O ato de tornar-se educador(a)
Quando que um licenciado se torna um educador? Na minha história comecei dizendo que nunca encararia uma sala de aula, hoje não consigo mais sair dela.

Quando entrei para a faculdade de Pedagogia, aos 17 anos, a única certeza que eu tinha era: NUNCA enfrentarei uma sala de aula regular! A minha “pegada” era trabalhar com educação corporativa, o que não me fazia menos profissional que os meus colegas de turma, mas… você entende né!? Quando entramos para uma licenciatura, o que esperam é que você se forme e entre de cabeça em uma escola de educação básica e se conforme com o fluxo regular das coisas.
Porém, no meu caso, vivenciar a área empresarial, estar perto de CEO’s, presidentes, diretores e presenciar o fluxo de trabalho de equipes inteiras era o que eu acreditava ser a minha vibe.
Segui os meus instintos e tracei uma deliciosa jornada de educação empresarial durante os 4 anos que passei na faculdade. Porém, lá no fundo eu sentia falta de algo, e eu não fazia a menor ideia do que era até tomar a real consciência: me faltava a tal da docência!
Eu poderia investir na docência para educação empresarial? Poderia, claro! Mas resolvi retornar ao meu primeiro mandamento e quebrá-lo: eu entrei em uma sala de aula de ensino regular. Eu entrei cheia de medo, cheia de pré-conceitos, cheia de estigmas e traumas diante da minha própria educação (mas isso é papo pra um outro texto, porque né… quem não tem milhões de histórias sobre a época da escola?).
Conheci a turma, fingi costume, me inteirei sobre cada um, e foi ali que eu saquei que pra ser um professor “ok” você precisa apenas conhecer o conteúdo, ter noções básicas de didática e traçar um cronograma de aprendizado dos seus alunos. Fui uma professora “ok” nos meus primeiros dias de aula, mas senti falta de algo, os meus alunos eram dispersos, não faziam as atividades que eu demandava, bocejavam, conversavam, eu brigava, gritava, enlouquecia. Em resumo: chegava frustrada todos os dias em casa. Repetia como um mantra “eu estava certa! eu NUNCA deveria ter entrado em uma sala de aula!”.
Chegado o primeiro final de semana, eu sentei na frente do meu computador e comecei a buscar referências para montar as minhas próximas aulas. Entre uma pesquisa e outra eu parei para refletir sobre tudo o que eu havia separado e, vocês já perceberam como as atividades para séries iniciais são um porre? São sempre repetitivas, nem um pouco criativas, totalmente aquém da realidade dos alunos, seja pelas referências, seja pela atratividade. É sempre um bichinho qualquer com uma letra, tudo preto e branco para a xerox sair mais fácil. Ou seja… onde estão os Pokémons? os personagens de Titio-Avô, de AHora da Aventura? os Youtubers? Minecraft? Cadê as referências que eles entendem, que eles gostam? Não que os animais não sejam importantes, mas falta aquela característica do aluno, sabe?
Movi para a lixeira tudo o que eu havia pesquisado até então e pensei em como eu poderia coletar as informações dos meus alunos. O que eles gostavam, o que eles queriam aprender, quais habilidades eles queriam desenvolver e entender o universo em que eles se inseriam, para inserir os meus conteúdos à realidade deles, e não o contrário (que é o que nos orientam a fazer logo nas primeiras conversas de coordenação — e nos papos de corredor com os outros professores).
Cheguei na segunda-feira com o espírito renovado. Entrei para a minha sala, chamei todo mundo para sentar pertinho um do outro, ali no chão mesmo, peguei um bloco de notas, e fui enchendo os meninos de perguntas. A princípio eles ficaram um tanto espantados e até bem desconfiados sobre o meu interrogatório, mas logo fui interagindo com eles e fomos tomados por empolgação e entusiasmo. Descobri em meio à conversas, gargalhadas e encenações teatrais que os meus alunos eram extremamente diversos: uns gostavam de Mortal Kombat, outros eram vidrados em YouTube, enquanto outros tinham verdadeira fixação por Minecraft e por aí vai.
Entendi, ali, naquela hora, que o primeiro passo para sair do status de professora ok, frustrada, acabada, cansada e desmotivada, era me entender como pessoa e entender os meus alunos. Era criar um ambiente confortável para a troca de ideias e informações, que diferente do que me contaram ao longo da faculdade e das conversas que eu tinha com colegas da área, eu não era a única detentora de informação. Eu não era a Mestre Yoda do conhecimento. Eu tinha muito o que aprender com os meus alunos, ainda que eles tivessem 10, 15, 20 anos a menos que eu!
Eu saquei que para me tornar uma Educadora eu precisava me transformar, permitir fazer experiências, testar novas metodologias, novas habilidades, e, principalmente, permitir aos meus alunos terem novas experiências e desenvolver novas habilidades, e, além de tudo isso, nós precisávamos nos escutar e respeitar os nossos desejos e limites individuais.
Desde então, em todas as turmas que eu já tive a alegria de dar aula, independente se eram infantil, fundamental, médio ou superior, a minha primeira aula é reservada para entender o que eles gostam, o que eles querem aprender e quais habilidades querem desenvolver. E é incrível como todos (até os do superior) ficam espantados quando faço essas perguntas, porque alguém está se dispondo a ouvi-los. Imagina que incrível seria se todo professor se dispusesse a ouvir os seus alunos? E se juntos fizessem acordos? E se juntos definissem os seus ciclos de aprendizagem? A gente pode começar a transformar a educação assim, aos pouquinhos, fazendo pequenas revoluções dentro da nossa própria prática pedagógica, dentro da nossa própria sala de aula, dentro da nossa própria vida e refletindo na vida dos nossos alunos.

Que mais professores ok deem o primeiro passo para se tornarem educadores e se libertem para um mundo de possibilidades educacionais. Que sejam ousados e que não permitam fazerem das suas aulas um grande passo-a-passo, inovar é importante, é gostoso e surpreendente. Surpreenda-se! ❤
