O menino da bicicleta

Era um dia ensolarado no pequeno bairro Marechal Deodoro. Apesar de pequeno, fazia parte de um dos maiores conjuntos urbanos do país. O trânsito estava bastante movimentado; os carros enfrentavam um engarrafamento quando uma bicicleta despontava por entre alguns deles.

Eduardo conseguira um machucado no joelho após cair depois do pneu ter batido numa pedra. “Que dor!” reclamava enfaticamente. Pedalava devagar com receio de ganhar um novo machucado ou de magoar o que já tinha. Queria chegar logo em casa para que sua mãe colocasse algum remédio e fizesse um curativo. Mesmo andando devagar, ele bateu de leve no retrovisor de um automóvel.

- Olha por onde anda, moleque! — bradou o motorista. Eduardo se desculpou timidamente. Ele carregava pendurado no guidão uma sacola contendo pacotes de biscoito e algumas bolinhas de gude. Subiu a calçada ao avistar a locadora de filmes da Dona Márcia. Estacionou a bicicleta encostando-a na parede e entrou para ver os lançamentos — ficavam logo próximos à entrada. Os filmes mais antigos ficavam ao fundo.

Nesta locadora não havia uma sessão de filmes adultos pois a Dona Márcia não queria que crianças ficassem bisbilhotando as capas com imagens pornográficas enquanto ela não estivesse tomando conta do local. Quem estava no balcão naquele momento era sua filha Clarisse, de 13 anos. Ela sabia tocar a locadora muito bem. Conhecia praticamente todos os títulos e passava troco pois não havia tesouraria — ela era, assim, a tesoureira.

- Tem um filme muito bom que eu aposto que você não viu ainda — disse Clarisse para um cliente que estava devolvendo algumas fitas VHS. — Logo ali no final do segundo corredor na prateleira de cima, o terceiro da direita para a esquerda.

O cliente foi até o local indicado para dar uma olhada. Eduardo se aproximou do balcão.

- E aí, Eduardo, belê? — falou Clarisse.
- Poxa, nada de novo! — respondeu ele, chateado.
- Você nem viu tudo o que tem ainda. E sabe que geralmente só chega filme novo na terça.
- Vai jogar videogame hoje na casa de Carlos? — perguntou Eduardo mudando de assunto bruscamente. Seria algo inesperado se não tivesse partido de uma criança.
- Talvez. Minha mãe foi levar meu irmão no médico, não sei se ela vai voltar cedo.
- Tá bom. Vou nessa, tchau! — a ferida de Eduardo voltou a doer, e ele pegou novamente a bicicleta para voltar para casa.

A algumas centenas de distância dali, numa pequena feira, estava sua mãe Laura. Ela tinha ido comprar algumas frutas e verduras. O vendedor era um senhor gordinho calvo com uma bigodeira grisalha. A cada tipo de fruta ou verdura em que Laura chegava perto, ele dizia energicamente que estava muito boa ou que ela não podia ter escolhido melhor e coisas do tipo. Após escolher algumas laranjas, ela o pagou e seguiu pelas barracas da feira à procura de verduras.

Levou pouco mais de vinte minutos para deixar o lugar. Iria passar na farmácia para comprar alguns comprimidos para dor de cabeça. No meio do caminho, saindo de uma vendinha de doces, ela avistou uma amiga. A mulher estava indo em direção a uma caminhonete quando a percebeu.

- Laura, querida, há quanto tempo! Como está? — perguntou a mulher, que carregava uma caixa de isopor.

- Oi, Marta. Estou bem, e você?
- Estou muito bem, melhor impossível.
- E como está o Laertes? — era o filho dela.
- Ora, está muito bem. Ele viajou para os Estados Unidos faz uma semana. Tão esperto, está se virando muito bem por lá. E Eduardo, como está?
- Está bem. Estava com uns problemas na escola, mas já resolveu. Estava de recuperação.
- Entendo… acontece, não é, querida? ele vai passar. — houve um breve silêncio que antes de se tornar constrangedor, foi quebrado por Marta — Bom, tenho que me apressar senão o sorvete vai derreter, ha, ha, ha. Até logo meu bem.
- Até.

Apesar do encontro breve, as duas costumavam ter conversas mais longas, principalmente quando Marta convidava a amiga para tomar café na sua casa. E seus filhos se davam bem juntos.

Eduardo acabava de chegar em casa e encontrara a porta trancada. Tateou os bolsos e lembrou que tinha esquecido as chaves dentro da casa. Como não sabia quanto tempo sua mãe iria demorar, decidiu dar mais algumas voltas na bicicleta. Foi até a praça onde costumava brincar com os amigos. Recostado a uma árvore, estava Marrom, um menino que tinha mais ou menos sua altura. Ele olhava detidamente as esferas de gude que acabara de comprar. Havia uma porção espalhada pelo chão. Ele gostava principalmente das chamadas carambolas. Tinham esse nome porque a parte de dentro era pintada num formato que lembrava a fruta. O menino girou o pescoço ao perceber a presença do amigo.

- E aí, Edu, beleza?
- Beleza. Vamo jogar?
- Vamo. — Marrom não deixou de notar a ferida no joelho dele. — Não acha melhor colocar um curativo aí?
- Não. Só tá doendo um pouco. Eu aguento.
- Então tá.

Os dois espalharam algumas bolas na terra batida e riscaram nela um triângulo e uma linha. Meia hora depois Clarisse apareceu.

- E aí, seus otários — cumprimentou-os.
- Olha nossa freguesa — Respondeu Marrom.
- Só se for em outra vida, meu filho.

Os três dividiram as bolas entre si e as espalharam no triângulo.

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