Um anjo no meio do inferno

Despedidas nuna foram difíceis pra mim

mas eu nem sabia seu nome

tudo aconteceu muito rápido

a noite com ela fora memorável


parei em um boteco às 22h00min

eu só queria voltar bêbado para casa

a vodka e o Marlboro tem sido meus únicos amigos

nos últimos 17 meses


ao me divorciar da Ane

e reatar com o alcoolismo

perdi os amigos mais próximos por causa da primeira

e minha família, por causa da segunda


a música naquele pulgueiro era horrível

os clientes, mais ainda

o ar cheirava à Gudang

e a camisinhas de posto de saúde


pedi uma garrafa de Natasha

suicídio me parecia um fim digno

sentei-me na banqueta, de costas para a Tv

e a vi entrar


um anjo no meio do inferno

a pele negra lustrosa

dreads trançados (eu sinceramente não sei o nome dessas merdas)

batom roxo

calça justa e um coturno marrom


ela sorriu pra mim, se achegando

“você parece disponível para dividir essa garrafa”, ela disse com sua voz fina

tossi, acendi um cigarro

“eu não pago por algo que posso conseguir de graça”, respondi

“eu tenho cara de puta?” ela se encrespou

“eu tenho cara de quem tá acostumado com uma mulher como você puxando papo comigo?” remendei


ela sorriu de novo


conversamos a noite toda

vida, morte, céu, inferno, politica, viagens, sonhos, ex relacionamentos

ela falou muito mais do que eu

mas eu não me importei por saber que não sou tão interessante


“cê quer sair daqui? Como você se chama?” - perguntei, já bêbado

ela olhou em seu relógio dourado com fitilhas de couro

“preciso ir embora”

seu sorriso murchou por um milésimo de segundo

“vamos manter essa noite assim: sem nomes, sem sexo. Apenas essa excelente conversa” disse ela

“eu sempre achei que certas palavras são muito melhores do que uma foda meia boca”, brinquei

ela se levantou e caminhou lentamente até a porta


provavelmente deus não exista

mas essa noite

um anjo no meio do inferno

salvou minha vida.