Como aproveitar “Shenmue I & II”

Um guia para entender um dos jogos mais importantes de todos os tempos

“Shenmue”, de Yu Suzuki: após quase duas décadas, jogo retorna tanto para os fãs quanto para uma geração de jogadores que não teve contato com o original.

Lançado originalmente em 1999 no Japão, “Shenmue” finalmente retorna hoje, 21 de agosto, com resolução melhorada, novos controles e opção de áudio original em japonês. Para muitos será a primeira chance de ter contato com um jogo emblemático, dono de uma legião de fãs apaixonados, mas que foi ignorado na época de seu lançamento. Fracasso de vendas, “Shenmue” tornou-se um “clássico cult” virtualmente inacessível, jogável apenas em seu console de origem, o Dreamcast — que também não teve vendas expressivas. Sua fama atual vem justamente do fato de que poucos tiveram a oportunidade de jogá-lo e os poucos que o fizeram garantem se tratar de uma “obra-prima” que influenciou amplamente uma série de sucessos contemporâneos. Por isso, ao contrário da maioria das versões remasterizadas de jogos clássicos, que se apoiam no fator “nostalgia”, a curiosidade e o boca-a-boca farão com que “Shenmue” seja experimentado amplamente por jogadores que nunca vivenciaram o jogo em sua época original. Será que ainda faz sentido mergulhar nessa experiência que já tem quase duas décadas de vida? O que é preciso manter em mente para poder aproveitar esse “clássico” e o que podemos esperar dele?

  • Modere as expectativas

Além de lembrar que o jogo é de 1999 e, portanto, tem gráficos e animações consideravelmente datados, é importante não esquecer que “Shenmue” foi um fracasso colossal de público, tendo vendido pouco mais de 1 milhão de cópias mesmo tendo um orçamento até então inédito de 70 milhões de dólares e 5 anos de desenvolvimento. O fracasso se deu basicamente por dois motivos: primeiro porque o jogo era muito diferente daquilo que o público esperava dos videogames da época; segundo porque o jogo era muito diferente de tudo, na verdade.

O Dreamcast vendeu apenas 9 milhões de unidades durante sua existência, o que quase levou a Sega à falência.

Em 1999 o mundo dos RPGs ainda estava abalado pelo lançamento de “Final Fantasy VIII”, um sucesso estrondoso. Seus combates por turno, mistura de fantasia medieval com ficção científica e história épica eram o modelo de RPG a ser seguido e apenas consolidaram o sucesso alcançando por “Final Fantasy VII” dois anos antes. “Shenmue”, no entanto, andava inteiramente na contramão: era um RPG que se passava no mundo “real”, mais especificamente numa pequena cidade japonesa dos anos 80, sem acontecimentos épicos, sem armas ou magias, e com combate em tempo real inspirado em “Virtua Fighter”, um jogo de luta em três dimensões. O público esperava naves espaciais, espadas e monstros, mas “Shenmue” oferecia um adolescente esperando na chuva por lojas abrirem e perguntando por “marinheiros” — era tematicamente muito distante de qualquer coisa da época.

Nesse sentido, “Shenmue” envelheceu bem: a indústria hoje é mais madura e jogos que se passam no mundo “real” são mais comuns e muito melhor aceitos. Entretanto, algumas das escolhas mais identitárias de “Shenmue” ainda são inovadoras — e um tanto estranhas. Andar a pé de um lado para o outro pelas ruas da cidadezinha de Yokosuka é a principal atividade do jogo, seguida de perto por longas conversas com personagens secundários e muito tempo analisando com atenção objetos aparentemente sem valor, revirando gavetas. “Shenmue” é em grande medida um jogo de ritmo lento, em que é preciso esperar pacientemente até que as coisas importantes aconteçam, e com pinceladas muito espaçadas de “ação”.

Seus frutos mais importantes são os walking simulators, jogos em que aquilo que você vê e os objetos com os quais você interage são tão ou mais importantes para criar contexto e ambientação do que a história que está sendo explicitamente contada. Isso significa que além de todos os elementos que certamente envelheceram mal — os gráficos, a física, o uso massivo da mecânica conhecida como QTE, a construção realista de uma cidade que hoje parece exageradamente simples perto dos esforços de qualquer “GTA” moderno — o jogo ainda apresentará aos novos jogadores um ritmo muito diferente, único e, certamente, polêmico.

É preciso manter em mente, portanto, que “Shenmue” é um jogo de 20 anos, mas que seus elementos mais polarizantes não são responsabilidade de sua idade, mas sim escolhas de design que afastaram jogadores no seu lançamento e ainda afastarão novos jogadores nos dias atuais. “Shenmue” não é um jogo para todos os públicos e seu relançamento não mudará isso. Jogadores que esperem um jogo recheado de ação, com as liberdades de um “GTA” ou as narrativas de um “Final Fantasy”, não encontrarão nada além de frustração.

  • Mergulhe na cultura (com o áudio em japonês)

“Shenmue” tem uma ambição estranha: recriar a pequena cidade de Yokosuka da maneira como ela era em 1986, com a mesma arquitetura, as mesmas lojas e até o mesmo clima meteorológico registrado na época. Isso significa que para nós, ocidentais, há um choque cultural significativo: do desenho da cidade à planta das casas, passando pelas prateleiras dos mercados e as placas nas ruas, tudo é diferente daquilo com o que estamos acostumados. Parte da graça do jogo está, portanto, em mergulhar nessa cultura, conhecer os personagens, degustar as diferenças. A arquitetura é um espetáculo à parte mesmo nos gráficos envelhecidos de Dreamcast, mas os personagens que habitam essa cidade acabam sendo o prato principal.

A cultura tradicional japonesa é parte indissociável de “Shenmue”.

Ao contrário de uma cidade de um RPG tradicional, em que os personagens não-jogáveis falam apenas uma ou outra frase genérica até que calem-se para sempre ou as repitam em looping, quase todos os figurantes de “Shenmue” podem ser abordados a qualquer momento e terão algo significativo a dizer sobre a missão que está em andamento. Durante sua investigação, o personagem principal Ryo Hazuki pode fazer perguntas para as pessoas habituais — seus amigos mais próximos, os vendedores mais ligados à sua família, etc — ou então entrar em bares inusitados quaisquer e fazer as mesmas perguntas para personagens até então desconhecidos, apenas para descobrir que Ryo talvez já os conhecesse, e que eles também tem algo a dizer. A quantidade de texto presente em “Shenmue” ainda é impressionante para os parâmetros atuais, o que é ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição. O lado positivo é que o jogo instiga a interação com todos os moradores de Yokosuka para descobrir novas pistas, novas dicas e até mesmo novos indícios para o jogador compreender quem é Ryo Hazuki. O efeito colateral, no entanto, é que a versão americana teve que contratar dezenas de dubladores amadores, às pressas, para garantir que essa quantidade descomunal de falas fosse gravada a tempo para o lançamento nos Estados Unidos.

Aproveitar “Shenmue” é conversar com o máximo de personagens possível dentro do jogo, que adicionam aos poucos elementos que Ryo Hazuki compulsivamente anota em seu caderninho — cada espaço em branco que surge nas páginas indica algo que poderia mas não foi conversado, alguém que não encontramos, algo que se perdeu. Apenas faça a si mesmo um favor e aproveite uma novidade do relançamento de “Shenmue”: coloque o áudio no original japonês, com as devidas legendas, adentre ainda mais na cultura e livre-se de uma das piores dublagens em inglês da história dos videogames.

  • Entenda a proposta

“Shenmue” é um jogo de dupla exploração: por um lado temos Ryo Hazuki tentando entender os motivos de seu pai ter sido assassinado a sangue frio por alguém que alega estar apenas “se vingando”; por outro temos o jogador que tenta entender todo o universo e o contexto que cercam esses personagens.

Na prática, as duas coisas acontecem simultaneamente através da observação de objetos e de conversas com conhecidos, testemunhas e suspeitos. Grande parte do jogo se dá simplesmente revirando gavetas, fuçando armários e tendo conversas banais com pessoas aleatórias nas ruas. Trata-se de um jogo de investigação em que Ryo busca as pistas relacionadas à morte de seu pai enquanto o jogador se aproveita de pistas “indiretas” para montar um quebra-cabeças muito maior. Num modelo que viria a inspirar muitos jogos mais modernos (como “Gone Home”, por exemplo), “Shenmue” nunca pega o jogador pela mão para explicar elementos do passado de Ryo Hazuki, sua relação com os demais personagens e o contexto da morte de seu pai. Tudo é dado como óbvio para o personagem, mas o jogador precisa deduzir esses elementos através de frações de conversa, objetos nas gavetas, fotos antigas, fofocas nas esquinas e a dinâmica entre os personagens. Por mais que o tema central do jogo possa parecer simples e seu andamento seja algumas vezes brega, juvenil e até ingênuo, muitos dos aspectos mais interessantes de “Shenmue” surgem de maneira sofisticada e apresentam-se apenas na medida em que o jogador estiver disposto a explorar, conversar, esperar e ligar ele próprio os pontos que encontrar.

Isso faz de “Shenmue” um jogo lento, em que há uma história “oculta” nos objetos e nos personagens. É possível gastar horas apenas observando a rotina de Ine-San, que vive na mesma casa de Ryo, para tentar entender a função que ela exerce nessa família e os espaços que ocupa, tanto física quanto emocionalmente. Todos os personagens do jogo, mesmo os mais secundários, possuem uma rotina única, e o jogador mais dedicado pode encontrar prazer apenas em observar as filas para almoço nas lojinhas mais recônditas e espiar os trabalhadores voltando para seus trabalhos ou, mais tarde, para suas casas.

Do mesmo modo, uma mecânica polêmica em “Shenmue” — a possibilidade de pegar alguns objetos com as mãos e “girá-los”, em três dimensões, apenas para observá-los — exerce função semelhante. Cada objeto, por mais banal que seja, conta uma história e nos funciona como entrada não apenas para uma cultura distante mas também para essa cidade específica e esses personagens. Analisar minuciosamente um pacote de batatinhas ou seguir a florista em seu trajeto para o trabalho são a prova de que nem toda narrativa precisa ser explícita, falada, mastigada para o jogador — às vezes, ela pode ser simplesmente experimentada de maneira sutil e inteligente.

  • Saboreie com calma
Aproveitar o jogo significa parar de vez em quando para beber refrigerantes.

Talvez o elemento mais estranho de “Shenmue” seja o fato de que, embora o jogo seja linear, a experiência de jogadores distintos quase nunca será a mesma. Numa escolha de design que lembra os melhores momentos de jogos como “Harvest Moon”, uma série de eventos em “Shenmue” acontecem apenas se você estiver no lugar certo e na hora certa. Isso é possível porque o jogo conta com um calendário e cerca de uma hora de jogo equivale a um dia em Yokosuka, com ciclos de dia e noite. Passar pela praça no dia 25 de determinado mês pode resultar numa conversa interessante com um morador local que não seria experimentada se nesse dia você estiver em outro local, por exemplo. Jogadores que se apressem em resolver as missões principais podem terminar o jogo antes de ver Yokosuka tomada por decorações natalinas e uma série de eventos específicos que ocorrem nas datas festivas. Nenhum desses acontecimentos altera o desenvolvimento real da história e não há uma vasta gama de diferentes finais, mas todos os eventos ajudam a entender melhor quem são esses personagens e podem significar a diferença entre um Ryo Hazuki caricaturalmente genérico para o jogador e um Ryo Hazuki mais profundo, quebrado, em séria negação da realidade e com tendências levemente suicidas.

Cada conversa, evento ou pista é transformado por Ryo numa anotação em seu caderno que se torna uma medida de quanto do jogo está sendo experimentado. Longas sequências de páginas em branco seguidas por alguma anotação esparsa significam que o jogador “pulou” ou “perdeu” uma série de acontecimentos que, embora passem longe de ser obrigatórios, são parte do que torna “Shenmue” uma experiência icônica. O jogo é pensado para ser fruído com calma, saboreado ao invés de uma corrida apressada rumo ao fim.

  • Entenda a metáfora

Embora os combates sejam raros quando comparados com outras mecânicas, as artes marciais são um dos elementos mais importantes de “Shenmue”. Ryo é praticante de um estilo de jujitsu criado por seu pai, amplamente baseado no karatê, e manter a dedicação às suas técnicas marciais é, de certa maneira, manter viva a memória de seu pai e consequentemente o nome de sua família. É possível gastar longas horas treinando cada golpe de um vasto repertório em estacionamentos vazios noite adentro, evoluindo essas técnicas, tornando Ryo um melhor lutador e aproximando o personagem daquilo que seu pai representava.

No entanto, ao longo de “Shenmue” e “Shenmue 2” é possível aprender outros golpes, de outras artes marciais, que “ocupam” o lugar do estilo de sua família. Aos poucos, golpes antigos vão sendo substituídos por golpes novos, no que representa ao mesmo tempo um momento de novidade para o jogador e de ruptura do personagem com a tradição familiar.

É possível se expressar quando há um modelo passado de geração para geração?

Esse é o tema silencioso que permeia toda a narrativa de “Shenmue”: há sempre a disputa entre perseguir o assassino de seu pai em nome da honra ou gastar tempo nos arcades jogando videogames, colecionando miniaturas e bebendo refrigerante estrangeiro; seguir a tradição de uma arte marcial rígida familiar ou experimentar novos estilos; preparar-se para o vestibular ou partir em uma grande aventura. O conflito, que acontece nas mecânicas disponíveis ao jogador e nos dilemas do personagem Ryo Hazuki, também acontece em todo o cenário ao redor: lojas de jeans ocidentais disputam espaço com lojinhas tradicionais, marcas como a Coca-Cola podem ser vistas nas máquinas de refrigerante (transformada em uma marca genérica apenas no lançamento ocidental) ao lado de produtos exclusivamente japoneses, enquanto kimonos convivem com vestimentas punk e barraquinhas de cachorro-quente. Não à toa o jogo se passa nos anos 80, momento em que a “ocidentalização” do Japão parecia ter alcançado seu ponto de ebulição e o dilema entre manter a tradição ou experimentar novos modos de vida “americanizados” era um tema comum ao imaginário adolescente.

A cada golpe de karatê que é esquecido em nome de um novo e exótico golpe de kung fu, ou a cada dia em que a morte do pai de Ryo é deixada de lado para jogar “Space Harrier” nos fliperamas, uma parte do passado é dolorosamente apagada. Por trás de toda a jornada do herói típica dos RPGs, da ingenuidade de um filme de artes marciais em que ninguém nunca saca um revólver e do maniqueísmo cômico de alguns personagens, “Shenmue” consegue propor discussões muito interessantes a respeito da ocidentalização japonesa e da difícil relação entre a afirmação da própria identidade e a manutenção das tradições. Há espaço para a identidade pessoal numa família (e numa sociedade) que preza pelas tradições transmitidas de geração para geração?

  • Fuja de informações sobre “Shenmue 2”

A continuação de “Shenmue”, lançada em 2001 e presente na coletânea relançada, é um jogo muito diferente: sai da minúscula cidade de Yokosuka para propor outros cenários, ganha um ritmo levemente mais acelerado, tem maior foco nas artes marciais, é muito mais longo, maior em escopo e tem melhorias nas mecânicas verdadeiramente impressionantes: utiliza um esquema de controles contextuais (assumidamente similar a “The Legend of Zelda: Ocarina of Time”), possibilita escolher os assuntos de cada conversa com um simples apertar de botões e tem um elegante código de anotações no mapa (que, por sua vez, influenciou amplamente “The Legend of Zelda: Breath of the Wild”).

A dificuldade em abordar “Shenmue 2” com mais detalhes, no entanto, está no fato de que meramente ler sua sinopse funciona como um grande spoiler para o primeiro jogo. Evite qualquer informação, com exceção da certeza de que seus feitos no primeiro jogo são carregados para o segundo, e do fato notório de que o final de “Shenmue 2” é abrupto: fãs da série esperam há 17 anos a continuação de uma cena interrompida no meio, em pleno ápice. Esteja avisado.

  • Permita-se experimentar

O motivo pelo qual “Shenmue 3” é aguardado até hoje, com maratonas de cobranças no Twitter por anos e uma comunidade apaixonada e ativa mesmo sem nenhum material novo por quase duas décadas é que nenhum jogo moderno é capaz de oferecer o mesmo tipo de experiência que “Shenmue” oferece.

“Shenmue 3”: a nova data de lançamento é dia 29 de agosto.

Isso não quer dizer necessariamente que “Shenmue” é melhor do que os jogos atuais, apenas que ele oferece algo essencialmente diferente, uma mistura estranha de cultura nipônica, ambientação, ritmo lento, narrativa indireta, artes marciais, exploração e um distanciamento de muitas estruturas recorrentes dos videogames. Não havia um público que pedisse por “Shenmue” em 1999; fomos todos surpreendidos por um jogo que oferecia algo que não conhecíamos e que não sabíamos que queríamos, algo que não se encaixava em nenhum gênero estabelecido e que desafiava uma série de paradigmas do que jogos deveriam ser. “Shenmue” criou seu próprio público, ainda que limitado, e muitos outros jogos popularizaram alguns de seus elementos — de “Heavy Rain” a “God of War”, de “GTA IV” a “Yakuza”, não são poucos os jogos que carregam seu legado. Mas esse pacote específico, esse conjunto inusitado de elementos, apenas “Shenmue” se atreve a oferecer.

Com todas as suas defasagens gráficas, suas limitações dignas de quem foi pioneiro e tentou abocanhar tecnicamente mais do que conseguiria engolir, sua história ingênua e dublagem canastrona, sua jogabilidade polêmica e seu fracasso financeiro, “Shenmue” ainda resiste como imperfeito porém único — e é por isso que deve ser experimentado. Permita-se a chance de descobrir se “Shenmue” funciona para você, se ele oferece justamente aquilo que você nunca soube que desejava e que não podia ser encontrado em mais nenhum lugar. Se for o caso, parabéns: há um mundo incrível a ser explorado, e você sequer terá que esperar duas décadas para acompanhar a continuação da saga. Apesar da ação do tempo se fazer evidente nos quesitos técnicos, nunca houve um melhor momento para ser fã de “Shenmue”: aproveite.