10 Documentários Para Entender o Punk

Danilo Carbone
Aug 29, 2017 · 8 min read

Mais Punk, por favor!

Nenhuma outra manifestação artística foi tão incisiva e agregadora quanto o Punk! A desilusão e a pobreza da classe trabalhadora no final dos anos 1960 levaram aquela geração a um nível de letargia brutal. Na política o mundo vivia uma onda de conservadorismo e o discurso reacionário era mais forte do que nunca.

Nas artes era o mais do mesmo: o sonho hippie tinha chegado ao fim depois da tragédia que rolou no show dos Stones em Altamont. O rock estava uma chatice só com tanta erudição e solos de bateria de 20 minutos. Ainda bem que The Stooges, Velvet Underground e David Bowie estavam lá para imprimir um pouco de fúria e bizarrice nisso tudo!

Musicalmente ele é o filho pródigo que todos querem ter. Se de um lado os americanos reivindicam a criação para os New York Dolls ou Ramones, do outro os ingleses atribuem ao lançamento de God Save The Queen, segundo single dos Sex Pistols (ou seriam Malcolm McLaren e Viviane Westwood? ) o marco zero do movimento. Mas como quem adora esse tipo de discussão são os historiadores musicais, vamos deixar que eles se resolvam, não é mesmo?

O que importa aqui é outra coisa: No começo o conceito de “Destruir para Construir” estava mais para “Só Destruir”. A anarquia se fez presente e, a partir do momento que as bandas começaram a introduzir soluções para os problemas sociais em suas letras, o movimento ganhou consciência e amadureceu. O Punk te ensina a não ser um idiota e é um antídoto ao crescente cenário de ódio e intolerância que toma conta do mundo.

Longe de uma crise de meia idade, o Punk completa 40 anos e para homenageá-lo criamos uma lista com 10 documentários que abordam o assunto de forma direta ou indireta. Confira!

1- Punk: Attitude ( Don Letts, 2005)

Se tem um documentarista que transmite credibilidade ao falar do Punk, este cara é o Don Letts (juro que ainda faço um Diretor da Semana sobre ele). O britânico foi DJ e agitador cultural na Roxy, lendária casa de shows da Inglaterra. Foi ele quem apresentou o reggae aos punks ingleses e, se um dia o The Clash gravou Rock the Casbah, Don é o responsável. O documentário traça uma linha do tempo desde a criação do rock nos anos 1950 até a explosão do grunge nos anos 1990 para mostrar os influenciadores e os influenciados do Punk Rock sem ser pretensioso em momento algum. Os entrevistados são um show a parte. Wayne Kramer (MC5), Thurston Moore (Sonic Youth), Darryl Jenifer (Bad Brains) e John Cale (Velvet Underground) só para citar alguns. Ah, o Henry Rollins é tão figuraça que é impossível não cair na gargalhada com os pontos de vista dele!

2 — Botinada — A Origem do Punk no Brasil (Gastão Moreira, 2006)

…” Nós estamos aqui para revolucionar a música popular brasileira, para dizer a verdade sem disfarces ( e não tomar bela a imunda realidade): para pintar de negro a asa branca, atrasar o trem das onze, pisar sobre as flores de Geraldo Vandré e fazer da Amélia uma mulher qualquer”.

Foi com essas palavras de Clemente Nascimento, vocalista dos Inocentes e mais uma porrada de bandas, que o Punk brasileiro ganhou seu primeiro e mais significativo manifesto. Dirigido pelo grande Gastão Moreira — aquele mesmo da MTV das antigas — o documentário é uma espécie de inventário do movimento no Brasil e mostra como a molecada da periferia estava de saco cheio da MPB e desiludida com a falta de oportunidades em meio ao regime militar. Está tudo lá: os pioneiros, os primeiros shows, a repressão policial, as tretas entre o pessoal de São Paulo e do ABC e o lendário Festival O Começo do Fim do Mundo, evento que entrou para a história do Punk mundial. O Gastão conseguiu falar com quase todo mundo e os depoimentos te transportam para a época de forma brilhante!

3 — Salad Days: A Decade of Punk in Washington, DC 1980–1990 (Scott Crawford, 2014)

Imagina um monte de moleques entediados vivendo em uma cidade dominada pela criminalidade, tensões raciais e níveis de desemprego nunca antes vistos. De um lado a miséria e do outro a Casa Branca. Para piorar Ronald Reagan era o Presidente dos Estados Unidos e símbolo máximo do conservadorismo castrador. A necessidade de ragir a um ambiente de paranoia e violência deu início a uma das cenas mais estimulantes do Punk: o Washington DC Hardcore.

Essa cena representou uma mudança significativa para o amadurecimento do punk. Se boa parte da primeira geração de 1977 optou por uma postura autodestrutiva, o pessoal de DC agregou o vegetarianismo e o não uso de drogas ao seu estilo de vida. O som ficou mais rápido e brutal. O engajamento em questões políticas e sociais de bandas como Minor Threat, Rites of Spring, Fugazi e Bad Brains redefiniu conceitos e ajudou a criar unidade dentro da cena. Eles aprenderam com a anarquia e o Faça Você Mesmo a articular lançamentos de discos — a Dischord Records é o maior símbolo dessa iniciativa — e organização de shows.

Poucos documentários conseguiram captar a essência de uma década tão prolífica para o rock alternativo quanto este Salad Days.

4 — The Decline of Western Civilization (Penelope Spheeris, 1981)

No Brasil o documentário recebeu um título que sintetiza a visão conservadora de quem acompanhava o punk do lado de fora: Juventude Decadente.

A Califórnia do “Peace and Love” foi tomada de assalto pelos punks e virou celeiro para bandas como Black Flag, X e Circle Jerks.

A icônica diretora Penelope Spheeris criou um retrato visceral e definitivo do que era ser jovem ao captar o espírito de inconformismo em meio à crescente onda de conservadorismo americano. As performances selvagens ao vivo em clubes podres ainda hoje são capazes de impressionar pela crueza.

O filme chegou a ser proibido em alguns lugares dos Estados Unidos quando foi lançado, mas nos últimos anos ganhou status de cult e hoje é merecidamente reconhecido como o documento de uma época.

5 — Burning Down the House: The Story of CBGB (Mandy Stein, 2009)

Falar de punk rock e não falar do lendário CBGB é uma heresia!

O pequeno e mal-iluminado clube nova iorquino recebeu os primeiros shows dos Ramones, Patti Smith, Talking Heads, Blondie, The Dead Boys e Television. O documentário é dá uma boa ideia do que foram os dias de glória da MECA do Punk americano. Vale pela quantidade de imagens raras de bandas seminais, mas está longe de ser espetacular!

6 — Guidable — A Verdadeira História do Ratos de Porão ( Fernando Rick e Marcelo Appezzato, 2008)

Formada em 1981, a banda Ratos de Porão é uma verdadeira instituição do rock nacional. Os caras lançaram o primeiro LP de hardcore punk da América Latina, o sensacional Crucificados Pelo Sistema e iniciaram uma trajetória regada a música extrema, drogas e muita, mas muita podreira mesmo!

A ideia do documentário veio depois que a gravadora da banda censurou um clipe dirigido pelo cineasta Fernando Rick por ser muito violento.

Os depoimentos honestos e sem frescuras de ex-integrantes e da galera da formação atual passam a limpo como foi o início no punk, a transição para o metal e as acusações de traição do movimento. Imagens de arquivo raras e inéditas auxiliam na construção de uma narrativa deliciosa cheia de causos que ajudam a explicar toda a mítica ao redor deles. Vale cada segundo!

7 — The Punk Singer (Sini Anderson, 2013)

Kathleen Hannah é uma força da natureza!

Durante o período em que cursou faculdade de fotografia teve alguns de seus trabalhos censurados pelos professores ao serem considerados inapropriados. O conteúdo contestador de suas obras atacava diretamente a sociedade patriarcal e o machismo.

Como vocalista e compositora da banda Bikini Kill, Hannah criou hinos de empoderamento feminino e ajudou a fundar o movimento Riot Grrrl no início da década de 1990.

O documentário dirigido pela americana Sini Anderson conta como ela se tornou porta-voz de uma geração ao desafiar o status quo da cena hardcore punk até então dominada pelos homens.

A vida pessoal da artista ganha traços dramáticos com a revelação de que uma doença rara e tardiamente diagnosticada a afastou dos holofotes.

The Punk Singer é um belo exercício para entender um pouquinho sobre a importância do legado de Kathleen Hannah e como seus ideais permanecem atuais e super necessários.

8 — Gimme Danger (Jim Jarmusch, 2016)

Sou suspeito para falar de Gimme Danger. Trata-se de um documentário sobre minha banda favorita dirigido por um dos meus cineastas favoritos.Fui ao cinema com aquela sensação de jogo ganho e, sério, o filme é maravilhoso!

Iggy and The Stooges é uma das bandas mais injustiçadas do rock em todos os tempos! Seus discos nunca alcançaram o sucesso comercial, muito pelo comportamento selvagem e drogado de seus integrantes e pela música suja.

Jim Jarmusch também é fã! Sua direção estabelece uma relação de intimidade entre o espectador e cada um dos entrevistados, principalmente com Iggy Pop, todo à vontade contando causos hilários de jeans e chinelão.

A espontaneidade dos depoimentos e as raríssimas imagens de arquivo iluminam pontos até então obscuros da carreira da banda.

Nada fica de fora! Os relacionamentos conturbados, as drogas, a selvageria de cada apresentação ao vivo, o fracasso e por fim o reconhecimento. O Punk Rock não existiria sem Iggy Pop, Ron e Scott Asheton, Dave Alexander, Steve Mackay e James Williamson!

9 — End of Century, a História dos Ramones (Michael Gramaglia e Jim Fields, 2004)

A família disfuncional que amamos, os Ramones viviam em pé de guerra — para se ter uma ideia Johnny, o guitarrista e Joey, o vocalista ficaram quase 20 anos sem se falarem depois que o primeiro tomou a namorada do segundo e se casou com ela.

Mesmo não sendo grandes amigos e com relacionamentos aos frangalhos, eles conseguiram inserir a banda na história do rock como uma das maiores e mais influentes em todos os tempos.

O documentário aborda a carreira da banda de forma tão sincera que dói. Os depoimentos dos integrantes expõe sem pudor algum anos de mágoas e verdades não ditas.

End of Century é intenso e esclarecedor!

10 -The Filth and The Fury (Julien Temple, 2000)

O documentário destrincha a curta e contundente carreira dos Sex Pistols desde a sua criação pela mente do empresário Malcolm McLaren até o final dramático com a morte do baixista Sid Vicious. Os caras tentaram voltar várias vezes, mas o sucesso e a revolução que eles causaram no Reino Unido e no mundo nunca mais se repetiu. Eu particularmente não sou fã da banda, mas coloquei na lista porque não fosse por eles, toda a estética do Punk não teria existido. The Filth and The Fury é dinâmico e explicativo e vale a pena ver como a atitude, o visual e a rebeldia foram milimetricamente construídas para causar.

Curtiu a lista? Faltou algum documentário? Deixe o seu comentário!


Originally published at cinetoscopio.com.br on August 29, 2017.

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Danilo Carbone

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Jornalismo diletante. Música, Cinema, Literatura e Artes em artigos, resenhas e divagações.

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