João Doria é provavelmente o maior barco furado da história recente da política brasileira.

O líder máximo da República do Cashmere tinha tudo que precisava à disposição. Era um outsider, bom de gogó, com novas soluções para velhos problemas, vontade de trabalhar e dedo em riste para o crime.

Não é muito difícil imaginar a consequência de toda essa propaganda. Foi mole comprar o ticket de embarque. Shut up and take my money. Doria virou o namoradinho da classe média brasileira. Num país desesperado em encontrar um candidato à presidência viável de centro-direita, o prefeito de São Paulo atravessava de iate um oceano azul em direção ao Alvorada.

Só havia um problema: era marinheiro de primeira viagem.

Picado pelo mosquito da cobiça, Doria não precisou de pouco mais do que alguns metros para ver sua popularidade afundar.

Provou-se desleal, destemperado, imaturo, incoerente.

Traiu quem o ensinou a velejar. Abraçou velhos piratas da política brasileira. Inventou estória de pescador para justificar suas posições. Criou tempestades desnecessárias com a imprensa e aliados do governador. Abandonou seguidamente o leme da própria prefeitura, fazendo turismo em outros cruzeiros. Fez descaso dos tubarões peemedebistas que insistiam em manchar de sangue o seu convés, mergulhados em escândalos de corrupção. Apostou que bastava pescar lula para sobreviver aos enjoos do temporal.

Virou peixe pequeno, cabeça de bagre, ancorando suas pretensões presidenciais antes mesmo de alcançar o alto mar. Fez do oceano vermelho seu quintal. Foi driblado pelas ondas. Perdeu o prumo.

Agora, apostando em seu instinto de sobrevivência, na bacia das almas, luta como pode para não morrer pela boca, afogado pelas próprias contradições, tentando transformar seu cabo das tormentas em boa esperança.

Parece tarde.

Doria virou um náufrago a céu aberto. Decadente. Agonizante. Abatido. Encalhado em si mesmo.

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