A Viagem Fantástica

Tentativas de expressão sobre o que David Robert Jones representa no meu universo vai além das estrelas. Um multiverso que se sobrepôs ao longo dos meus dias conscientes e inconscientes no planeta dito Terra. Cada camada um acontecimento, uma fatia de existência em que ele permitiu que eu fosse protagonista enquanto narrava em aforismos disfarçados de canção.

Conheci este monarca da fantasia na infância. Me prometeu ser um servo, contanto que o temesse, o amasse e agisse conforme seus ditames. Contrapartida aceita, os anos passaram não sem tormentas, mas a garantia de ter uma escuderia leal e alerta para ensinar sobre alento e perseverança.

No adolescer, que é adoecer com uma letra a mais, quando somos frágeis e suscetíveis às verdadeiras ditaduras, eu havia esquecido dele. O “rei da fantasia, da imaginação, e do que pode ser” relegado ao seu próprio oubliatt que era de fato um não-lugar da minha mente.

À primeira hora escura, vi seu retorno em armadura de paladino do infinito, quando revelou que também se encontrava perdido, sua voz inaudível, apenas o vácuo e a vista do azul profundo.

Do reencontro em diante, foram tardes intermináveis ouvindo suas sagas que, aos olhos de juventude, eram cartas nominais. Das mudanças, dos dissabores, das pequenas desistências, das antologias e ontologias, dos saltos e crenças, das percepções, de como, enfim, enxergar a condição humana. Não houve, sobremaneira, um papel determinado senão o de camuflar-se à paisagem que se avizinha. Aprendi desta forma o significado de adaptação.

A cada passo em falso, uma verdade torta tal qual biscoito da sorte. Às primeiras tentativas de vida adulta frustradas e à urgência de estar por dentro ele protestava: o sentido consiste em ficar por fora. E quando o protesto nascia em mim, ele dizia: não se enraiveça do que já passou.

Ao seu lado era futuro sempre. O passado era mais que estrangeiro, parece até que nunca existiu. Diziam do seu pessimismo, mas não conheci alma mais progressista. Como se fosse mal reconhecer os males e seguir em frente. Esse tipo de ingenuidade comum à qual nunca foi afeito. Aprendi assim a apreciar o fracasso como manobra para o êxito.

Amamos as coisas mais estranhas, como extraterrestres que não possuem o direito nato de viver conforme a vontade. A vontade da experiência, e não a do desejo que corrói as entranhas. Eventualmente, corroemos as entranhas sob a chancela do livre arbítrio de modo a testar os limites do que se diz mundano. Então aprendi que nada é permanente senão a busca do equilíbrio.

A criação. A magia de criar além da própria mente se instalou em mim e dele pude ouvir novamente que nenhum dos nossos ânimos ou aflições se encerram nesse ato. Pelo contrário, a vida pulsa múltipla e é nossa incumbência fazer com que a fantasia transubstancie ainda mais vigorosa, para que persista a coragem de enfrentar a miséria.

Com ele também aprendi sobre a morte inevitável, vigilante. Não me antecipei, todavia, à sua ausência. O termo do aprendizado e da dialética criada única e exclusivamente pelos meus pensamentos.

Algo aconteceu no dia em que ele morreu, e esta não é meramente uma citação de Blackstar.

A notícia chegou como arfar de relva serenada, mal havia aberto os olhos e percorria a cidade no coletivo rumo ao centro de reabilitação do corpo, que se recusou a aguentar o peso do que vinha carregando.

Em retidão forjada, chego à entrada do casarão e me deparo com um pássaro negro, inanimado, como que despencado do céu segundos antes da minha presença. Perco a noção do tempo em que o observo e penso nos últimos eventos. Despeço-me. Sigo em frente para a rotina de exercícios.

Aprendi que a ausência humana é momentânea. No entanto, o silêncio do rei de fantasia foi acidentalmente impresso na razão.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.