DA ARTE DA GUERRA PARA A GUERRA DA ARTE

Ilustração: @joaovitorlage

Certa vez, Friedrich Nietzsche disse que a arte é apenas o estimulante da vontade de poder. Certo ano, em meados da década de 1970, quando passou a integrar a linha de frente da empresa da família, Miuccia Prada disse que para uma feminista de esquerda, ser estilista era a pior coisa que poderia ter lhe acontecido. É interessante observar como essas duas pessoas, originais em suas áreas, puderam demonstrar um certo desprezo para seus objetos de estudo e criação, respectivamente.

A arte, como muitos sabem, não só agrega conhecimento e estimula a curiosidade de tentar entender o sentido da vida, mas, também, pode incorporar seriedade e ser uma boa fonte de dinheiro fácil para qualquer marca de roupas. Muitas delas, como a própria Prada e seu enorme museu em Milão (Fondazione Prada), coberto inteiro por folhas de ouro de 24 quilates e com decoração do cineasta Wes Anderson, explora isso de uma maneira triunfal, somando mais valor e relevância frente ao mercado de luxo.

Não é de hoje que os franceses e os mais informados acompanham a batalha dos gigantes LVMH (detentor da Louis Vuitton, Givenchy, Kenzo, entre outras) do proprietário Bernard Arnault e o grupo Kering (Balenciaga, Saint Laurent, Gucci) de François Pinault, pela liderança por um mercado de luxo sustentado por acessórios e cosméticos. E agora, pela arte.

Assim como príncipes renascentistas, os dois bilionários querem deixar um legado, e nada melhor que arte ou uma fundação em seu nome para conseguir isso. Pinault foi o primeiro a mostrar interesse comprando o Palazzo Grassi, em Veneza, e lá instalando a sua grandiosa coleção de arte contemporânea. Logo depois, o concorrente Arnault inaugura a Foundation Louis Vuitton, feita pelo ganhador do Prêmio Pritzker de Arquitetura, Frank Gehry. Em Milão, a Armani/Silos faz a vez de museu de criações icônicas da casa, assim como a Gucci e a Salvatore Ferragamo, em Florença. Travou-se um jogo onde o mais astucioso vence. É o império do efêmero em guerra, e em tempos de Instagram a guerra é pela imagem, e não mais pelas vendas das roupas em si. Claro que a finalidade é essa, mas a sensação que se tem é que as marcas desejam que mesmo você comprando um batom, não está apenas adquirindo um item de beleza, mas um item de beleza com referências artísticas. E isso muda tudo.

A “competição”, entre eles, ajuda a moda e a arte a evoluírem em seus respectivos setores. Colaborações como a de Marc Jacobs com Takashi Murakami (2003/2009) e Yayoi Kusama (2012) na era Vuitton, ou Raf Simons que vez ou outra chama o artista plástico Sterling Ruby (seja na sua própria marca homônima, na Dior, ou na Calvin Klein) para dar o tom artsy em coleções, serão sempre bem-vindas, pois nos ajudam a pensar o por que consumimos este nicho do mercado: moda com arte. Compramos uma peça de roupa artsy pela sensação de possuirmos algo relevante- como a arte- ou por que aquela roupa X é pensada e desenvolvida por meio das artes?

A Gucci, do Alessandro Micheli, diretor criativo da casa, entendeu que para a geração Y/Z comprar é necessário misturar todas as referências estéticas, do Renascimento à cultura imagética do século XXI. Já a Balenciaga, na coleção de outono/inverno 17 de Damna Gvasalia, transforma objetos banais, como uma sacola de feira em luxo. Faz isso também com a sua marca Vetements, colocando um isqueiro como salto (inverno/17). Mais Dadaísta impossível! E se tratando da Vetements o assunto é mais profundo. É político.

Não podemos negar que as artes plásticas sempre foram, de alguma maneira, um subterfúgio para criações na moda. Só para citar alguns: Elsa Schiaparelli com Salvador Dalí, na década de 1930, e Yves Saint Laurent com Mondrian, em 1965. Todos eles, devem uma grande parte do sucesso que tiveram a este ótimo aliado de comunicação de massa, mesmo que tenha sido apenas para vender, para expressar uma inspiração de suas mentes criativas ou para criar um lifestyle para as suas marcas. Ou tudo isso juntos, não necessariamente nesta ordem.

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