A Incoerência da Escolha por Bolsonaro
Há algum tempo, talvez desde o iluminismo francês do século XVIII, a racionalidade se tornou um dos principais, se não o principal, instrumento para a tomada de decisão geral. Não à toa, vemos o predomínio da matemática nas mais diversificadas áreas, inclusive nas ditas ciências humanas. Talvez o melhor exemplo seja o emprego do termo “ciências” no que tange ao estudo da sociologia, ciências sociais, ou da política, ciências políticas.
A palavra racionalidade pode ser descrita como algo “compreensível logicamente”, ou seja, algo que seja coerente, que se possa entender através de uma sequência de raciocínios lógicos. Dessa forma, é razoável aceitarmos a premissa de que algo que não seja racional, ou melhor, algo que não seja ao menos coerente, possa vir a ser descartado como “não válido”. O que se busca defender aqui não é uma unicidade de pensamentos, mas uma variedade de ideias minimamente estruturadas e críveis.
Trazendo para a política, a percepção popular talvez julgue o nazismo como o exemplo mais concreto do “pior dos mundos”. Não há dúvidas que o mesmo foi nefasto, sendo assim (quase) uma unanimidade. Entretanto, o nazismo foi um fenômeno compreensível. Por compreensível quer-se dizer que houve aspectos que explicam o porquê do mesmo ter ascendido ao poder na Alemanha e que havia uma coerência na estruturação de suas ideias (refere-se SOMENTE à questão econômica e política, deixando-se de lado as demais questões, sobretudo a racial).
A miséria alemã, a humilhação pós-Primeira Guerra Mundial, as reparações abusivas pela derrota, são motivos que ajudam a explicar o caos que se encontrava a Alemanha e, assim, o que proporcionou a ascensão do nazismo. Do lado político e econômico, é indiscutível o êxito da economia alemã no período do nazismo. Isso por que o Estado “tomou as rédeas” da economia, combateu a hiperinflação alemã, protegeu a indústria interna, tornando a Alemanha uma potência econômico-militar admirável.
Não cabe a discussão sobre qual modelo econômico é mais viável, um liberal ou um centrado no Estado, ou se existe apenas uma forma de se desenvolver um país, apenas o fato de que havia uma coerência no modelo adotado: sob um regime autoritário, o modelo era totalmente centralizado. Isso não quer dizer que não havia propriedade privada, mas que ela estava subordinada por completo à vontade do governo. Assim como numa democracia, por outro lado, o modelo liberal é mais ou menos implantado, variando apenas no grau.
As eleições brasileiras se aproximam e um candidato parece receber grande rejeição, seja a esquerda ou a direita. Existe quem compare o mesmo com os fascistas/nazistas, muito influenciados pelo discurso autoritário, seja na pauta moral, de gênero, religiosa, e/ou sua agressividade na solução ao combate da violência. Entretanto, existem outros aspectos que parecem, ao menos minimamente, corroborar com essa comparação.
Uma das características mais marcantes dos regimes acima citados é a questão do culto ao líder. Esse culto não é racional, fazendo com que, coerente ou não, o discurso seja aceito e muitas vezes impossível de se ser contra argumentado. Ao que parece, essa característica também se aplica na comparação. Faz-se necessário analisar, ainda que de forma geral, o pensamento do candidato e de seu entorno. Nesse caso específico, como explicado, o foco será quanto à questão política e econômica.
O discurso de Bolsonaro, segundo seus apoiadores, é um discurso nacionalista e o fato de ser autoritário é explicado pela “falta de moralidade da sociedade”. Essa “falta de moralidade” é exemplificada pelo discurso da corrupção, pelas pautas dos direitos humanos, pelos direitos adquiridos por minorias, entre outros. Por outro lado, no que toca a economia, seu assessor econômico é sabidamente um liberal convicto que enxerga a autoridade do Estado como, quase sempre, maléfica tanto para economia quanto para sociedade em geral.
Ainda que mal visto, o nazismo guarda coerência entre a política e a economia. Talvez por isso tenha sido bem quisto por sua população e bem sucedido no que tange a esfera econômica (novamente, não se defende o nazismo e não se leva em conta para essa análise as atrocidades oriundas da suposta supremacia racial). O nazismo era coerente, ao menos de forma geral. Eis um motivo para a comparação que costumeiramente é feita a Bolsonaro ser parcialmente válida.
Voltando ao início desse texto, sem coerência não há como acreditar que algo seja minimamente destinado a dar certo. É o que aponta a campanha de Bolsonaro. Não há como dar certo autoritarismo político e economia completamente liberalizada. Assim como não há como dar certo democracia e estatização completa da economia. Somado a isso, estão as semelhanças (não igualdade) de cunho moralista com o nazismo que envolvem sua campanha. Soma-se ainda a incapacidade de contra argumentação, não por faltar argumentos, mas pela não lógica que rege tais ideias.
É sabido que o estado do Brasil é crítico, o que é uma unanimidade para todos, e que isso proporciona o surgimento de correntes moralistas autoritárias. Entretanto, ainda que essas correntes fossem válidas (o que, claramente, não é a opinião do autor), não há coerência no raciocínio (político e econômico) que sustenta a mesma e que vislumbre um êxito caso seja posto em prática tais ideias. Grosso modo, não haveria nem “uma parte boa” para se tentar justificar ou validar essa opção eleitoral.
Medidas simples nunca solucionam problemas complexos. Ainda que as mesmas sejam as mais agradáveis respostas que os ouvidos preguiçosos querem ouvir. Se fores liberal, busque um candidato coerentemente liberal. Se fores socialdemocrata, busque um candidato coerentemente socialdemocrata. Se fores desenvolvimentista, busque um candidato coerentemente desenvolvimentista. Até se fores fascista, bem, da tempo de repensar ainda.
