
A vida adulta não reflete no espelho (O que aprender com Alice no país do espelho)
Acabo de ler um clássico da literatura infantil. Alice no país do espelho, apesar de menos famoso que a obra-prima de Lewis Carroll, é uma viagem fascinante pela personalidade firme e libertária de uma criança.
Alice, a mesma que viajou pelo incrível país das maravilhas, dessa vez abre as portas de sua imaginação para a pergunta: Se o espelho me mostra tudo ao contrário, como será o mundo do lado de lá? Como será um mundo onde tudo é exatamente o que não é nesse aqui? É incrível recuperar lembranças da infância e me pegar de frente ao espelho imaginando: como pode haver um eu dentro do espelho? E mais. Como saber se eu sou o real ou o reflexo? Em meio a tanta realidade, o espelho é um objeto mágico para quem quer que seja.
Mas o espelho não perde as suas características ao longo do tempo. Como explicar então o fato de nos acostumarmos a sua presença em todos os lugares? O espelho que nos refletia e nos fazia refletir, agora mostra apenas se o cabelo está bom e se a roupa combina. É preciso dizer que o espelho, permanece o mesmo, quem perde características importantes somos nós. Características como a capacidade de criar, de se encantar, de investigar apenas pelo prazer de fazê-lo, de assumir que não sabemos a resposta. Ao contrário, normalmente os adultos se afastam, com demagogia e vergonha, disfarçada de desinteresse, daquilo que não compreendem. Ou pior, emitem opinião, superficial e despreparada, sobre o que não sabem, apenas para que não fique explícito o fato de que ignoram totalmente o assunto.
A poesia do Burugunduzeiro, logo no primeiro capitulo desperta exatamente esse sentimento de constrangimento por não entender sequer o significado das palavras, quanto mais das estrofes.
"Entardenoitecia, e os rosântemos pililáceos girandavam se enfurfelhando nos embiroscais enquanto os cansadolentos borogovos e os porcorés casiosos escutavam o gritobio nos canaviais."
Mais a frente Rúmpiti Dúmpiti ensina como trabalhar um assunto do qual não se entende nada. E a pensar fora dos conceitos padrão, isolando as palavras e suas ideias. É o que chamamos de problematização, ou seja, entender os conceitos possíveis das palavras para que em conjunto haja algum sentido.
Esse é um dos exemplos de como a obra educa e incentiva o aprendizado real, não aquele repetitivo das escolas, mas o gerado pela intriga, pela curiosidade, pela teimosia em saber. Além desse, tantos outros exemplos que Alice ensina através de sua personalidade, como o hábito constante de falar consigo mesma, refletindo e repensando seus atos e sentimentos, ou a capacidade de aprender os costumes e tradições opostos aos seus, a atitude de intervir sempre que pode melhorar algo, poderia ficar a noite toda encontrando ensinamentos e expondo-os aqui.
Vejo muitos artigos, estudos e palestras sobre como a escola tradicional mata a criatividade inerente à criança. Sobre como o formato militar, cartesiano e ditatorial da instituição escola cria seres humanos pouco desenvolvidos, sem capacidade de criar, de evoluir, e até mesmo de aprender. Procuro sempre refletir sobre isso e sobre formas de transformar essa metodologia quadrada em algo que se encaixe à realidade moderna, ou como diria o sociólogo Zigmunt Bauman, líquida, do mundo no qual vivemos.
O problema é que, diferentemente das crianças, para nós adultos, a ruptura com a realidade e portanto a sua transformação é praticamente impossível. A rigidez e a solidez com as quais ideias, conceitos e instituições foram construídas em nossa realidade dificulta extremamente uma saída saudável. Ora, como criar uma escola que alimente a curiosidade, a criatividade, a humanidade nas crianças, se já existe a escola? O adulto tem esse limite, de se prender àquilo que já sabe, ou àquilo que sempre foi assim.
Longe de querer responder as questões levantadas, aprecio a proposta de que para iniciar essas transformações tão necessárias, busquemos primeiro quebrar as barreiras e os limites que nos foram impostos, buscar de maneira mais inteligente a facilidade de desconstruir, tal qual uma criança, ideias e conceitos dessa realidade absoluta e ilusória que nos desvia do que somos.
Educar as crianças e por elas ser educado. Todos saem ganhando. Algo pode acontecer.