Cidade Velha (2)

Bem que Acauã não percebera a estranha movimentação que rasgava os mares tranquilos da baía. Aquele som era estranho, se comparado com o bater das ondas nas areias, pedras e cipós. A luz cintilante do sol matutino era uma força quase divina estimulando a curiosidade travessa. Acauã, aproveitando as brechas das clareiras, via as caravelas se movendo às areias…onde ele se encontrava. Por que não as outras? Litoral não faltava naquele perímetro. Temendo o pior, o índio subiu na parte mais alta da clareira e lá prendeu a respiração, esperando os visitantes aportarem. Eram homens com a pele muito mais clara que os habitantes da tribo, mesmo queimada pela insolação. Cabelos louros ou morenos, barbas vistosas. Homens estranhos que pareciam ter vindo de muito longe. Acauã não acreditava na visão dos invasores. E entre eles não havia mulheres. Era uma quebra no sossego daquele remanso.


Martim estava atrasado para a faculdade, naturalmente. Mas isso não era impedimento para apreciar a visão da Baía de Guanabara. Quando seus olhos miraram o espaço entre os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar, sentiu um mal estar no coração. Por que aquele lugar lhe trazia tanto incômodo? Era como se o lugar lhe trouxesse lembranças de um tempo em que ele nunca poderia ter vivido. As visões que ele tinha eram de uma outra época, uma paisagem deslumbrante onde ele não era ele, mas um índio. O que isso significava? Aquilo não poderia ser respondido logo, a aula já havia começado há meia hora.

Depois da aula, ele caminhava para a Pfaia Vermelha, onde ele subia a trilha do Morro da Urca para ver o por do sol nos dias de céu limpo. E ele sempre se sentava no mirante do primeiro nível do Pão de Açúcar e se deixa inebriar pela paisagem. Ele nunca entendia o motivo de tanto deslumbramento.