Sobre Ustra e Marighella

Aquele episódio Bolsonaro x Wyllys, Marighella x Ustra, me foi bem útil. Eu não sabia quem era nem um dos dois “homenageados”. A única coisa que lia aqui eram pessoas comparando as duas figuras, como extremos diferentes. Decidi ir atrás.

Aprendi que Carlos Marighella foi um comunista revolucionário durante a ditadura militar, autor do Mini-manual do Guerrilheiro Urbano. Esse manual (disponível online) explica como utilizar táticas de guerrilha como oposição ao regime militar. Explica como assaltar bancos para financiar a revolução, preferencialmente sem ferir ninguém, e utilizar o momento para distribuir panfletos de propaganda para diferenciar a ação de simples criminosos que buscam o enriquecimento ilícito. Fala sobre tratar bem as pessoas oprimidas (dentro do contexto da luta de classes). Fala sobre buscar, ainda que de maneira violenta, um mundo mais justo, de dignidade para todos. Fala sobre confundir as forças de segurança, com pistas falsas e trotes. Fala também de exterminar (e usa essa palavra) todas as autoridades policiais e expropriar recursos do governo, latifundiários e grandes capitalistas.

Aprendi que o Coronel Brilhante Ustra foi chefe do DOI-CODI durante a ditadura militar e recentemente foi condenado por tortura e sequestro. Entre os relatos estão o de ter arrancado dentes da Dilma no murro e o costume de chicotear pessoas enquanto dava choques ou de introduzir objetos e animais em “lugares inapropriados” de suas vítimas.

Tentar colocar as duas figuras como equivalentes, mas de extremos opostos, me parece forçar a barra demais. Muitos apelam para o raciocínio simplista “ah, ambos cometem crimes, logo são iguais”. Eu acho que é difícil julgar “certos” e “errados” tão distantes da nossa realidade. Se o Daesh (o auto-nomeado “estado islâmico”) ocupasse a sua cidade agora, não seria justo pegar em armas para eliminar esses malucos? Ou você acha que greve de fome seria suficiente para parar as torturas, mortes e decapitações televisionadas? E nas leis do Daesh, eles não são criminosos. Só estão fazendo aquilo que a sua teologia demente diz para fazer.

A mesma galera que critica Marighella e chama a Dilma de terrorista e ladra de bancos defende que se atire loucamente em traficantes de helicópteros com grandes riscos de acertar inocentes, ou defendem que drogado tem que morrer, ou que qualquer adolescente envolvido com o tráfico está pedindo para morrer. Não é esse o raciocínio generalista que se critica do Marighella? De que todo policial é um opressor torturador e que merece a morte? De que todos inseridos (social, profissional ou familiarmente) no grupo do “inimigo” são também inimigos?

Enfim, esses últimos dias fiquei pensando bastante nesses assuntos, e não tenho nenhuma grande conclusão formada, mas algumas pequenas: 1) Não sei se concordo com o “guerrilheiro urbano”, acho que não. Penso nos vários bons homens das forças armadas, que acabaram sendo peões de um jogo maior, do qual não eram capazes de sair. Ou do fazendeiro honesto que simplesmente não percebeu a desigualdade do mundo em que vive, e de sua condição extremamente favorável, e de como sua manutenção ali contribui indiretamente para o extermínio de povos indígenas. Colocá-los no mesmo balaio com assassinos de índios ou coronéis torturadores me parece injusto. 2) Qualquer pessoa que defenda abertamente um torturador tem, no mínimo, sérios problemas de cognição. 3) Comparar, sem o contexto adequado, as duas situações me parece preguiça de encarar complexidades do mundo.

Finalmente, sobre os que comemoram sem pensar as falas insanas do “Bolsomito”. Aqui invoco a Navalha de Hanlon:

Nunca atribua a malícia aquilo que pode ser facilmente explicado pela burrice

Para mim, o fã-clube desse senhor, capaz de defender torturadores, faz simplesmente parte de uma horda mas que nunca parou para genuinamente pensar no que está fazendo. Não acredito que sejam fascistas, torturadores ou pessoas profundamente cruéis. Só tontos. E reagir com violência (ainda que com xingamentos ou cuspes) a essas pessoas só fortalece sua já deturpada visão de mundo.