AMERICAN IV — PARTE 1

“I’d like to wear a rainbow every day, and tell the world that everything is o.k. But I’ll try to carry off a little darkness on my back. Until things are brighter, I’m the Man in Black.”

Johnny Cash

O HOMEM APARECE

— Bate nele! — É, acerta ele! — Vai! — Vai!

A multidão no pequeno ginásio estava alvoroçada. Natural, afinal já se passara tanto tempo sem este tipo de combate — por diversão, por brincadeira — que eles já haviam até esquecido como era. Combate, para o grupo que estava ali, era o fuzil na mão, baionetas bem afiadas, muitos gritos e caos perfazendo os pequenos momentos de solidão patriótica enquanto ficávamos largados em pequenos bosques no interior do país que inventara o lema “um por todos, todos por um”. Aquela guerra nunca tinha sido minha, nem seria. Eu gostava mais do que estava fazendo agora e aqueles malditos alemães tiraram minha chance de uma bela carreira — talvez de ser campeão de peso-leve. Agora eu lutava aq ui, num ginásio apertado e ainda tinha que lidar com aquele maldito suvenir prateado que estava alojado na minha coxa esquerda e John, o
médico de combate da Infantaria, havia dito que não era o caso de remoção. O pior de tudo é que aquilo ainda doía pra cacete.

FERIR

— Bate nele, Sam. Que diabos! Você está parecendo uma moça ali!

Esse era Reznor, meu companheiro de batalhas que se denominara meu treinador de boxe nas horas vagas. Eu nunca pedi, mas ele estava tão empolgado com sua nova carreira” que nem liguei. Enfim, sempre faltou diversão nesta porra de lugar e apesar de todos os pesares, era isso que importava no final das contas, não? camaradagem.

— Sua perna está incomodando? Se estiver, fique parado, espera ele chegar perto e solta o braço. Lembre-se: solte o braço. Já vi você derrubar um jerry¹ com os punhos. Não vacile agora. Sem dor. Sem dor!

Inferno, derrubar um jerry com um soco. Aquele maldito irlandês O’Riordan acabou com a minha vida quando quis bancar o herói. Sim, aquilo foi um dos piores momentos que já vivi. Noite pesada, calor abafado pelos campos queimados, a batalha tinha sido cruel. Do nosso grupo, catorze morreram e estávamos lá parados, esperando o amanhecer para tentar uma nova investida. Algum manda-chuva falou que aquela posição era crucial para toda a tática de invasão e que teríamos que tomá-la, custasse o que custasse. Se o preço fosse a vida do esquadrão, que fosse. Aquilo ali tinha que ter bandeira norte-americana até o final do dia seguinte. Até parecia fácil, afinal fomos em cinquenta e a inteligência havia dito que naquele local não tinha mais do que trinta jerrys — colocados estrategicamente para retardar nosso ataque contra a base de Lille. Não era irônico? Nós ali, com criminosos urbanos mais violentos do que qualquer um poderia imaginar e tendo que tomar uma tal de St. Quentin? Alguns generais gostam, mesmo em guerra, de fazer piadas. Em especial o puto do general Presley, aquele almofadinha que não fazia absolutamente nada, mas ganhava todos os louros de nossas vitórias conquistadas na raça. Pra ele era tudo muito fácil, tinha sido preparado a dedo, selecionado pro cargo. Ele ordenou um ataque noturno. Nem os alemães queriam saber de guerra no meio da noite, com aquele cheiro de queimado, aquele misto de churrasco humano com grama. Nosso alfa garantiu que antes do raiar do sol, deveríamos partir para cima, não importava que eles estivessem lotados de MG42.

Deitado em minha trincheira, sentia a lama escorrer pra dentro do uniforme. Aquela sensação era pra lá de ruim, quando algo molhado começa a secar, criando uma crosta que parece te segurar. Talvez fosse um sinal de Deus tentando nos segurar, parar com aquela putaria toda. Afinal, eu era um country-boy, queria saber mais de minhas Buddies e meus Luckys do que estar perdido no meio de uma floresta na França. Que diabos, França… Nunca quis, nem me imaginei aqui. Mas cá estou matando alemães porque dizem por aí que eles são maus, bem maus. Eu também sou mau, poxa vida. Do meu jeito, é claro. Eu gosto de ferir pessoas, foi um hábito que adquiri desde criança, quando descobri que poderia falar o que quisesse e ganhava sorrisos largos de meu pai, incentivando minhas pequenas verdades mirins.

E o gosto de mentira travestida de sinceridade impregnou-se em minha boca e, agora, já é tarde demais. Não vou deixar nunca de fazer isso. De fato, eu cultivei como hobby. Algumas pessoas gostam de mascar tabaco, outras de colecionar figurinhas de beisebol. Eu gosto de ferir. E apesar de ferir semanticamente, com palavras, adorei a sensação do toque de Rose quando a colocaram em minhas mãos. Agora eu tinha Rose. E poderia ferir pessoas. De verdade.

MEU AMOR POR ROSE

— Sam? — Sim? — Quando será o ataque? — Se eu soubesse seria o líder deste pelotão, O’Riordan. — Acho que você tem razão. — Nem sei seu eu tenho, cara. Eu só quero acabar logo com isso e tomar a porra de um banho. Não agüento mais tanta lama aqui. — Seu pé melhorou? — Mais ou menos. Não consigo manter as meias secas, perdi todos os meus pares extras lá em Évreux. Depois disso, você se lembra, né? Só trincheiras, trincheiras, trincheiras… — Quando será o ataque? — O’Riordan, já disse que não sei. Quando será, será, ok? — Eles estão lotados de MG42. — Eu sei. O Roy sabe, o Carl e o Jerry sabem disso. Já esqueceu? Eles não, pois ainda estão lá estirados. Dá pra ver daqui. — Ei, cara, desculpe. Só estou querendo conversar um pouco. — Me faça um favor, O’Riordan. Cale sua boca irlandesa.

Este clima de espera é o pior que pode acontecer. Do outro lado, ouviam-se as risadas dos malditos nazistas que pareciam bem, confortáveis pra cacete, provavelmente esperando que algum de nós fosse buscar os corpos de nossos companheiros. Poderia parecer uma grande bobagem, mas sempre fazíamos isso. Carl e Jerry morreram justamente porque foram tentar ajudar Roy. Eu não quis, fiquei olhando porque, claro, eu já sabia o que iria acontecer. Como num sonho, Roy tombou. Jerry gritou “Go,
Cat, Go” e Carl, apelidado de “o gato”, tentou buscar nosso novato caído. Outro tiro o derrubou pra sempre. Jerry também tentou ajudar. Se jogou no chão, rastejou, esticando seus braços loucos, e quando Jerry levantou a cabeça para olhar, não deu outra, um jerry acabou com o nosso. Sua cabeça virou uma grande bola de fogo tamanha a quantidade de balas que o penetraram, explodindo na hora. Não que não me importasse. Os três eram do tipo de caras que gostaria muito de ter ao meu lado nesta brigalhada toda, mas eu ainda não estava pronto para morrer. Não ainda.

Ouço passos abafados pelas folhas úmidas ao lado da trincheira. Era Ray, o líder do pelotão. Ele pula, rápido, no buraco.

— Vocês dois, prestem atenção. Vamos atacar. — Como será isso tenente? — perguntou O´Riordan. — Luther, Marshall, Clement e Phillips vão flanqueá-los. Vocês dois, Billy ali, Rubin e Reznor mandam balas nos filhos da puta. Uma chuva delas. Quero balas pra todos os lados. Vamos pegá-los, ok? — Sim senhor — respondeu O´Riordan. — Certo, Sam? — Claro tenente Ray. Claro. — Só mais uma coisa, garotos. — Sim? — Não se preocupem com sobreviventes. Desta vez, nada de jerry prisioneiro. Quero todos mortos. — Pode deixar, senhor. É isso mesmo que eu quero — respondi.

Estávamos quase prontos. Era só esperar o sinal que Luther, Marshall, Clement e Phillips nos dariam. Fumaça vermelha, daquela que parece uma cortina desbotada de cabaré fuleiro. O sinal perfeito para que Rose e eu façamos amor.

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