72 HORAS

Uma vez me ensinaram um método para evitar compras desnecessárias. Chamavam de “método das 72 horas” e era extremamente simples: quando surgisse a vontade de comprar alguma coisa, o negócio era esperar 3 dias, ou 72 horas.

Se após esse período a vontade de comprar ainda estivesse lá, tudo bem. A chance daquela compra ser inútil ou desnecessária era menor, já que depois de um tempo considerável você julgou que o objeto de compra ainda era necessário.

Confesso que usei o método algumas vezes, e me surpreendi com os resultados. No entanto, a surpresa não acontecia quando eu comprava algo, mas com a quantidade de vezes que eu, depois de 72 horas (às vezes bem antes disso), simplesmente esquecia do que eu“queria muito” comprar.

O método exigia certo controle e muita paciência, principalmente quando você estava no momento da compra e ficava se questionando se realmente precisava daquilo ou não. Mas tinha seu índice de eficácia.

Lembrei desse método algumas vezes esse ano. Estranhamente não foi em ocasiões de compra, mas em situações bem diferentes.

Por exemplo, em sua ânsia por acontecimentos inusitados, a mídia faz bom uso de prazos curtos naquilo que noticia. Nenhum problema parece durar mais de 72 horas.

As rebeliões em presídios logo dão lugar à greve de algum setor, que em breve será substituída por notícias de violência, ou pela morte de policiais, ou por alguma tragédia.

Experimente ler as notícias de uma semana atrás e você verá o abismo que parece existir entre o agora e o acontecimento relatado. O problema atual sempre parece muito maior que o problema passado.

A indignação do povo brasileiro com seus governantes parece ter alguma relação com esse método também. As reações mais inflamadas que surgem no momento da notícia perdem a intensidade. O final de semana tem um poder maior para aplacar os ânimos dos revoltados.

Quem sabe mora justamente aí a grande causa de boa parte de nossos problemas (e possivelmente a solução deles). Quando trocamos de foco com tanta frequência e em tão pouco tempo, fica difícil fazer qualquer análise.

Paradoxalmente, os posts mais compartilhados em redes sociais exaltam resultados que só são alcançados em longo prazo. Ser um faixa-preta, tocar um instrumento musical com maestria, ter um corpo saudável (e bonito), dominar uma área de conhecimento, nada disso é alcançado em curto espaço de tempo.

Costumo fazer a seguinte pergunta: “o que será feito no dia seguinte?”.

Quando acontece algo relevante, o que você faz depois de passado algum tempo do ocorrido define muita coisa. E aí temos um problema: muita gente não faz nada, simplesmente porque nem lembra do que aconteceu.

Assim como no “método das 72 horas”, quando muitas vezes a pessoa nem lembra que quis comprar determinada coisa, no dia a dia a gente esquece do problema. Só vai lembrar quando der algo errado de novo, como um carro que você lembra de fazer revisão quando ele para na estrada. Mas aí é tarde demais.

Talvez devêssemos aplicar o prazo de 72 horas, mas “ao contrário”. Relembre aquilo que te incomoda, faça um plano de como resolver, tome atitudes concretas.

Escrevo esse texto um dia depois do Museu Nacional do Rio de Janeiro ter sido consumido pelo fogo. As redes sociais estão tomadas por textos de tristeza e indignação, pessoas inconformadas com as perdas intangíveis causadas por anos de descaso do poder público.

Ironicamente, estamos em ano eleitoral!

Não deixe que sua indignação com a situação seja sufocada depois de 72 horas.

Danilo Rodrigues Bezerra

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