O ÍDOLO DE FEL

A inveja e a fúria, quando se chocam, produzem uma cor mais forte que o fogo, o ar mais fétido que a lava e mostra a chaga dos humanos. Ainda mais se ambas se encontrarem dentro das quatro linhas de um campo de futebol. Houve um caso, já faz tempo, de um jogo de futebol que se elevou mais por um confronto particular do que pela decisão em si. E ele mostrou mais do mundo que qualquer outra situação. Era uma tarde quente no longínquo bairro de Madureira. A Madureira que Arlindo Cruz canta, do Mercadão, jongo, Serrinha, Portela e Império Serrano. Bem ali, no estádio de Conselheiro Galvão, o movimento era maior do que um dia qualquer. Dia de jogo, quero dizer. Era mais do que um jogo ordinário, uma decisão entre dois times que lutavam por uma vaga na semifinal e um combate entre os dois grandes destaques dos times ditos pequenos.

João Romão olhava para o velho campo, conhecido de outras eras, quando ele ainda era um garoto, tendo os primeiros contatos com a bola. Depois, cresceu, sair para jogar no Flamengo e, posteriormente, no Barcelona. Uma trajetória recheada de talento e muitas confusões e rebeldias. Após o contrato rescendido, a relva de Conselheiro Galvão acolheu o filho pródigo novamente, mas os tempos eram outros. A estatura média, os olhos verdes e o jeito bem apessoado ainda lhe abriam portas, mas não muitas. Um antigo rei em busca da redenção. E com um passado terrível nas costas, como todo bom monarca. Ele era cria de Madureira, filho de Dona Dita, quituteira e costureira viúva, querida por todos no morro da Serrinha. Assim que o filho se transferiu para o time catalão, ela perdeu a vida numa invasão policial e a amargura tomou conta do coração do filho.

Do outro lado, um jovem forte, de olhos negros impertinentes, pele morena e espírito infantil olhava para o mesmo campo, mas com a sensação de hostilidade, como se fosse um território inimigo. Com nome de sambista famoso, Ataulfo vinha numa escalada de ascensão árdua e brigada. Também cria de Madureira, refugiou-se em Bangu, fugindo de um triste evento e agora teria uma grande chance de mostrar o seu valor. Enquanto o atacante veterano já passava dos trinta anos, o jovem meia-armador ainda não tinha completado a maioridade, mas já tinha passado por experiências pesadíssimas e guardava um terrível segredo. À medida que os anos passaram, tornou-se um bom armador e estrategista, com um jeito recluso, de poucas palavras e um olhar prestes a explodir.

— Ataulfo, que foi, leke? Tu tá perdidão aí?

— Nada, Vitinho! Viajei, meu mano, nada mais!

— Sem essa! Foca no jogo, nossa chance, pô!

— Show, isso aí! E vai ser meu acerto de contas!

— Com o Madureira? Tô sabendo que eles te largaram de mão…

— Por culpa daquele João Romão de merda…

— Como assim?

— Cê vai saber logo! — E os olhos de Ataulfo brilharam de ódio.

João Romão, rodeado de jornalistas querendo arrancar alguma informação tática dele, era o retrato do astro que gostava de holofotes:

— Bem, o jogo de hoje é decisivo, tudo ou nada! Preparem-se para perder o fôlego, hoje é o dia da vitória e eu serei o responsável por ela!

De repente, o técnico do Madureira veio ao encontro de Romão, dizendo para que ele não se colocasse como único responsável pela vitória, lembrando-o de que ele era parte de um conjunto. Romão não gostou e respondeu que era o astro do time e mostraria isso mais uma vez. De fato, mostrava bem isso, mas fazia tempo que ele apenas se posicionava na grande área, sempre esperando as bolas perfeitas que os companheiros sempre lhe passavam. Mal sabia ele que seu reinado estava por um fio e ninguém mais estava aguentando tal situação.

No lado do Bangu, concentração total. O time era mediano, mas esforçado, além de contar com um o jovem armador, que estava duplamente concentrado. Apesar das poucas palavras, Ataulfo era um bom companheiro e armava para o time. Mas ainda precisava do momento de destaque individual, considerava o técnico do Bangu. Mal sabiam todos que o jogador se encontrava diante do seu passado e que esse fator poderia ser um catalisador tanto para vitória quanto para a tragédia. Por fim, as duas equipes entraram em campo e a festa das duas torcidas era digna de um clássico.

Quando a bola rolou, todos tiveram ideia de que o texto seria mais difícil do que se desenhava. Não pareciam duas equipes pequenas ou limitadas; ao contrário, ambas brigavam muito pela bola, fazendo um jogo digno de um ingresso. Nos primeiros minutos, João Romão e Ataulfo não se esbarram, devido ao fato de ambas as equipes estarem estudando uma a outra. Lá pelos dez minutos de jogo, ocorreu o primeiro encontro, quando Ataulfo deixou um companheiro na cara do gol, mas o goleiro do Madureira agarrou a bola a tempo. Foi quando Romão, malandro do jeito que era, puxou conversa com o jovem meia, numa tentativa de desarmá-lo:

— Então, você é o tal meia do Bangu de que todos falam?

— E você é o tal João Romão, o pica das galáxias do ataque!

— É, minha fama ainda continua, apesar do tempo… soube que você é muito bom, muito bom mesmo, garoto! Vi seus jogos, bem impulsivo e concentrado ao mesmo tempo… dou — lhe os parabéns, mas é uma pena…

— Que?

— Uma pena que você não ganhar esse jogo! Eu não vou deixar! — E Romão começou a rir de um modo sarcástico e malandro.

— Tu ri demais, saca? Quem ri demais, tem problema! Tu não leva a sério o jogo, não leva a sério porra nenhuma, cara!

— Alto lá, fedelho, sabe que “tu” está falando com um dos melhores jogadores do Brasil? Eu já joguei em Barcelona! E você, só no Bangu, não?

— Errou, ô, fodão! Eu era do Madureira, aí, eu fui pra Bangu.

— Do Madureira?

— Num lembra? Faz tanto tempo assim?

— Não, não me lembro. E eu tenho boa memória!

— Mentiroso!

— Ei, não sou mágico! Como vou lembrar de você? Já peneirei tanto jogador nas categorias de base, como eu vou lembrar só de um?

— Ah, então, vô te fazer lembrar!

— Não precisa!

— É? Vô te lembrar: tu me fudeu quando eu era das categorias de base!

Logo, a história veio à tona: oito anos antes daquela tarde, naquele mesmo estádio, um grupo de meninos treinava no campo — a categoria de base do Madureira. Entre os meninos, estava Ataulfo, rápido como foguete. Todos os companheiros se espantavam com a fome de bola daquele rapaz. Era uma exibição de gala; afinal, ele estava se apresentando diante do seu grande ídolo na época: João Romão. O ídolo não tirava os olhos daquele menino, a quem apelidou de “futuro seguidor”. Era um talento nascendo ali. Mas outro garoto chamara mais a atenção do jogador: o irmão de oito anos de Ataulfo, Vitinho — sim, o companheiro de equipe do Ataulfo. Um menino delicado e frágil, que via no irmão mais velho um herói. O demônio interior de Romão disparou naquele momento. Era necessário saciar o desejo que o consumia por inteiro. Para tanto, valeu o artifício mais sujo: enredar o fã para alcançar o inteiro. João Romão foi conhecer os dois irmãos e a emoção deles não aplacou a fúria do algoz famoso. Elogios, incentivos vazios, tudo soava como um bálsamo para o pequeno armador, que não acreditava em seu próprio potencial, mesmo que seu irmãozinho disse que ele era um talento. As memórias vieram como estalo na cabeça de Romão, que por algum momento, se esquecera onde estava.

— VOCÊ… é o irmão daquele menino… Vitinho… HAHAHAHAHAHAHA… o irmão vingativo! Como eu poderia me esquecer? Ainda consigo lembrar dos seus gritos e acusações… dizendo que eu abusei do seu lindo maninho…

Ataulfo, sanguíneo e trêmulo, percebeu a empáfia do ex-ídolo ao lembrar do que aquele havia feito a seu irmão, sentiu-se mais forte do que nunca e enfrentou o jogador como nunca fizera antes:

— Tá rindo do que? Saiu por cima da carne seca, acha que vai ficar de boa e escancara essas canjica maldita ae…

— Quem caiu feito um patinho foi você, não foi? Ora, meu trabalho foi fácil: era só conquistar a sua confiança — o que não foi difícil, porque você é um otário — e eu já estava perto do menino! Aliás, cá pra nós, que moleque gostosinho, hein? Melhor foda da minha vida. De todos os moleques que já passaram pela minha mão, pra mim, ele foi o melhor!

Ataulfo saiu correndo pelo campo quando ouviu aquelas palavras. Parecia que ele iria derrubar o Romão. Apesar da raiva, ainda conseguiu trabalhar a bola. Romão ainda tentou impedi-lo de completar a jogada, mas a tentativa foi em vão. O primeiro gol do jogo foi do Bangu, saído dos pés de Ataulfo, aos dezesseis do primeiro tempo. Numa clara provocação, o armador se aproximou do inimigo e disse:

— Tem muito caô que tu nem imagina, bostão! Te gaba mermo, mas eu armo e POU! Finalizo! Tu não, só enrola! Por essas e outra que te chamam de encostado, rei da zona do agrião, príncipe da banheira…

— Cala a boca, porra! Sou João Romão, vivo das minhas glórias. E você, quem é? Um merda com sede de vingança pro maninho que perdeu o cabaço prum homem de verdade!

Ataulfo perdeu a cabeça e derrubou João Romão no gramado, sendo aplaudido por todo o time do Bangu. Ironicamente, boa parte da torcida do Madureira também aplaudiu a atitude do armador, como se quisesse fazer a mesma coisa. O árbitro fingiu que não viu a atitude, mas repreendeu o jogador do Alvirrubro de Bangu — na próxima provocação, era cartão vermelho na certa. João Romão já era não benquisto desde os tempos em que se transferiu para o Flamengo: um caso típico de sucesso que sobe à cabeça. E, mesmo assim, não aprendeu nada com o tempo: noitadas, escândalos com prostitutas, brigas com técnicos e companheiros de time, acusações muito bem abafadas de abuso sexual com crianças de categorias de base.

Um dos pedidos de sua mãe, antes de morrer, era que o filho tomasse juízo e se emendasse. O filho, envergonhado, prometeu à mãe que tentaria. Mas o golpe de ter perdido a mãe confundida como laranja de esquema de tráfico fez o trem descarrilhar. Quando houve o ocorrido, ele já era instável e perigoso. Foi quando ele nutriu essa obsessão por Vitinho. Ele via na inocência do garoto uma válvula de escape para os seus problemas. Entretanto, Ataulfo começava a desconfiar que a admiração de Romão por ele tinha outra razão. Mesmo assim, não deixava de ouvir os conselhos do ídolo, a quem considerava um irmão mais velho. Numa tarde, ao terminar o treino, foi ao encontro de Romão para saber como poderia melhorar as cobranças de falta. A porta estava entreaberta e o menino pode ouvir o jogador falando sozinho:

— Eu tenho que arrumar um jeito! Tem que ser hoje, eu não aguento mais fazer esse teatrinho!

— Romão, posso levar um lero contigo?

— Claro, menino! O que aconteceu?

— Pô, tô precisanu melhorá a pontaria pra falta! Tu me quebra esse galho?

— Sem dúvida! Pode ser agora?

— Pera, deixa eu só pegar o Vitinho na escolinha!

Os olhos de Romão faiscaram quando ouviu que Vitinho estaria perto dele. Ataulfo foi buscar o irmão e quando voltou ao campo principal, percebeu que o caçula se incomodava com a presença do artilheiro.

— Coé, Vitinho, que foi? É nosso amigo Romão, relaxa!

Na hora, Romão disfarçou e ajudou o moleque a cobrar faltas com perfeição. Ataulfo precisava tomar um banho e pediu que Romão tomasse conta de Vitinho enquanto ele ia ao vestiário. Era a chance perfeita para o artilheiro abusar mais uma vez do caçula. Quando o armador voltou para buscar o irmão, percebeu que ele estava triste. Aliás, a tristeza já se arrastava há algum tempo. Percebendo isso, Ataulfo confrontou o irmão pequeno:

— Maninho, que tá pegando? Cê tá estranho…

— N-Nada, tô bem…

— Tá nada, tu tá muito estranho…

— Tô bem, me deixa…

— Qual foi, vai me tratá assim? Sou teu mano, me conta o que tá acontecenu…

Num posso… — Vitinho começou a chorar…

Ataulfo ficou sem reação e abraçou o irmão. Durante algum tempo, sabia que não poderia arrancar nada do irmão. Até que o caçula deixou escapar o nome do Romão e, chorando, apontou para os órgãos sexuais. Ataulfo entendeu na hora e abraçou ainda mais o caçula e se perguntou como ele poderia ser tão burro, sem perceber que o irmão, tão alegre, andava tão retraído. Naquele momento, Ataulfo perdeu toda a sua inocência de criança e percebeu a maldade humana na sua pior forma. O seu ídolo, tão idolatrado, agora lhe aparecia como realmente era: UM ÍDOLO DE FEL.

Enquanto as memórias entravam em campo, o jogo estava extremamente tenso. Madureira e Bangu estavam empatados em 1 X 1 no final do primeiro tempo. Romão, num lapso dos velhos tempos, saiu da grande área e buscou a bola no meio de campo adversário, roubando a bola de Ataulfo e empatou o jogo. No intervalo, acabrunhado, Ataulfo explodiu no vestiário. Vitinho se aproximou e questionou:

— Mano, que tá acontecenu? Tu tá um bicho hoje, inda mais perto do Romão!

— Quer o quê? É tudo parte do plano, né?

— Sei lá, mano, as coisa sairo do controle….tu tá fora de prumo…

— Vai amarelar?

— Não, pow, o plano tá de pé! O foda é tu!

— Que tem eu?

— Num quero te ver assim nervoso! Tu é meu melhor amigo… — Vitinho abraçou o irmão e Ataulfo pareceu mais calmo.

— E tu o meu! Mas esse Romão tem que pagar pelo que fez pra gente…

— A gente?

— É, pow… esqueceu, né? Uma vez não foi contigo!

— E se der algo errado, o que acontece?

— Num sei, mano…

Na volta do segundo tempo, os ânimos se acirraram ainda mais. O empate não era benéfico para nenhuma das duas equipes. Como se não bastasse, Romão saiu da zona do agrião e buscava o jogo como há muito tempo não fazia. Sempre provocando Ataulfo, ele perseguia o armador e fazia o inferno com o time do Tricolor Suburbano. Mas Ataulfo parecia mais calmo, como se esperando o momento certo para a atacar. E assim passaram quase trinta minutos da segunda etapa, como o jogo no limite da tensão. Foi quando Romão resolveu mostrar as armas e atacar:

— Estive pensando numa coisa: por que você se deu ao trabalho de me reencontrar e me atacar num jogo decisivo? Será que o fato de eu ter te expulsado do Madureira não foi o suficiente pra você, seu merdinha? Tudo bem, eu fiquei longe do teu maninho, mas foi o preço que eu tive que pagar, já que você resolveu abrir a boca e dizer pra todo mundo que eu tava abusando do moleque! Era só pensar: se você fica quieto, ninguém saberia de nada, seria mais um escândalo infundado e abafado. Mas não, você tinha que estragar tudo! Eu só queria curtir, de boa, na minha. E daí que o moleque ia sofrer? Eu pagava psicólogo, a porra toda pra ele. Não é assim que as coisas funcionam? Se eu tenho pena? Já tive antes, mas a vida não teve pena ao me arrancar a minha mãe de mim! Pra que ficar sustentando as promessas de me emendar?

Tu era meu ídolo, Romão! Eu te admirava, tu era meu campeão! Te botei na porra do pedestal e não tava sacando que tu abusou do meu maninho! Tu é um escroto! E o pior tu nem sabe: eu saquei que tu tava abusando do Vitinho um dia antes de eu te delatar pra diretoria do Madureira, mas os filho da puta tavam mancomunado contigo, fecharam os olho e ainda me expulsaram da porra do time! Tu é foda, né, todo fodão, achando que podia comprar todo mundo e passar batido…tu te acha tão esperto que nem percebeu…

— Não percebi o quê, moleque? Do que tu tá falando?

— A última noite que tu passou com o Vitinho, ou acha que passou, né, não foi com ele…

— Hã?

— Sabia que tu ia atrás dele, que tu não tinha pedido à toa pra ficar com a gente aquela noite…quando a gente tava dormindo, troquei de cama com o Vitinho. Se eu ficasse mais ligado, nem fazia isso…tinha te matado, seu porco…mas moleque idiota, deixei que tu fizesse a mesma coisa comigo…

— Então, eu abusei os dois maninhos…Hum, saí no lucro…mas você não acha que é tarde demais para revelar tudo isso? E, aliás, em quem vocês acham que vão acreditar? No moleque vingativo que tá em ascensão ou no astro decadente em redenção? Claro que em mim! Aprende uma coisa moleque: quem tem prestígio, nunca fica desamparado. Você tá aí, cheio de ódio, vai morrer de AVC daqui a pouco. Eu, ao contrário, vou continuar minha vida. E daí? Vai valer a pena me denunciar?

Ataulfo ficou em silêncio. João Romão saiu triunfante, como se o jogo tivesse acabado. A verdade é que o jogo não tinha acabado. O cronômetro era implacável: quarenta minutos do segundo tempo. Ou uma das duas equipes encaixava a jogada perfeita ou o sofrimento continuaria até que uma delas fizesse um gol salvador. A verdade é que Romão desfilava triunfante pelo campo, como se o time jogasse para ele. Não era bem assim: os outros nove jogadores tinham se esquecido de Romão que, no seu delírio, não tinha percebido. A ilusão do gol foi apenas momentânea: o salvador voltava a ser arrogante, prepotente, vedete. E num descuido fatal de Romão, Vitinho roubou a bola dos pés do velho artilheiro e lançou para os pés de Ataulfo, muito bem posicionado, que trabalhou a bola e chutou sem defesa para o goleiro. Era a grande chance dos irmãos, a jogada perfeita. Ataulfo mal podia acreditar no gol que tinha acabado de fazer — e com passe do irmão caçula. Ataulfo procurou Vitinho no campo e correu em direção ao irmão, dizendo:

- Tu é meu ídolo, mano! Brigadão por essa bola!

- Tu que é meu ídolo, mano! Eu tinha que te dar esse presentaço!

Depois do gol, o jogo se arrastou até o fim. Quando o juiz apitou, a torcida do Bangu fez a festa no estádio do Madureira. Ataulfo e Vitinho saíram carregados pelos companheiros de time. Longe, João Romão olhava para os dois com raiva. O presidente do Madureira, cansado dos desmandos e desvarios do ex-craque, disse ao pé do ouvido que ele estava fora do time para sempre e que o clube não acobertaria mais a pedofilia doentia dele. O técnico escarneceu de Romão, dizendo que ‘o fim do reinado não era pior do que a arrogância que ele tinha’. De repente, o ídolo de fel sumiu na multidão. O rei humilhado não poderia suportar a comemoração daqueles a quem ele vilipendiara anteriormente.

Enquanto isso, a torcida do Bangu comemorava com o time e, especialmente, com os dois irmãos salvadores do time. Era uma felicidade sem fim. Bangu na semifinal, os dois irmãos sobrevivendo à desgraça que os acometeu. De repente, barulho de tiros à queima roupa. Corre-corre no estádio. Dois corpos caídos no chão: Ataulfo com três tiros no peito e em cima dele, Vitinho, com dois duas balas perfurando o pulmão. Horas mais tarde, encontraram o corpo de João Romão nos trilhos da estação do Mercadão de Madureira. Ele segurava a arma que matou os dois irmãos. Era o fim trágico do ídolo de fel.