Bem-sucedido no Projeto Vida

Tempo e vida.

É engraçado observar com outros olhos o nosso lugar de criação. A nossa primeira casa, o lar de nossos valores sociais, o centro de nossas convicções sobre o mundo. Crescemos com uma visão inerte de mundo, vivenciando tudo que a nossa sociedade nos oferece.

Nasci, cresci, e vivo em São Paulo, capital. São Paulo é o centro econômico do Brasil, megalópole, rodeada de grandes negócios, multinacionais, o propulsor desenvolvimentista do país. Cidade grande maravilhosa que tem um arsenal imenso de cultura, arte e entretenimento para oferecer ao cidadão. Porém é uma cidade triste. Cidade triste, estressada e cansada. São Paulo é constantemente atingida por padrões, sensibilidades e mercados financeiros, sempre com horário pra começar e terminar .

Crises políticas e econômicas seríssimas que estagnam o nosso lar. Dessa forma, faz com que as pessoas se encontrem desamparadas. Nos encontramos naquele famoso dilema: Precisamos ter o diploma de bem-sucedidos acima de tudo. Isso é um dilema que a sociedade brasileira como um todo sofre.

Maiores requisitos para ter um diploma no ideal ‘’bem-sucedidos’’: encarar diariamente a falta de empatia conjunta que emana no ar da população, e como encarar? Sendo apático da mesma forma. Não é nossa culpa. Isso foi construído socialmente com o tempo. Cadê nossa identidade? Pessoas estão cansadas de se cansarem. Pessoas não estão se fazendo as perguntas que devem ser feitas. Está faltando se jogar no mar aberto do centro da cidade, e de fato enxergar tudo à nossa volta. A pobreza, desigualdade social, a personalidade desumilde, corrupta e individualista fala tão alto que estamos sempre com medo.

‘’Presta atenção na hora de atravessar a rua. Cuidado com esse celular. O centro fede. Olha quanta gente estranha. Por que tem tanto viado na rua? Vamos falar de política. Fica ligeiro com o busão. Me dá um troco. Respeita as mina. A arte vive em Sampa. Meu ego vai sempre bater no seu. Tô trabalhando demais. Sampa é muito grande. Olha quanta sujeira. Muito cachorro na rua. Muito mendigo na rua. Não sei que faculdade fazer. Preciso comprar um carro, não dá. Ar poluído. Tô estressado.’’

Bem-vindo à Sampa.

Desde pequenos já somos condicionados a entender nosso mundo como uma matrix construída por uma realidade dominante. Existe uma pressão social imensa por parte dessa cidade de nos ver assim. Esquecemos muitas vezes de fazer escolhas que queremos e abdicar de nossas vontades por estabilidade financeira em uma sociedade doente. Em uma ordem social falida, onde todos correm por algo que não sabem se realmente é aquilo que vai realizá-las. É tudo uma questão de percepção.

Na nossa zona de conforto, o dinheiro nos separou do mundo afora. Nos tornamos pessoas egoístas que se preocupam apenas com status social, coisas supérfluas, e baseamos nossas escolhas no que os aparatos sociais como a Igreja, a escola, a família, a mídia, as empresas nos dizem, nos fazendo cair em uma zona de influência enorme de todos, e nos fazendo esquecer do principal: Nós. O que nós queremos?

O clima contagia. Quando vemos que somos fortes, conseguimos nos libertar e encarar novos desafios em busca da felicidade própria, passando por cima da Selva de pedra. Mas é difícil se desvincular. Difícil se desprender.

Geralmente, nunca conseguimos descobrir o que vai nos apetecer, justamente pelo fato de não termos a oportunidade de vivenciarmos outro tipo de realidade.

Eu particularmente, construí uma visão de mundo com base nos meus diferentes estados de espírito até aqui. Não, não consegui me desprender. Recentemente voltei de uma viagem que me abriu os olhos para muita coisa, principalmente para um fato incontestável: O tempo é curto e a vida é bela. Cabe a nós fazermos a nossa parte e seguir em frente. Vi pessoas que são felizes intensamente, que sorriem com facilidade, que se comunicam com amor e simpatia no olhar, que sentem a terra quando a pisam, que compartilham histórias e experiências, que te acolhem como família, e o mais importante:

Que vivem cada dia como se não houvesse o amanhã. Pessoas que são felizes com pouco. Foi algo que eu precisava ver e sentir. São coisas simples e que todos nós sabemos e temos plena consciência, mas acabamos nos esquecendo disso, e nos afogamos em um mar de concreto mantendo nossos corações cada vez mais vazios.

E será que tudo isso que eu disse acima é uma verdade absoluta? Por um momento, foi pra mim. Porque não há verdades. Há concepções de mundo com base no que você vê, e como absorve tal realidade. A ideia de se compreender o externo à nós por um viés de confiança do momento e energizar sentimentos empáticos e humildes ao nosso redor é confortável, mas é uma ilusão. Uma ilusão prazerosa, e que eu ainda continuo seguindo, mas meu estado de espírito agora é existencial. Algo dotado de uma complexidade absurda, e que nunca vai ser compreendido. Mas pode ser questionado.

Eu sempre fui uma pessoa calma e tranquila, porém tensa. Tentando me auto-colocar objetivos para a vida aqui no Brasil para ter uma visão de futuro, pensando que aquilo poderia me fazer feliz. Eu estava errado. Me desvinculei de valores completamente sem sentido que apenas me atrasavam. Cresci espiritualmente e mentalmente. E hoje compreendo que felicidade é uma ideia viciante. Ela não é concreta, e não é constante. É de caráter utópico. Utópico o suficiente pra nos fazer continuar seguindo a jornada, mesmo que depois de tudo, ainda não saibamos do que ela se trata.

A grande real é que tudo é uma rotina. Você pode tentar fugir disso, pode tentar se inserir em vivências novas, mas automaticamente, isso se torna rotineiro. Uma rotina de quebrar rotinas.

Como dizia Raul Seixas: Viva a Sociedade Alternativa. Pois então, paremos para pensar e refletir, e criemos o nosso próprio modelo de sociedade alternativa. Sociedade alternativa onde despertemos o nosso senso de liberdade sempre transmitindo amor, sendo empáticos e respeitosos com o próximo, e eliminando pré-julgamentos e preconceitos. E principalmente, trazer à tona o espírito questionador para tudo. A necessidade de se encontrar em uma geração tão perturbada como a nossa, têm se tornado cada vez mais intensa. Então, façamos da existencialidade um eterno debate filosófico. Esse é o primeiro passo. O resto da história, nós mesmos escrevemos.