“Ir devagar para andar depressa”
“No que tange a gestão de projetos de grande escala, as coisas estão se movendo na direção correta”. Ao mesmo tempo que traz uma visão de futuro otimista, ao meu ver, Bent Flyvbjerg também dá um fechamento controverso em seu artigo “O que você deve saber sobre projetos de grande escala, e porque: visão geral”. Contextualizando o mundo das grandes construções globais, o artigo explora rapidamente alguns aspectos sobre estes projetos:
(1) a tendência de crescimento nos investimentos em megaprojetos globais;
(2) as quatro justificativas para o crescimento no tamanho e frequência destes projetos — razões políticas, tecnológicas, econômicas e estéticas;
(3) os princípios básicos de megaprojetos — atrasos e sobrecustos;
(4) o modelo “quebra-conserta” de gestão de megaprojetos — dada a complexidade para gerenciar estes investimentos, eles são construídos deliberadamente para quebrar e depois serem consertados, mesmo gerando altos custos para as partes interessadas;
(5) a teoria da “Mão Escondida” de Albert Hirschman (em contraste à teoria da “Mão Invisível” de Adam Smith) — a idéia é que esta “mão” oculta as reais dificuldades de implantação destes projetos, pois, sabendo que a criatividade humana gera superação frente a desafios, tal ocultação é benéfica para o avanço da sociedade;
(6) a sobrevivência dos “projetos menos aptos” — a prática comum de achar que “tudo vai se resolver” resulta na seleção de projetos que parecem bons no papel, mas que de fato possuem custos amplamente subestimados e benefícios amplamente superestimados. Ou seja: são comumente escolhidos os piores projetos;
(7) a chegada de uma nova era de gestão destes investimentos, onde os gestores públicos associados a projetos de insucesso são demitidos ou de alguma forma punidos;
Me parece (admitindo não ter lido suficientemente) que os primeiros 6 itens são não somente interessantes mas possivelmente aplicáveis para o contexto brasileiro. No entanto, considerando os vultuosos pacotes de crescimentos baseados em obras de infraestrutura lançados nos Governos anteriores, a mesma aplicabilidade não parece tão intuitiva para o último item; não tenho certeza que “a ficha caiu” para os gestores públicos das dificuldades envolvidas na gestão destes projetos. Será que aprendemos as lições que megaprojetos como a ferrovia Transnordestina tem para nos ensinar? Quem fez as contas dos benefícios e custos destes projetos? Utilizando a frase de um ministro do Governo atual, temos que perguntar: estamos realmente indo devagar para andar depressa?