Tô de boa

Eu nunca fui o tipo de pessoa que conseguiu ficar de boa na vida. Sempre me achei mais azarado que todo mundo e sempre reclamei em excesso. Era a fila do caixa, a temperatura do tempo, o cabelo que não tava bom, o lugar onde moro, o tempo que levava pra chegar no trabalho, enfim! Coisas cotidianas, coisas sem importância, ou coisas importantes…na verdade eu reclamava de tudo mesmo. É normal reclamar, a gente cresce ouvindo reclamações em casa, na escola, na rua e aprende a reclamar sem pensar que muitas vezes preferimos permanecer na zona de conforto ao invés de fazer algo efetivo pra mudar o que nos incomoda. Ta certo que tem coisas que não temos como mudar, mas será mesmo que se acostumar a estar insatisfeito com tudo a todo momento vale a pena?

De uns tempos pra cá comecei a refletir sobre minhas insatisfações e substituir uma reclamação por uma atitude. Deixei de choramingar pelos cantos por não ter dinheiro pra pagar cursos que gostaria de fazer e fui aprender o que queria por conta própria — não existe melhor recurso para um autodidata que a internet e a vontade de aprender. Parei de deixar que a timidez me impedisse de me aproximar de algumas pessoas, e em troca, vivi experiências novas que jamais teria vivido se tivesse me conformado em não tomar atitude ''porque eu sou assim e pronto!'' Também coloquei um ponto final no sofrimento compulsivo que eu tinha pelas cagadas que já fiz e fui atrás de todas as alternativas que tive pra corrigir meus erros passados e fazer as coisas darem certo daqui pra frente. Nessa questão também entra a humildade, que é saber pedir ajuda, conselho, e principalmente, ouvir o que pessoas mais experientes têm pra dizer, incluindo críticas. Aliás, nunca dei tanto valor às críticas construtivas como agora, aquelas que sempre odiei ouvir por saber que, no fundo, elas faziam sentido e eu não queria admitir por não querer demonstrar vulnerabilidade.

Não gosto de usar pessoas em situações piores como exemplo para dizer que não devemos reclamar da vida, porque isso nunca fez sentido pra mim. Cada um tem seus problemas, suas angústias, uns mais que os outros, mas uma coisa não interfere na outra. Em um momento ou outro a gente vai esquecer que existe fome na África e vai reclamar do gosto do arroz que a gente esqueceu uns minutos a mais no fogo. A questão aqui é outra. Quando por dentro a gente passa a enxergar nossos problemas por outro ponto de vista, e realmente temos vontade de ultrapassá-los, ou muitas vezes percebemos que o que a gente achava que era problema, na verdade não é, tudo muda de figura.

Ficar de boa de verdade é muito mais que se acomodar na vida, ou fumar um baseado e recitar Bob Marley no status do Facebook. Estar de boa é um estado de espírito que só é atingível por aqueles que aprendem a canalizar seus descontentamentos e frustrações para caminhos coerentes.

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