Androides são péssimos etnógrafos

Rick Deckard respira fundo, confere se o equipamento está funcionando e começa a aplicar o teste de empatia Voight-Kampff em Rachael Rosen, sentada do lado oposto da mesa. Pra quem leu essa frase e não entendeu nada, um rápido recap: Rick Deckard é o caçador de androides vivido por Harrison Ford; Rachael Rosen a androide de olhar melancólico vivida por Sean Young no clássico Blade Runner (1982) de Ridley Scott.

O teste em questão é formado por uma bateria de perguntas cujas respostas dos participantes acreditam-se suficientes para diferenciar humanos de androides. Com perguntas envolvendo temas sensíveis como torturas e estupros, mede a capacidade de empatia de uma pessoa: o ato de se colocar no lugar de outra pessoa, buscando agir ou pensar da forma como ela pensaria ou agiria nas mesmas circunstâncias. Como androides — no futuro distópico representado pelo filme — são robôs programados para as atividades mais nocivas na Terra, eles não teriam a faculdade de ter empatia e, portanto, falhariam miseravelmente no teste.

Daí que pensando nas metodologias existentes no Design Thinking tradicional e o papel que a empatia tem em tudo que diz respeito ao jeito “Human-centered” de pensar, nós profissionais de inovação podemos ficar tranquilos que, por ora, nossas habilidades humanas e cognitivas ainda nos garantem um certo domínio nesse território das práticas etnográficas.

Indo um pouco além, lembrando uma das melhores palestras do EPIC 2015 (não vou citar o nome da pessoa, já que esse texto não está a altura de sua apresentação), essa coisa de falar que etnografia é importante pra gerar negócios, prever serviços futuros, entre outros, isso é o que gostamos de falar para os nossos clientes! A cada visita que fazemos na casa de um consumidor, cada observação em campo, mistery-shopper em loja, estamos na verdade apenas nos divertindo e coletando muito mais insights que a gente realmente precisa e aplica nos nossos projetos. O resto levamos pra vida.

E isso, acho que nenhum androide, cyborg ou robô programado com as 3 leis do Asimov vai ser capaz de sentir tão cedo. Inclusive, a seguinte reflexão “Tenho visto coisas que vocês não imaginariam. Vi raios gama brilharem na escuridão, próximo ao Portão de Tannhauser. Todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva. Hora de morrer”, obviamente só poderia ter sido dita por um humano…

Mas quem a proferiu foi Roy Baty (encarnado por Rutger Hauer), na cena final do filme, o que ajuda a torná-lo ainda mais fantástico e aberto a muitas interpretações. E certamente questionar minha afirmação acima sobre a primazia dos humanos no mundo da etnografia. Hora de estudar.