Os seres humanos são os supervulcões apocalípticos da era atual?

Na sétima temporada da série ultra-pop Game of Thrones, um dos protagonistas, Jon Snow, se vê exasperado: ele está tentando avisar as rainhas e lordes dos reinos de Westeros de que um grande exército de mortos sob o comando de seres fantásticos de gelo está vindo destruir tudo e todos e… bem, ninguém leva ele muito a sério. Porque, afinal, ele está falando de exércitos de mortos, de seres de gelo e da destruição do mundo.

Jon Snow, exasperado

As semelhanças entre a mensagem apocalíptica de Jon Snow e os avisos dos cientistas e ativistas ecológicos do mundo real sobre os perigos do aquecimento global começaram a ser percebida entre os espectadores de Thrones. É provável que os escritores da série tenham mesmo se inspirado em eventos atuais para retratar as dinâmicas da série (em que mudanças climáticas — no caso, esfriamento global — são também um dos perigos iminentes).

Fora de Westeros, também é difícil dar ouvidos àqueles falando sobre o fim do mundo tal como o conhecemos. Boa parte de nós sabe a narrativa básica sobre gases de efeito estufa e mudanças climáticas (isto é: nós queimamos combustíveis fósseis como carvão e petróleo, o gás carbônico e outros gases liberados acumulam na atmosfera e isso vai deixando o planeta mais quente). Mas… é difícil levar totalmente a sério.

Quando nós pensamos em gasolina, nós geralmente pensamos em algo que compramos no posto e cujos preços altos atrapalham o orçamento, e não em milhões de anos de energia solar usada por seres vivos do passado, comprimida e armazenada na forma de carbono, que os humanos resolveram sair queimando a torto e a direito. Quando nós ouvimos sobre aquecimento global, nós imaginamos algo ainda relativamente distante e menos urgente que o ganha-pão de cada dia — e talvez bate até aquele otimismo de que os seres humanos desenvolverão alguma super-tecnologia pra consertar o estrago antes das coisas ficarem muito feias. Mesmo quando começamos a nos preocupar, fica difícil realmente apreender a dimensão do problema. Afinal, aquecimento global parece algo muito grande e cada um de nós é muito pequeno e mal consegue cuidar de nossa própria vida, quanto mais do destino do Planeta Terra. Déborah Danowski e Viveiros de Castro, baseados em Gunther Anders, chamam a crise climática de algo supraliminar (em oposição a “subliminar”, que seria algo muito pequeno pra ser conscientemente percebido) — isto é, é tão grande que escapa a percepção humana e nos sentimos paralisados.

A questão é que, quando realmente paramos para escutar os cientistas (e aquelas pessoas que mais sentem os efeitos das atuais mudanças climáticas em seu dia-a-dia, como populações indígenas e agricultoras camponesas), a situação feia está muito mais perto do que imaginamos.

E nós definitivamente deveríamos escutar as cientistas (ao contrário de Jon Snow, elas sabem bastante). A ciência hoje tem capacidades incríveis: consegue extrair cilindros de gelo da Antártica e medir a quantidade de carbono na atmosfera de centenas de milhares de anos ou mesmo de milhões de anos atrás. Consegue usar satélites para medir precisamente a quantidade de gelo que a Groenlândia está perdendo a cada ano. Consegue utilizar supercomputadores e diferentes modelagens para confirmar que de fato são os seres humanos e não causas naturais/cíclicas causando o aquecimento e para considerar diversos cenários futuros possíveis. O risco não é a ciência estar achando problema onde não tem (a existência do problema é praticamente consenso). O risco é não conseguir prever todas as reações em cadeia dos atuais desequilíbrios que podem deixar as coisas infernais mais rápido do que atualmente pensamos.

Mapa do NOAA mostrando o aquecimento nas últimas três décadas (em Fahrenheit)

Mas uma notícia é boa (para nós; embora não tanto para os dinossauros): cientistas não precisam adivinhar o que é um cenário apocalíptico, porque nosso planeta já passou por diversos apocalipses — os chamados eventos extintivos — no passado, muito antes da humanidade pisar no planeta. Os maiores ficaram conhecidos como as cinco grandes extinções em massa. Na maior delas (Extinção do Permiano-Triássico), 250 milhões de anos atrás, possivelmente mais de 90% das espécies marinhas e mais de 70% das espécies terrestres foram extintas. Cientistas atualmente apontam para as continuadas erupções de supervulcões na região que hoje é a Sibéria como uma das grandes causas dessa aniquilação.

Mas agora vem a notícia ruim, muito ruim. Cientistas também têm achado mais evidência de que o que saiu matando geral na Extinção do Permiano-Triássico (e mesmo em outras extinções massivas) não foi somente lava jorrando por tudo (ou outros desequilíbrios químicos e agentes externos, como meteoros).

Como eu imagino a extinção do Permiano-Triássico

Segundo esses novos estudos, o que os supervulcões fizeram foi precisamente sair jogando um monte de gás carbônico na atmosfera, levando ao aquecimento global e à acidificação dos oceanos. E mais: possivelmente o verdadeiro cenário apocalíptico teria começado justamente quando os vulcões siberianos começaram a queimar reservas antigas subterrâneas de carvão e jogado o carbono delas no ar. Soa familiar?

Recentemente o jornalista Peter Brannen escreveu sobre os novos achados do Seth Burgess (um geólogo americano do Serviço Geológico Estadunidense), que tentou entender melhor como o vulcanismo do passado saiu exterminando a vida:

“Embora os vulcões na Sibéria já estivessem em erupção há cerca de 300.000 anos, o trabalho do Dr. Burgess indica que não foi até que o magma começasse a queimar os combustíveis fósseis em escala colossal que a extinção em massa começou. O gás carbônico foi liberado para a atmosfera tão efetivamente quanto qualquer usina termoelétrica a carvão ou o escape de uma minivan hoje em dia.” 
Peter Brannen, “When Life on Earth Was Nearly Extinguished” (traduzido)

Os paralelos entre a ação humana atual e os vulcões antigos (ambos queimando estoques de carbono vorazmente para gerar mudanças climáticas) é a premissa de um livro desse ano do Peter Brannen (não traduzido do inglês). Embora não estejamos ainda no nível Permiano-Triássico de calor e gás carbônico, Brannen nos alerta que estamos jogando carbono de forma muito mais rápida que erupções do passado e que já estamos condenando muitas espécies marinhas pelo atual processo de acidificação dos oceanos (que absorve parte do carbono que lançamos).

A hipótese de que processos de aquecimento global foram causas centrais nas últimas grandes extinções ainda está sendo desenvolvida pelas paleocientistas. Recentemente um professor de Geofísica do MIT também tentou traçar quais foram os “pontos críticos” na mudança do ciclo do carbono nas grandes extinções do passado, e concluiu que a quantidade de carbono que lançaremos até 2100 no ar e nos oceanos — se continuarmos como estamos — nos jogará em um cenário altamente instável, possivelmente desencadeando um grande processo extintivo nos milênios seguintes.

E não esqueçamos ainda: o efeito estufa é apenas um dos desequilíbrios ecológicos atuais causados por atividade humana. A poluição química, o desmatamento, a difusão do lixo plástico, a sobrepesca, etc. geram ainda outros estresses sobre a vida no planeta. Não à toa alguns pesquisadores estão falando que já iniciamos uma sexta extinção em massa.

De repente estar enfrentando um exército de mortos e seres de gelo não parece tão pior que nossos dilemas terrenos. No caso de Jon Snow, ele encontrou poucos ouvidos para seus avisos também porque todo mundo se juntar para lutar contra os zumbis “atrapalhava” naquele momento as disputas de cada grupo por poder e controle do reinado. Similarmente, diminuir o uso da energia fóssil também tem implicações drásticas e “atrapalha” certos hábitos arraigados e operações lucrativas.

Levar aquecimento global a sério não apenas força pessoas a encararem o horror existencial de um possível apocalipse ou a rever sua vida fóssil-dependente. Há facções maiores que não ficariam tão felizes assim em parar de queimar os estoques de carbono do planeta (e que preferem, na real, ir mais fundo e fundo até achá-los — lembram do nosso pré-sal?). As maiores corporações do mundo são empresas de energia (como Shell e Exxon Mobil), de setores totalmente atrelados aos combustíveis fósseis (como as automobilísticas) ou os bancos que financiam essa queimação toda. E tem mais e mais evidências saindo de que algumas dessas empresas já sabiamdécadas do aquecimento global causado por suas emissões e não apenas esconderam suas informações, mas ativamente espalharam informação enganosa sobre mudanças climáticas. Imaginar os maiores grupos econômicos e seus representantes políticos liderando ou abraçando de bom grado uma transição ecológica parece, no mínimo, fantasioso.

Enquanto escrevo, o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros está em chamas, em um ano de seca crítica no Centro-Oeste brasileiro. Semana passada, um furacão tropical do Atlântico bizarramente chegou à Irlanda, após vários grandes furacões atingirem o Caribe em peso. A crise climática está aqui e ela não é agradável.

No caso do Planeta Terra, parece pouco provável que reis e rainhas benevolentes aparecerão de última hora com poderes mágicos para nos salvar… E isso implica em tarefas muito mais árduas para nós, pessoas comuns, como pensarmos estratégias para retomar o controle coletivo sobre o destino de toda a vida do nosso planeta.

Difícil de imaginar? Sim. Mas se há algo que os rumos do aquecimento global revelam, é justamente que coisas difíceis de serem imaginadas — para o bem e para o mal — podem ser, também, completamente reais.

(Cheque textos futuros para ideias sobre alternativas. 
Há também diversas opções de informação de
cientistas e organizações brasileiras falando sobre o assunto)