Colecionador ou Parasita de epifanias?

O mundo está cheio de crises e, no meio dessa confusão, cada indivíduo enfrenta a sua própria. Paralisados por ansiedade, inundados por informação e fadados a receber cobranças inalcançáveis, temos nos tornado pessoas cada vez mais imunes a epifania. Alias, não apenas imunes, mas possivelmente incrédulos e cínicos.
O fato da palavra epifania ser pouco utilizada, ou mesmo conhecida, já revela nossa rejeição ao que é complexo. A questão é que, descrever o que é denso, profundo e inefável, não pode ser feito com qualquer palavra, de outro modo, serão percebidas apenas as partes de um todo. E as parte sozinhas não expressam o sentido inteiro. Daí a importância das palavras complexas.
Epifania é uma sensação súbita de consciência e compreensão da essência de algo. É como alguém que, depois de muitas horas de concentração, finalmente encaixa a última peça de um quebra-cabeças e, ao vislumbrar pela primeira vez a figura antes desconhecida, sente plena satisfação. Sabe que valeu a pena.
O fato das epifanias acontecerem conosco cada vez menos, evidencia a existência de uma crise de presença. E, aqui, não me refiro meramente a presença física, mas, para melhor me explicar, pego emprestada a citação de Pablo Morales, nadador norte-americano:
A presença é a sensação de se perder na intensidade da concentração.
Por favor, antes de continuar, pare por alguns instantes para refletir sobre essa frase.
Parou? Então continuemos.
Escassez de epifanias é sintoma de uma crise de presença. Estar intensamente presente é estar tão concentrado na contemplação de uma paisagem, no vivenciar de uma experiência, no desfrutar da companhia de amigos e família, que ali ficamos, perdidos, como se não houvesse mais nada no mundo.
As crises do mundo, o excesso de informação e a constante demanda por produtividade sob nossos ombros impermeabilizam os nossos sentidos. Sentimos cada vez menos porque estamos cada vez menos presentes. E epifania é, essencialmente, o ancoramento na presença, ainda que haja abundância de águas em nosso entorno.
Perceba como, nesta éra pós-moderna, a fragilidade dos laços humanos se agravou. A amizade, por exemplo, tem tido seu significado cada vez mais reduzido. Poucos tem paciência de estar verdadeiramente presentes. Contentam-se em socializar no barzinho, em se divertir na balada, em se sentar na escuridão do cinema.
Estão satisfeitos em interpretar seus papéis no espetáculo. Só se permitem estar rodeados de pessoas em locais repletos de distrações, que as impeçam de estarem conscientemente presentes nelas próprias e no outro, afastando qualquer possibilidade de abertura a vulnerabilidade que há em se deixar ser conhecido.
Fugimos de tudo que parece complexo demais, não queremos nos concentrar com intensidade em nossas relações, seja com as pessoas, com o divino ou consigo mesmos. Também não nos concentramos nas experiências do agora, estamos sempre planejando o depois, criando expectativas no amanhã e abrindo mão do nosso presente em prol de um futuro que pode nunca chegar.
A questão é que, apesar dessa tendência a superficialidade que há nas gerações da pós-modernidade, o ser humano está constantemente em busca de satisfação. De forma que, diante da nossa recusa em sentir com devida profundidade por meio de presença intensa — das relações as experiências — acabamos por nos tornar parasitas de epifanias alheias.
Imagine, por exemplo, um desfile de carnaval. Você está ali no sambódromo, assistindo os passistas da sua escola de samba favorita. Eles estão brilhando, dançando e sorrindo. Você está tão feliz que sente como se estivesse lá. No entanto, a verdade é que não está. Você é só mais alguém assistindo um espetáculo da plateia, parasitando a epifania do passista que você observa.
Nos contentamos com a presença parasitada, isto é, com qualquer espetáculo que nos dê a sensação de “estar lá”, mesmo que não estejamos. Não temos amizades verdadeiras, então tentamos nos satisfazer com as amizades que assistimos nas séries. Não conseguimos cultivar um amor duradouro, então nos apegamos a história de um casal de um livro que lemos. Não separamos tempo para visitar um país que queremos conhecer, então assistimos um filme que se passa lá.
Por nos indispormos a estar presentes intensamente, nos tornamos parasitas de epifanias, porque precisamos sentir satisfação de alguma forma, mesmo que seu fundamento esteja em espetáculos ilusórios. Trágico, não?
Além da aversão a complexidade, outra razão disso acontecer é o fato de que, quanto menor a presença, maior é a produtividade. Repare que, quanto mais coisas estivermos fazendo e mais preenchida for nossa agenda, menor será a nossa capacidade de concentração no presente, pois já estamos preocupados com o que vem depois.
Obviamente, não podemos ser pueris a ponto de achar que a solução é negligenciar nossas responsabilidades. É preciso encontrar um ponto de equilíbrio. Dá para ser produtivo sem desrespeitar seus limites. O que não dá é para produzir em um ritmo tão frenético que nos tornemos máquinas de linha de produção, incapazes incapazes de passar um jantar inteiro sem checar o e-mail.
Depois da constatação de que a presença diminui a produtividade, leva a relacionamentos complexos e a experiências densas, talvez você esteja se perguntando qual sua serventia. Qual é, afinal, a vantagem de viver suas próprias epifanias ao invés de tornar-se um parasita delas?
Ora, meu paciente leitor, devo confessar que talvez minha resposta não lhe seja suficiente. Para mim, cultivar uma presença intensamente consciente as minhas relações e experiências em detrimento de alguma diminuição de produtividade, não me parece um preço muito alto a se pagar pelo seguinte motivo, que lhes explicarei referenciando um de meus autores favoritos, C. S. Lewis:
A amizade é desnecessária — como a filosofia, como a arte, como as experiências*, como o próprio universo (pois Deus não precisava criar). Ela não tem valor de sobrevivência; ela é, antes, uma das coisas que dão valor à sobrevivência.
Não podemos deixar de fazer as coisas que nos dão sobrevivência, mas a vida é muito mais do que isso. Estar tão ocupado fazendo coisas a ponto de nossas maiores satisfações serem breves momentos de parasitismo em epifanias alheias, é um desperdício irrecuperável.
Colecionar epifanias é o que dá valor a nossa existência. E a presença é o que possibilita que tenhamos nossas próprias epifanias. Elas acontecem quando estamos intensamente presentes em todas essas coisas desnecessárias a sobrevivência, mas que nos fazem ter vontade de viver.
A presença pode trazer relacionamentos complexos, mas lembre-se que complexidade também é profundidade. Você será capaz de amar como se ninguém no mundo tivesse tanta intensidade e isso vai atrair pessoas parecidas para sua vida. Provavelmente elas serão poucas e tudo bem, afinal, não há tempo suficiente para amar profundamente muitas pessoas de uma vez.
A presença também pode trazer experiências densas, mas lembre-se que as experiências mais densas são aquelas mais significativas. Você vai viver histórias e criar memórias tão extraordinárias que, ao chegar na velhice, ainda vai sentir aquele quentinho no coração quando lembrar.
No final das contas, cabe a nós fazer a escolha entre ser um Colecionador ou um Parasita de Epifanias. Entre existir para sobreviver e existir para experienciar. Entre assistir um espetáculo ou participar dele. Entre estar presente ou dormente.
*acréscimo meu.
