dos dedos já não mais se alcançassem.

Já era meia noite quando Felipe deitou na cama para dormir. Virou para os lados diversas vezes antes que o sono viesse, lembrando-se do olhar contundente que Amanda lançara-lhe pouco antes. Ainda estava no limbo entre o mundo dos sonhos e o plano desperto quando sua mãe entrou no quarto.

- É a Amanda no telefone. Por que essa menina está ligando aqui tão tarde?

- Não sei.

- Então vai logo ver!

Num pulo, Felipe calçou os chinelos e correu para a sala.

- Alô.

- Oi, Fê – ela sussurrava – Desculpa ligar a essa hora. Espero que sua mãe não tenha ficado muito nervosa.

- Ela não se importa. Aconteceu alguma coisa?

- Tenho uma boa notícia. Consegui convencer meu pai de que amanhã vou me reunir com alguns colegas de classe para elaborar um trabalho. Isso significa que poderei ir ao protesto amanhã com vocês.

- Isso é fantástico!

- Eu sei – disse ela após uma pequena gargalhada – Já combinei com minhas amigas para confirmarem minha história, caso meu pai entre em contato com alguma delas.

- Ótimo. Será muito bom ter você conosco.

- Pra mim também será muito bom estar com você.

Amanda não podia ver, mas Felipe corou bastante. Decidiram a hora e o local de encontro e em seguida desligaram. A adrenalina que se espalhara pelo corpo Felipe ao ouvir aquela frase – que mais se assemelhava a um flerte – não o deixou adormecer tão cedo, mas, quando finalmente caíra no sono, um sorriso de menino ingênuo brotara em seus lábios. Um daqueles sorrisos que nos fazem apreciar a beleza das relações humanas e ter esperança num futuro justo da humanidade. Um daqueles sorrisos que só a realidade da vida num sistema capitalista arbitrário era capaz de apagar.

.​.​.​.​.​.​.​.​.​.​.

Na tarde seguinte, lá estavam os cinco ex-colegas de classe caminhando pela Avenida Paulista. Amanda estava maravilhada com a sincronia de propósitos dos manifestantes. Parecia-lhe que todos pensavam igual e reivindicavam as mesmas causas. Caminhavam entre o grupo vestido de vermelho, organizado pelo MTST, mas Felipe notou que havia ali outros grupos marchando separadamente. Alguns estavam trajados predominantemente de azul, outros não possuíam uma cor em específico, entretanto, nenhum deles aparentava ser muito amistoso.

O grupo de azul era formado de militantes do partido da direita conservadora, que concorria à presidência naquele ano com a centro-esquerda, que ainda era a situação. Bradavam ferozmente seu desejo por derrubar um governo que ajudava os pobres, para substituí-lo por um que focasse exclusivamente no desenvolvimento das empresas privadas. Destilavam seu veneno contra os pobres de todo o país, acusando-os de atrasar a evolução da economia, votando nos candidatos populares que se preocupavam com a miséria.

O outro grupo era composto de pessoas que não queriam nem um nem outro, mas que ansiavam pela intervenção militar no governo. Diziam-se cansados de assistirem o governo auxiliando os pobres e queriam um regime autoritário imediatamente. A tensão existente era percebida por todos os presentes. Os azuis frequentemente lançavam gritos preconceituosos contra os vermelhos, e os apoiadores dos militares, identificando-se com as ideias daqueles, resolveram juntar-se a eles em coro.

Não obstante, os garotos ainda admiravam a união daquela passeata vermelha que protestava por direitos para o povo. A única integrante feminina daquele grupo de amigos jamais havia visto tal mobilização. Não tinha a menor noção do déficit de moradia que havia no país, pois por toda a vida fora criada num casulo de contos de fadas, livre das adversidades. Morava num bairro pobre, mas o desenvolvimento do capitalismo já permitia que surgissem novos ricos mesmo nas regiões periféricas da cidade. O contraste era cada vez mais claro, e o abismo da desigualdade já não era mais demarcado por quilômetros de distância. No mesmo quarteirão se via uma pomposa residência em meio a outras tantas demasiado pobres.

Ainda assim, Amanda sempre se preocupou com os problemas alheios. Ao contrário de seus pais, gostava de estar com as pessoas mais simples e humildes, e sua vontade de agir em prol daqueles que não tinham o necessário sempre fora muito forte. Talvez este tenha sido um dos motivos que despertaram em Felipe uma afeição tão fiel. Afinal, algumas garotas do bairro regularmente revelavam o desejo de se relacionarem com ele, mas Felipe recusava-as sistematicamente. Mantinha uma pureza ingênua de que no futuro, Amanda e ele, juntos, venceriam as proibições e obstáculos existentes, que passariam por cima da diferença de classes sociais e enfim tomaria a mão de Amanda num desfecho cinematográfico.

- Quanta gente, Fê!

- Sim, ouvi dizer que já estamos em três mil aqui.

- Uau. Isso é muita gente.

Coros entoados pela multidão abafavam suas vozes, e, portanto, algumas vezes precisavam falar muito próximo ao ouvido do outro. Tal aproximação fez com que Amanda se sentisse ainda mais a vontade com Felipe, e passados alguns minutos, como quem não quisesse nada, ela segurou em sua mão com o pretexto de chamar sua atenção para algo interessante. Não soltou mais. Felipe encontrava-se numa espécie de transe hipnótico. Sentia a aproximação de Amanda com entusiasmo, mas não demonstrou alteração em suas emoções em momento algum. Agia mecanicamente, calculando friamente todas as ações para não denunciar que seu coração batia com o dobro da velocidade normal e seu sangue corria fervendo pelas veias.

- Até que horas vai a manifestação? – perguntou ela.

- Está programado para terminar por volta das vinte horas.

- Tenho de estar em casa às dezenove. Podemos sair daqui às dezessete?

- Mas estamos somente a quarenta minutos lá do bairro. Não precisamos sair duas horas antes. – respondeu ele, com sua característica inocência.

- Eu sei, só pensei que você poderia me levar a algum lugar antes de irmos pra casa.

- Ah… – e sua hesitação quase delatou seu nervosismo – Claro, claro. Conheço um ótimo lugar.

- Que bom. – disse ela com um sorrisinho que deixava evidente que, na verdade, já havia notado a crescente ansiedade de Felipe.

O que veio depois destruiu todas as doces expectativas que pairavam na mente dos dois. Um baque de realidade, dotado de violência, desespero e tudo o mais que ainda é tão particular da raça humana. Os dois grupos que haviam se unido decidiram entrar em confronto físico com a passeata do MTST. No caos generalizado, alguns homens foram lançados em cima do grupo de amigos, que se separou. Felipe segurou mais forte a mão de Amanda e procurou sair da multidão, em vão, pois viu que estavam cercados, e uma feroz batalha se travava nas bordas da multidão. Pontapés, socos, e pauladas desferidas com as hastes das bandeiras vermelhas e azuis anunciavam o presságio de uma tragédia.

Aquele era o perfeito retrato de uma guerra. Já não se lembravam mais das reais causas de suas divergências, só lhes importava machucar, ferir, derrubar, fazer sangrar. O outro estava errado, pensavam, por isso não podiam deixar que continuassem existindo livremente. Era imperativo que perecessem em favor das ideias corretas, isto é, de suas próprias ideias. A grande maioria não estava ali para defender uma ideologia, pelo contrário, era a ausência de ideologia que alimentava seu ódio. A tensão invocada pela bipolaridade entre os dois partidos em destaque trouxera consigo um engajamento nunca antes visto, e que, sem o hábito da busca pela instrução, culminara numa rivalidade isenta de qualquer respeito.

Logo chegou a polícia militar, que tentou cercar a multidão com sua tropa de choque. Rapidamente muitos manifestantes dispersaram, corriam por todas as direções a fim de escapar da iminência do cárcere. Quando foi atropelado por um grupo, Felipe caiu no chão, sendo ainda pisoteado por mais duas pessoas antes de conseguir se levantar. Assim que deu por si, percebeu que havia se perdido de Amanda e foi aí que seu desespero pessoal se iniciou para não mais ter fim. Atônito, ele se virou para todos os lados, procurando-a. Foi então que recebeu uma paulada na parte de trás do crânio que o fez desabar uma segunda vez. Pelo jeito, algum militante raivoso aproveitara-se da bagunça para lhe acertar, supondo que Felipe fosse um de seus inimigos.

A polícia aplicava o método de Kettle (chaleira em inglês), no qual cercavam pessoas aleatoriamente para responsabilizá-los pelos delitos cometidos por uma multidão. Felipe colocou a mão atrás da cabeça e viu que em sua mão havia muito sangue; provavelmente um corte havia se aberto onde o impacto se dera. Levantou-se lentamente e viu que o círculo de policiais se aproximava, e as pessoas envolvidas por este eram poucas agora, a grande maioria dos que ali estavam no momento da briga obtivera sucesso na fuga.

Só teve forças para se levantar quando Amanda surgiu para erguê-lo. Ela estava em pânico; era perfeitamente visível em sua expressão. Contudo, estava disposta a fazer o que fosse necessário para fugir dali com Felipe. Ao se por de pé o rapaz constatou que vários corpos imóveis estavam estirados por sobre a rua. Não se sabia se estavam mortos ou apenas desacordados, mas não se lembrava de ter presenciado, ou mesmo assistido no noticiário, uma situação tão terrível. O cerco de oficiais estava perto demais, não havia mais possibilidade de escapar. No instante em que foi abordado, percebeu que havia ali, aproximadamente, vinte pessoas com eles, em sua maioria jovens rapazes e mulheres, ou seja, aqueles que não tinham grande agilidade para fugir com rapidez. Estes foram os escolhidos para pagar o preço da selvageria generalizada.

.​.​.​.​.​.​.​.​.​.​.

Felipe tinha as mãos algemadas por detrás do encosto da cadeira. Além dele mesmo e do assento de madeira, naquela sala havia apenas uma mesa de um metro de largura e outro de cumprimento, postada à sua frente. O cômodo era minúsculo; ali não caberia sequer um grupo maior do que três pessoas. A lâmpada branca tinha sua luz intensificada pelas paredes muito alvas, e dava a Felipe a sensação entorpecente de estar sonhando. O rapaz mal podia acreditar que algumas horas antes tudo estava muito bem.

Acordara apressado pela manhã, saltitante com a certeza de que seria o melhor dia de sua vida. Exerceria seu direito civil de se manifestar e, ainda por cima, passearia com a garota de seus sonhos. Porém, algumas pequenas provocações entre grupos com opiniões divergentes num momento de grande tensão causaram uma reviravolta antes inimaginável. Após ser autuado pela polícia, fora algemado e levado para a delegacia junto de Amanda. Em seguida fora colocado numa sala amedrontadora, como se fosse um verdadeiro malfeitor.

Demorou até que seu nível de adrenalina baixasse e ele pudesse começar a sentir os efeitos do pânico. Entendia pouco a pouco a gravidade da situação. Havia sido preso por estar no lugar errado e hora errada. O desespero veio-lhe através de uma expiração seca. Esvaziou o pulmão e compreendeu de pronto que aquilo era pra valer. Gritou chamando por alguém, mas não houve resposta. O silêncio o assustou ainda mais. Principiou a berrar, dizendo que aquilo era um mal-entendido, exigindo que o soltassem. Poucos minutos depois ouviu o som de passos se aproximando.

- Você é muito maricas pra um marginal que gosta de dar pauladas nos outros – disse o homem que entrara na sala, com uma voz muito grave. Tratava-se de um oficial da polícia militar. Estava trajado com o característico uniforme acinzentado da corporação. Seu boné cobria-lhe os olhos, e fora propositalmente posicionado dessa maneira no intuito de intimidar o garoto. Tinha as mãos juntas atrás da cintura, em postura de soldado. Seu corpo inteiro estava rígido, como se estivesse pronto a atacar a qualquer momento. Espessas veias saltavam de seus braços e pescoço ameaçadoramente.

- Senhor – falou Felipe, que já habituado a ser enquadrado pelas rondas da polícia em seu bairro, sabia que tinha de chamá-lo por senhor para não sofrer agressões – não fiz nada de errado. Com certeza houve um mal-entendido.

De nada adiantou a precaução. Sem prévio aviso o oficial aplicou-lhe um forte tapa na nuca. O som da agressão doeu-lhe mais na alma do que o próprio golpe doera no corpo. Aquele barulho transmitiu a Felipe uma mensagem clara: “não o reconheço como ser humano, portanto não hesitarei em te machucar, mesmo se isso for levar-lhe à morte”. A dor do tapa em si fora quase insignificante, mas era o prelúdio de um sofrimento maior; pronunciava a possibilidade de um espancamento.

- Então bater com um mastro de bandeira na cabeça de um homem já caído no chão não é nada de errado pra você, moleque?

- Eu não bati em ninguém, não senhor – tentou argumentar Felipe, ainda meio tonto.

- Maconheiro mentiroso. Eu te vi lá, vagabundo. Vi você batendo nele no chão, tem até sangue na sua mão.

- Esse sangue é meu, senhor. Bateram na minha cabeça no meio da confusão.

- Aí você quis se vingar e matou ele, né, vagabundo?

- Ele quem, senhor?

- Pois é, aquele cara em quem você tava batendo morreu. Cê é um assassino.

- Não fala isso, senhor – disse Felipe com os olhos já muito marejados. Estava prestes a cair no choro – Eu trabalho e tenho família, jamais mataria alguém.

Ouviu-se uma sonora batida na porta. O policial, com seus movimentos raivosos, foi correndo atendê-la. Felipe percebeu que a pessoa que estava do lado de fora chamou o oficial para conversar em particular. Imediatamente este se ausentou da sala e fechou a porta. Mais uma vez sozinho, Felipe já não pôde mais conter o pranto. Soluçava, aterrorizado com aquela pavorosa realidade.

Do outro lado da porta o soldado conversava com o delegado.

- O que ele disse? – indagou este.

- Ele tá chorando como uma menina. Cê descobriu alguma coisa?

- O garoto não é ninguém. Vai ter de ser ele. – respondeu o delegado – Daquela galera que a gente pegou, todos tem costas quentes. Tudo filhinho de papai. Menos esse daí, ele é um pé rapado.

- Ninguém sabe quem matou o cara?

- Quase todo mundo vazou. Quem ficou diz que não viu nada.

- E quanto aos que foram hospitalizados?

- A situação deles é estável, apesar dos ferimentos. Só morreu aquele cara.

- E agora? – perguntou o policial militar.

- Agora a mídia vai pesar pra encontrarmos o assassino. Vai ter que ser ele mesmo. Faz ele confessar.

Ao dizer isso, o delegado lhe entregou uma mochila, a bolsa que pertencia a Felipe. O policial abriu o zíper para ver o que havia dentro e prontamente compreendeu o que devia fazer.

- Tudo bem, mas vou precisar da namoradinha dele também – disse soldado – Coloca ela na sala ao lado e fala pra ela colaborar se quiser ir pra casa. Diz que é pra ela gritar quando eu bater na parede.

- Ok.

Terminada a conversa, o policial voltou para a salinha. Ao vê-lo, Felipe reiniciou suas súplicas. Desesperadamente pedia ao outro que acreditasse em sua inocência.

- É óbvio que você está chorando por estar com a consciência pesada. Não adianta mentir pra mim, seu assassino. Confessa logo que você golpeou um manifestante até a morte.

- Eu não fiz isso, eu juro! Vocês estão me confundindo com outra pessoa.

- Confundindo? Veja só o que encontramos na sua mochila.

O soldado abriu a bolsa e retirou cuidadosamente duas facas sem cabo e mais três pedaços pontiagudos de vidro, colocando-os enfileirados sobre a mesa que estava em frente a Felipe.

- E quanto a essas armas que você carregava? É confusão nossa também?

O desespero do garoto chegou ao seu auge assim que compreendeu que aquele homem não o deixaria sair dali de forma alguma. Era um beco sem saída, de nada adiantava declarar inocência; queriam incriminá-lo a todo custo. O policial sabia que Felipe perceberia a armação a partir dali, e mostrar-lhe os acessórios fora uma ação obviamente intencional. Já havia feito isso diversas vezes antes. Para arrancar a confissão de um crime não cometido, faz-se necessário deixar a vítima ciente de que eles, os acusadores, sabem de sua inocência, e que mesmo assim não há nada que ela possa fazer para evitar cair na armadilha. Não era questão de desfazer um mal-entendido, e sim de confessar logo para sofrer menos.

- Isso não é meu, vocês colocaram isso aí!

Felipe mal terminou a frase e já recebeu um soco na boca do estômago. Perdeu todo o ar e tentou gritar, mas sem oxigênio era-lhe impossível reproduzir qualquer som. Fez o que pôde para respirar novamente, e só o conseguiu após alguns longos segundos. Quando finalmente encheu seu pulmão de ar, sua vontade de gritar já se havia esvaído. A dor física concentrava toda a sua atenção naquele momento.

- Está insinuando que eu sou desonesto, moleque?

- Não quero te ofender, senhor – disse Felipe, muito ofegante – Mas essas coisas realmente não são minhas. Por favor, para de me bater.

- Seja educado e você não apanha – vociferou o policial.

- Por favor, senhor, não me põe na cadeia não. Eu trabalho honestamente todos os dias, e quero começar a estudar na faculdade no ano que vem.

- Se é assim, deveria ter pensado melhor antes de matar alguém.

- Não fui eu!

- Eu vi. Todo mundo te viu batendo nele. Não tem como você escapar.

- Por que está fazendo isso comigo?

- Confessa logo, moleque. Não tenho o dia inteiro.

.​.​.​.​.​.​.​.​.​.​.​

O delegado entrou com Amanda na sala ao lado, conforme orientação do oficial, e mandou-a se sentar. Desde que chegara ali, Amanda havia sido tratada com bastante delicadeza, principalmente quando o delegado soube que seu pai era advogado. Fizeram-lhe apenas perguntas genéricas sobre os acontecimentos no protesto e pediram-lhe alguns dados pessoais. O pai estava ciente de tudo e já se encontrava a caminho, e isso lhe amedrontava um bocado. Entretanto, sua maior preocupação ainda era saber como estava Felipe. Perguntava constantemente ao delegado sobre sua localização, mas este afirmava o tempo todo que ele estava seguro e que logo ela iria vê-lo. Depois de entrarem na sala, contudo, o delegado mudara seu discurso.

- Não vou mais mentir pra você. O seu amigo está em apuros.

- Como assim em apuros? – perguntou ela espantada.

- Acontece que um de nossos policiais tentou fazer algumas perguntas ao garoto e ele se mostrou muito agressivo. Tentou agredir o soldado mais de uma vez. Isso é desacato, e dos mais graves.

- É mentira, o Felipe nem é violento.

- Você deveria saber melhor com quem anda. Quem desacata as autoridades não passa de um criminoso.

- Não acredito em você – ela disse chorosa – o Fê não é assim.

- Mas tem um jeito de você ajudá-lo.

- Como eu posso fazer isso?

- Basta fazer o que eu mandar.

- O que você quer de mim? – perguntou ela receosa.

- É muito simples – disse o delegado. Após inspirar fundo ele retomou a palavra – Só preciso que você grite.

- Gritar?

- Sim, mas não um grito qualquer. Preciso que você grite como se estivesse com muito medo, ou como se algo doesse muito.

- Para que isso vai te servir?

- Isso não importa. Se você quiser ajudar seu amigo, precisa fazer somente isso.

Felipe tinha o supercílio esquerdo cortado, e o olho do mesmo lado estava muito inchado devido aos sucessivos golpes do policial militar. Por toda a sua face o sangue misturava-se ao suor, e sua camiseta estava empapada com um vermelho púrpura muito vivo. O medo se transformara na certeza da morte. O policial falava com ele, porém Felipe ouvia apenas algumas palavras isoladas nas quais prestava pouca ou nenhuma atenção. Lembrou ligeiramente das tardes na lan house do bairro, dos pais e dos sessenta minutos diários com Amanda, sentado na beira da calçada. Estava convencido de que tudo aquilo chegara ao fim. Parecia-lhe que o destino havia lhe aplicado uma peça e daria cabo de sua vida justamente após ter lhe proporcionado o melhor momento dela. Seria um desfecho com chave de ouro.

- Responde, moleque – disse o oficial, despertando-o de seus devaneios.

- O quê? – Ele falava enrolado devido à tontura que sentia após ter sofrido tantas pancadas.

- Vai confessar agora?

- Eu não… Matei ninguém.

- Que pena que não vai confessar. Moleque, você sabe que pegamos sua namoradinha também, certo?

- Cadê a Amanda? – a lembrança de que ela também estava nas mãos daquele homem trouxe de volta o terror que já havia superado minutos antes. Não tinha mais medo por si, só por ela.

- Está na salinha aqui do lado com outro policial.

- Não faça nada com ela! – As lágrimas voltaram a escorrer involuntariamente. Parecia que Felipe chorava puro sangue, devido ao fluxo vermelho que continuava correndo de seu supercílio.

- Se você quer que ela fique bem, é só confessar.

Felipe não respondeu de imediato, somente baixou a cabeça e continuou o pranto. O soldado, impaciente, foi até a parede lateral e ali bateu com força. Como resultado, Felipe pôde ouvir o grito de Amanda. Era um berro desesperado de sofrimento.

- Não, não, não – repetia ele inúmeras vezes enquanto balançava a cabeça.

- Acaba com a dor dela. Confessa logo e ela vai pra casa. É muito simples.

O garoto arregalou o único olho com o qual ainda lhe era possível enxergar. Sua respiração foi ficando mais ofegante e o coração batia cada vez mais depressa. Sua memória, inconvenientemente, lhe remeteu àquela caminhada junto a Amanda em meio à avenida. Ela sorria de forma a entregar-se a ele, sem hesitação. Justo para ele, que nada tinha. Não possuía dinheiro, nem passado, tampouco teria um futuro. Todavia, foi pra ele que ela sorrira. Amanda se esquecera de sua posição e obrigações sociais para entregar-se a ele durante a feliz caminhada. Sabia que não deveria ser ingrato. Não iria decepcioná-la depois de Amanda ter lhe mostrado tanta luz.

- Eu confesso – falou afinal – Eu matei aquele homem.

- Gravou isso, delegado?

- Está feito – respondeu uma voz vinda de fora da sala.