O Admirável Mundo Novo (O mesmo de sempre)

Estou terminando de ler a obra de Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo. Distopia conhecida e estudada, que mostra uma realidade futura, na qual o prazer e o trabalho são os pilares fundamentais. Como todo universo criado, a obra fascina e cativa o leitor, que, por sua vez, recria também os seus próprios conceitos para entender melhor a nova realidade na qual busca se inserir.

Esse exercício de abstração é extremamente desafiante. Ora, assim como alfas, betas e ípsilons - tipos de classes sociais que regem as funções e aptidões, bem como o desenvolvimento físico e intelectual dos indivíduos da obra- receberam um condicionamento que os limita e dá sentido a suas ações, da mesma forma nós somos, também, condicionados pela sociedade, pela ética escolhida como correta para dar sentido a tudo o que fazemos. De forma que pensar sobre o condicionamento da sociedade fordiana de Huxley, nos faz enxergar melhor o nosso próprio condicionamento. Sem essa reflexão, o ser humano se torna apenas o resultado da opinião alheia. Se torna uma espécie de animal-teste de uma gaiola pavloviana qualquer. Vive por que está vivo, trabalha porque tem que trabalhar, se autoescraviza em sua zona de "conforto", que nada tem de confortável, e sequer enxerga as correntes que o prendem.

Vejo o medo como sendo um dos principais meios de controle da nossa sociedade. Assim como, no livro, a voz hipnopédica condiciona o indivíduo a buscar o prazer infantil, ter asco de tudo o que é natural e orgânico, e envergonhar-se diante da hipótese do amor, o medo nos cega e nos condiciona. O medo de ser repreendido nos leva ao comportamento, o medo de decepcionar o outro nos leva a sacrificar a nós mesmos, o medo de nao ter emprego nos leva a aceitar a exploração, o medo de fracassar nos impede de tentar, o medo da solidão(e esse exemplo se mostra tal qual ao do livro) nos leva a ser como todos os outros. E como bem lembrou Fernando Pessoa, em seu pseudônimo Álvaro de Campos: "Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa! E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!".

O medo nos compele a viver amontoados em cidades mal construídas, nos faz construir muros físicos e psicológicos cada vez mais intransponíveis, nos isola e nos abate, quase que nos roubando a verdadeira vida. O medo de voltar atrás, nos impele a ir sempre em frente, mesmo que já não haja esperança no caminho escolhido.
O medo se alia ao orgulho, à maldade, ao conforto.

O conforto é outra forma de controle. A busca pelo conforto, maior até mesmo do que a busca pelo prazer, nos acomoda e nos estaciona na linha evolutiva da humanidade. Ao invés de buscarmos algo melhor em todas as esferas, física, psíquica, espiritual, tecnológica, social, nos conformamos em ficarmos onde estamos, afinal o sofá é aconchegante, a comida deliciosa chega em 30min; a TV tem mais de 300 canais, e as redes sociais nos suprem a necessidade de "conhecer" o outro; a fé cega extingue todos os problemas do mundo, pois o destino e tudo o que existe é a vontade de Deus; as possibilidades tecnológicas não importam, desde que os meus aparelhos funcionem bem, não importa a que preço; e a fome e a miséria estão tão distantes dos meus muros, que não há meio de ajudar.

Soma-se a isso tudo, 4 comprimidos de meio grama de soma, ou no nosso caso, cerveja, vodka, maconha ou outra droga qualquer. O churrasco que diverte e tira a atenção do trabalho e demais preocupações da vida, esgota também a energia, até que, na tão odiada segunda feira o trabalho, a mais respeitada instituição da vida moderna, tome para si essa tarefa de sugar constantemente a energia vital de todos.

Para fechar usando mais uma vez os pensamentos de Álvaro de Campos: "Deixa-me tirar a gravata e desabotoar o colarinho. Não se pode ter muita energia com a civilização à roda do pescoço...

Agora, sim, partamos, vá lá prà frente."