Trabalho Morto

Para o homem das sociedades primitivas, a atividade de produção é exatamente medida, delimitada, pelas necessidades a satisfazer
“Noutros termos, é a vida como natureza que — a exceção da produção dos bens consumidos socialmente na ocasião das festas — estabelece e determina a quantidade de tempo consagrado a reproduzi-la. O que quer dizer que, uma vez assegurada a satisfação global das necessidades energéticas, nada poderia incitar as sociedades primitivas a desejar produzir mais, isto é, a alienar o seu tempo num trabalho sem destino, uma vez que esse tempo está disponível para a ociosidade, o jogo, a guerra ou a festa. Sob que condições pode transformar-se essa relação do homem primitivo com a atividade da produção? Sob que condições poderá essa atividade consignar um fim diferente da satisfação das necessidades energéticas? É nisso que consiste colocar a questão da origem do trabalho como trabalho alienado.” (1)
Nossa força de trabalho encontra-se diluída e, entre uma procrastinação e outra, estamos sempre devendo horas de trabalho. Seja em benefício próprio, ou pelo bem da sociedade (seja lá o que isso for), somos fortemente convidados à égide da produtividade, a consumir além do que precisamos e produzir além do que aguentamos. (2)
Retomemos as reflexões de Clastres de maneira mais clara e trocado em miúdos. Quais são, de fato, as nossas necessidades? Certamente não a mesma dos Apinayé, que ilustram o começo dessa nota. Não incorramos em anacronismos imaginários, o importante é perceber que o valor da atividade produtiva numa sociedade não se deve, nem de maneira essencial e muito menos causal, à qualquer noção de nível de desenvolvimento social ou técnico (3), noções inclusive ambíguas, limitadas e arbitrárias nos termos em que se apresentam na academia em geral. Neste ponto: as sociedades primitivas sabiam gerenciar melhor seu precioso tempo de trabalho, atinham-se as necessidades básicas e assim cultivavam uma vida equilibrada. Ao passo que nós, os civilizados, antes de tudo não sabemos precisamente quais as nossas necessidades básicas, e principalmente estamos impedidos, por mil forças, de suprir tais necessidades.
Os números insistem em mostrar desocupados num mundo do trabalho, é de causar espanto. Ironicamente a lógica mostra-se contrária nas sociedades ditas primitivas, no mundo do ócio todos tem trabalho.
Se o trabalho, como diria Hannah Arendt, é uma das condições humanas, temos que pensá-lo ainda como realização humana(4). De fato, o trabalho não poderia resumir-se a repor os estoques de energia estritamente necessária para a manutenção da vida, nem tampouco as sociedades primitivas limitavam-no a isto, trata-se de equalizar a importância do trabalho na vita activa, ainda na concepção de Arendt, enxergando sua importância para a construção do mundo, ou da mundanidade, mas relativizando-o com o resto da vida.

“Nas sociedades primitivas, sociedades por essência igualitárias, os homens são senhores da sua atividade, senhores da circulação dos produtos dessa atividade: não agem senão para si próprios, mesmo quando a lei de troca dos bens mediatiza a relação direta do homem com seu produto. Tudo se encontra alterado, por conseguinte, quando a atividade de produção é desviada do seu objetivo inicial, quando, em lugar de produzir apenas para si próprio, o homem primitivo produz também para outros, sem troca e sem reciprocidade.” (5)
Nos questionemos em que ponto o trabalho passou a ser instrumento de alienação, dessa própria condição humana. A resposta dada por Clastres é categórica: O nascimento do Estado, foi a morte do trabalho. Não mais prestamos contas com a vida, e sim com a estrutura. (6)
A relação do Estado com a atividade produtiva, que em princípio era a posteriori, transmutou-se numa relação a priori. Ou seja, o Estado dependia do trabalho, agora o trabalho depende do Estado. Francisco de Oliveira apresenta esta tendência, principalmente pós Keynes , sob a alcunha de Antivalor. É a dependência que atividade produtiva tem do Estado, de maneira que a equação entre trabalho e rendimento não fecha. A diferença nós sabemos quem paga. (7)

Para além de toda querela filosófica, antropológica, sociológica e econômica, resta um fato: Ainda precisamos nos sustentar! E penso que temos a possibilidade de escolha entre o trabalho morto e o trabalho ativo. Por sorte o pai do trabalho morto, o Estado, já apresenta falência múltiplas dos órgãos, as fissuras na estrutura já são aparentes, devemos sair da menoridade em que fomos colocados e assumir o posto de senhores de nossas atividades. Economia de colaboração, coworking, negócios de impacto social, têm mais potencial do que ainda podemos medir, mas a curto e médio prazo são as melhores alternativas para a falência do Estado.

Observemos por exemplo a questão da moradia no Brasil. À primeira vista é um enorme problema, mas trata-se, na verdade, de um enorme mercado consumidor adormecido. Em termos de resolução desse imbróglio, penso que devemos nos comportar como as grandes lojas varejistas, que seguem o lema vender bem sem olhar à quem. Saltam à memória os comentários dos marinheiros de primeira viagem numa favela consolidada: “Olha a casa era bem simplesinha mesmo, mas tinha até SmartTv”. As varejistas estão ganhando dinheiro na classe A, B, C, D, E e F (não sei em quantas classes o governo nos dividiu esse ano), enquanto arquitetos e urbanistas sonham com a cidade dos sonhos.
Tenhamos a coragem de enfrentar as necessidades reais, sem a tutela do Estado, encaremos a vida, sem mistificações, como uma vez pediu o poeta. (8)
Referências
1. Clastres, Pierre, 1934–1977 A Sociedade contra o Estado — pesquisas de antropologia política, trad. Theo Santiago. São Paulo: Cosac Naify, 2013. 1 ed., p. 209.
2 .http://www.bbc.com/portuguese/notic...
http://epocanegocios.globo.com/Econ...
http://exame.abril.com.br/economia/...
3. Clastres, Pierre. Op. cit., p. 203.
4. Arendt, Hannah, 1906–1975 A condição humana, trad. Roberto Raposo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007. 10 ed., p. 15
5. Clastres, Pierre. Op. cit., p. 210.
6. Clastres, Pierre. Op. cit., p. 211.
7. Oliveira, Francisco de. O surgimento do antivalor — Capital, força de trabalho e fundo público. Série Novos Estudos, CEBRAP, 1988.
8. Andrade, Carlos Drummond de, 1902–1987. Antologia Poética / Carlos Drummond de Andrade; organizada pelo autor. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. 1 ed., p.158.