A menina que virou formiga e tragicamente morreu afogada (primeira parte)

Alana não gostava muito e ir à escola. Na verdade, ela não gostava muito de muita coisa, mas ir à escola era terrível. Tinha que calçar sapatos, detestava amarrar cadarços. Tinha que pentear o cabelo, mas mesmo assim não o fazia com frequência. Gostava dele bagunçado. Ela ia descendo a rua de paralelepípedos, a mochila sambando nas costas, uma música do Gorillaz na cabeça, tão distraída que quase não ouviu as risadinhas às suas costas. Olhou para trás: um menino de cabelos curtos e sorriso cínico ladeado por duas garotas falava em voz baixa, tapando a boca com a mão. Alana voltou a atenção para seus passos e para a música na qual estava pensando. Tinha gravado uma fita cassete havia uma semana, e a ouvia todo dia desde então.

Nessa época ainda era fácil encontrar em lojas aparelhos que tocavam esse tipo de coisa. Já perto da entrada da escola, ela abriu um dos bolsos da mochila e retirou um cartão. Todos os alunos tinham um, e era uma maneira de controlar a presença nas aulas além de servir como identificação. Passou pelo porteiro, que pegou o cartão e digitou algo no computador. O pátio estava apinhado de gente. Alana os observava ansiosa enquanto esperava. Obrigado, disse o porteiro, devolvendo-lhe o cartão.

Ela atravessou o pátio sob olhares de alguns alunos. Acontece que, além de despenteados, seus cabelos eram de cor natural laranja, e seu rosto tinha algumas sardas. Além disso ela usava uma jaqueta jeans sobre a camiseta da escola e sua calça era rasgada nos joelhos. Isso chamava atenção. Apesar de ter seu encanto, ela parecia esquisita aos olhos dos outros por ser a única a se vestir daquela maneira. Ou quase a única, porque havia um cara que usava camiseta de banda por baixo da farda e tinha cabelos ensebados. Mas eles ainda não se conheciam. A propósito, aquele era o primeiro dia de aula, e Alana pôde ver que havia muitos rostos desconhecidos enquanto passava pelo pátio. Ela passou por um grupo que conversava alto e ria descontraidamente, e chegou na cantina da Dona Roberta. Era uma senhora de quase meia idade com olhos sorridentes e ao mesmo tempo sábios, com rugas embaixo. Ela atendia uma dupla de aluninhos irrequietos da quinta série, mas não deixou de notar a presença da menina. - Oi, meu anjo - disse. Oi, Dona Roberta, respondeu uma Alana timidamente sorridente. Passou bem as férias? continuou a senhora. Uhum. Alana vasculhou o bolso da calça e tirou alguns trocados. E papai, como vai? continuou dona Roberta, no que a menina respondeu dizendo que estava meio ocupado. A senhora terminou de atender os meninos e já foi retirado um pastel de forno de queijo que era o que a estudante costumava comprar.

Mande lembranças a seu Arthur, disse suavemente a cozinheira. Alana balançou a cabeça em afirmativa, mordiscando o pastel. Passou o olho pelo pátio à procura de um lugar para sentar. O banco largo de pedra que ficava ao longo da parede tinha alguns espaços vagos. Ela foi para um deles, um que ficava oculto por uma palmeira. Olhou de esguelha para o pulso da menina sentada ao lado, apertando os olhos para enxergar a hora. Faltava quinze minutos para a primeira aula. Pegou na mochila uma revista. Na capa, três caras, um deles de cabelo roxo com uma camiseta onde se lia CORPORATE MAGAZINE STILL SUCKS e um moletom verde-musgo por cima. Três menininhas passaram agitadas cochichando sobre um filme que viram no fim de semana. Alana folheou a revista. O conteúdo era letras de músicas e algumas histórias. 
Ela leu uma dessas e, ao terminar, lembrou que tinha esquecido de ver em que sala iria ficar nesse ano. Foi quando começou um burburinho e alguns dos alunos que sentavam perto levantaram para espiar a entrada da escola. Alana não enxergava por causa da palmeira, então se levantou. Algumas pessoas ainda bloqueavam sua visão, então ela guardou a revista de qualquer jeito e abriu caminho até poder ver o que tomava a atenção de todos. Suas sobrancelhas saltaram e ela quase deixou cair o resto do pastel: parado na entrada do pátio havia um grupo bem peculiar. Um menino de cabelos desgrenhados e piercing no nariz, outro de cabelos negros espetados, vestido com calça de couro, uma menina de cabelo curto pintado de lilás e outra de trança afro. Os quatro ficaram parados olhando para os curiosos.

A menina de tranças deu uma risada. Uma quinta pessoa se juntou a eles - tinha o cabelo liso que chegava no pescoço e era bem bonito. 
Algumas meninas cochicharam entre si, e o grupo de novatos começou a atravessar o pátio sob os olhares inquietos. Ao passarem por Alana, um deles - o de cabelo espetado - sorriu e disse um oi, totalmente descontraído, no que a menina não soube como responder. Continuaram andando em direção à sala da coordenação. O sinal tocou e alguns alunos começaram a se dispersar. Alguém tocou o ombro de Alana, e ela virou: era uma menina que usava óculos e tinha cabelos cacheados. Oi, disse ela, sorrindo. Íris, respondeu Alana.

As duas se abraçaram. Eram amigas havia dois anos. Estamos na mesma sala, disse Íris sorridente. Vamos, eu já vi onde é. E pegou a mão de Alana, que ainda segurava o pastel com a outra. Seguiram pelo pátio até uma das escadarias que levava ao primeiro andar. No corredor, alunos consultavam as listas de nomes coladas próximas à entrada das salas. Passaram por três salas e entraram na seguinte. A professora de Biologia já estava sentada de frente para sua mesa, lendo.

Metade da sala já estava ocupada. As duas meninas sentaram na segunda fileira. Alana deslocou a cadeira pra ficar mais perto da amiga. Íris a fitou nos olhos. Os olhos por trás dos óculos eram castanho-claros, e foram refletidos pela luz que se infiltrava pelo vidro da janela. Por algum motivo as bochechas de Alana enrubesceram e ela desviou o olhar bruscamente. Sentiu o coração bater desordenadamente. O que era aquilo que estava sentindo? O cabelo da sua nuca arrepiou ao som da voz de Íris "Tá tudo bem?" Alana respondeu que sim em voz baixa e se levantou. Pediu à professora licença para ir ao banheiro e saiu. Passou pelo corredor quase vazio e entrou no banheiro, parando de frente para o espelho. Apoiou as mãos na pia de pedra, arqueando o corpo até quase encostar no vidro. O coração ainda tamborilava, mas com menos força agora. Abriu a torneira e aparou a água com as mãos em concha, jogando no rosto. Tá tudo bem, disse a si mesma. Pegou um pouco de papel-toalha e se enxugou. Na saída do banheiro, esbarrou no ombro de um rapaz - olha por onde anda, esquisita, reclamou ele. Alana não o respondeu. Era um conhecido babaca que não ia muito com a cara dela, assim como outros que a importunada de vez em quando.

Ao voltar para a sala, a professora já estava escrevendo no quadro. O assunto estava escrito em letras garrafais: REINO DOS FUNGOS. A menina esquadrinhou a sala com os olhos e parou de chofre: no canto da sala estavam sentados três pessoas do grupo de novatos que chamara a atenção dos alunos mais cedo - as duas meninas e o garoto que se juntou a eles por último. A professora observava Alana por trás dos óculos e chamou sua atenção - Algum problema, Alana? A menina então voltou de sua distração - Não, 'fessora - e foi se sentar. Tirou o caderno da mochila sob o olhar da amiga. - Tem certeza que cê tá bem? - quis saber Íris. Sim, sim, a outra respondeu. Eu também fiquei surpresa quando eles entraram na sala, continuou Íris, e, baixando um pouco a voz, quase num sussurro, disse: eles são tão descolados. Alana girou o pescoço lentamente. A menina de tranças afro percebeu sua curiosidade e lhes sorriu. A aula transcorreu ruidosa com os cochichos constantes dos alunos e terminou pouco mais de quarenta minutos depois, quando a professora deu uma pausa de dez minutos antes de entrar o outro professor. Íris chamou a amiga para irem tomar água. As duas passaram pelo corredor e desceram as escadas. A tarde estava agradável com um sol preguiçoso. Não fazia muito calor. Havia bebedores enfileirados. Sempre quando faziam algum tipo de reforma neles a água ficava com gosto de cola por uns três dias. Íris bebeu primeiro e levantou o polegar pra indicar que tava tudo ok.

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