Madrugada de carnaval

passada as 3h00min da manhã

à essa altura, as pessoas na rua já estão bêbadas

drogadas

trepando com desconhecidos

vivendo suas vidas incompletas

esvaziando-se na avenida


no meu quarto escuro e com cheiro de cinzeiro

eu escuto ao longe seus gritos de comemoração

[ou são de desespero, pedidos de socorro codificados?]

eu encaro a parede sem vida

esperando uma resposta para as minhas questões

que carrego comigo desde sempre


ouço o trio elétrico tocar outra música de axé

a parede continua em silêncio

encho meu copo empoeirado com café

e volto a escrever

“o mundo está virado em um caralho” - eu digito


parece uma grande sacada

o momento “eureca” de um gênio ploretário

um retardado do ensino primário

“palavrões não são bonitos”, dizia minha ex

mas não havia problema, eu pensava

enquanto me via dentro dos seus olhos alaranjados

“o mundo também não é, meu bem” - eu respondia


madrugada de carnaval

passada as 3h00min da manhã

à essa altura a existência das pessoas não tinham significado

muito menos a minha