Devo cursar física?

Se você tem se feito essa pergunta, espero que este post ajude um pouco.

A coisa mais comum de estudantes no fim do ensino médio é não ter ideia de qual carreira seguir. Imagine só, uma prova e uma escolha determinar o que você vai fazer para o resto da vida, não é mole. Ok, no fim das contas não é bem assim, muitas pessoas mudam de curso, outras se formam e acabam trabalhando em áreas totalmente desconectadas com a formação superior, e outras largam tudo e vão vender arte na praia. Mas, mesmo assim, seria bem legal acertar de primeira, ou pelo menos não fazer uma escolha tão ruim, não acha?

Então vamos lá. Vou tentar dar a minha visão do que você pode fazer depois de formado em física, e o que é necessário para encarar o curso. Enfatizo que é a minha visão, ou seja, você pode encontrar um monte de gente que discorde de mim. Só porque o Davi Simões é meu coleguinha deixo aqui o vídeo dele sobre o assunto, que pode ajudar também. Tem um bocado de outros vídeos legais no youtube dando outros pontos de vista, só procurar.

Vou tentar falar aqui dos principais motivos porque alguém iria querer estudar física:

  • Quer ser professor;
  • Quer ser pesquisador;
  • Curte a disciplina no ensino médio mas não sabe o que quer da vida;
  • Quer engenharia mas acha que pode ser uma boa começar o curso de física e depois tentar mudar.

A coisa mais óbvia que dá pra fazer é se tornar professor de ensino médio, técnico ou superior. Se você gosta de física, quer aprender, mas não quer encarar uma sala de aula, existem diversas outras carreiras que podem aproveitar o seu expertise. Entre elas, diversas na área de tecnologia, finanças e consultoria para empresas. Se nada disso te atrai, você pode ainda usar a sua prática em sentar a bunda numa cadeira lendo livros para estudar para algum concurso público que te agrade.

QUERO SER PROFESSOR

Digamos que você é do tipo que olha para aquele professor ou aquela professora de física do seu colégio e pensa “cara, é isso que eu quero fazer da minha vida!”, e acha que preencher infinitos diários e corrigir infinitas provas e ter que aguentar um monte de adolescente sem noção vale a nobreza da profissão então pronto, o caminho é esse mesmo, manda ver, e sim, física é para você.

QUERO SER CIENTISTA

Digamos que você queira fazer física porque acha que o seu destino é revolucionar a ciência com alguma nova teoria fantástica. A menos que você ganhe o Nobel cedo e saiba investir bem suas 8 milhões de coroas suecas, em algum momento você vai precisar pagar o aluguel e comprar comida (não dá pra ficar na casa dos pais pra sempre). Então como grandes físicos pesquisadores são pagos? A resposta: Universidades. Universidades, aqueles jardins onde florescem as boas ideias, aqueles calabouços de sofrimento, aqueles locais que marcam para sempre a vida de quem passa por eles (para o bem ou o mal). As universidades pagam pessoas para pesquisar diferentes assuntos. Mas também quer que essas pessoas formem mais pessoas capacitadas. Isso é, pesquisadores precisam dar aulas. Então se você quer ser um cientista mas não quer dar aulas, ou ganhe o Nobel bem cedo (e não torre tudo com drogas e poker), ou encontre um calabouço (ou o porão dos seus pais) para suas experiências bizarras.

NÃO SEI O QUE QUERO DA VIDA, MAS NÃO SÃO OS CASOS ACIMA

Agora, se você não quer nada disso mas ainda pensa no curso como opção, talvez porque você gosta de ciências ou talvez por puro sadismo, possivelmente você gostaria de saber que um bom físico pode ser aproveitado na indústria. Na Europa, por exemplo, onde as universidades já estão saturadas de pesquisadores e não tem muito espaço para um físico procurando emprego, empresas de TI, de comunicação e de consultoria avançam nos bons alunos como abutres, arrancando com suas garras cheias de dinheiro os jovens físicos que poderiam ter honrosas carreiras muito possivelmente fracassadas na pesquisa acadêmica. A cada dia que passa empresas encontram o que fazer com físicos desempregados promissores em seu quadro de funcionários, e em geral o resultado tem sido bom, para ambos os lados.

Por que isso ocorre? Bom, eu não sei com certeza, mas tenho algum palpite. Primeiro, ao longo do curso de física, você é treinado a resolver problemas, dos mais simples aos mais escabrosos. Desafios que envolvem muito mais do que somente conhecer a física e a matemática, mas que demandam toda uma arte de analisar um problema monstruoso, comer pelas beiradas até chegar no núcleo e entregar a cabeça do problema numa bandeja. Além disso, um físico é um dos profissionais que tem uma noção um pouco melhor de como o mundo funciona, além de manjar razoavelmente bem de matemática. E vamos combinar que hoje em dia esses são atributos raros. Esses mesmos atributos, além da prática que você adquiriu estudando sem parar por 4 longos anos (normalmente mais), te permitem também mudar totalmente de rumo e fazer algum concurso para órgão público.

Dois podcasts que podem ajudar se você pensa em seguir essa rota alternativa são essee esse.

Vamos agora ao último caso, e que talvez seja o mais polêmico.

QUERO ENGENHARIA, E ACHO QUE FÍSICA PODE SER UM ATALHO

E se você na verdade quer engenharia, mas acha que o curso de física pode servir de degrau? Eu tenho algumas considerações:

  • O curso de física e de engenharia de fato possuem uma grade curricular bem próxima nos dois primeiros anos. Então dá sim para pensar que você está “adiantando” matérias enquanto não consegue nota para engenharia. E eu conheço gente que conseguiu a mudança, e se deu bem;
  • Cursos de engenharia costumam (nem sempre) ser bem mais concorridos que os de física. E o curso de física é um curso extremamente puxado. Se você estiver tentando vestibular ou Enem para engenharia, seria muito difícil você se dedicar às matérias do curso e às matérias do segundo grau (história, redação, português…) para conseguir passar em engenharia.
  • Pode acontecer de no meio do curso você descobrir que física é sua paixão, e querer ficar, e viver feliz para sempre. Pode acontecer de você descobrir que exatas não é sua praia, largar o curso, mudar para artes cênicas e virar um puta artista que se apresenta em festivais de dança internacionais e usa um nome fictício francês. Pode acontecer de você ficar até o fim do curso tentando mudar para engenharia, não conseguir pelo motivo citado acima, se formar, precisar de emprego, começar a dar aula num lugar bosta só porque precisa da grana, não conseguir mais sair e se afundar na desgraça pro resto da vida, e terminar vendendo a sua casa, seu cachorro e sua família pra pagar dívidas do jogo do bicho.

Enfim, muita coisa pode acontecer. Eu pessoalmente não gosto da ideia de fazer um curso querendo outro. Mas a vida é cheia de surpresas, e as vezes surpreende. Então faça o que achar que deve fazer.

CONCLUSÃO

Eu sei que eu não dei respostas definitivas. Simplesmente porque não existem. Cada caso é um caso, e a vida é uma caixa de chocolates, como diria Forest Gump. Mas talvez com o que eu disse aqui você agora tenha mais maneiras de tentar responder por si mesmo a essa pergunta.

Fique à vontade para perguntar nos comentários.

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